Mundo ficciónIniciar sesiónA luz suave da manhã atravessava as cortinas de tecido claro, espalhando reflexos dourados pelo amplo quarto.
Susan despertou lentamente. Por alguns segundos permaneceu imóvel. Confusa. O colchão era macio demais. O aroma no ambiente era diferente. O silêncio também. Ela piscou algumas vezes. Olhou para o teto desconhecido. Depois para o lustre elegante. E só então percebeu. Aquele não era seu quarto. Seu coração acelerou. Mas, antes que o pânico a dominasse, as lembranças da noite anterior começaram a retornar. Uma após a outra. Totalmente nítida. O vídeo. A mentira. O hospital. A traição. A descoberta da gravidez da outra mulher. Seu trabalho de parto. A estrada. A dor. O nascimento de Malcollys. E então… Trevis Kinly. Susan virou lentamente o rosto. Ao lado da cama encontrava-se um lindo berço antigo em formato oval. Pintado de branco. Com delicados detalhes entalhados à mão. Por um instante ela apenas observou. Então viu o pequeno corpo adormecido. Malcollys. Seu filho. Dormindo tranquilamente. Seguro. Protegido. Uma emoção indescritível invadiu seu peito. Ela sentiu os olhos marejarem. Não de tristeza. Mas de alívio. Ele estava bem. Ela estava bem. E, pela primeira vez desde que recebera aquele vídeo, não sentia medo. Seu olhar percorreu lentamente o quarto. As lembranças da chegada voltaram com mais clareza. Recordou-se da enorme sala da mansão. Da beleza quase cinematográfica do ambiente. Dos lustres de cristal. Dos móveis sofisticados. Da imponente escadaria curva que levava ao segundo andar. Do elevador instalado discretamente ao lado da escada para atender à avó de Trevis. Lembrou-se também da gentileza com que havia sido recebida pela senhora Margareth. Uma senhora sorridente que mesmo não lhe conhecendo, insistira em tratá-la como uma visita importante. E não como uma desconhecida encontrada numa estrada. Susan recordou-se de Trevis abrindo a porta do quarto para que ela entrasse primeiro. Do jeito respeitoso como havia mantido distância. Sem perguntas. Sem julgamentos. Sem exigir explicações. Apenas oferecendo ajuda. Depois veio à memória do banho. A água quente da enorme banheira. O vapor preenchendo o ambiente. Levando embora parte do cansaço. Parte da dor. Parte da noite que parecia ter durado uma vida inteira. Então lembrou-se da chegada do doutor Arthur. Da sua expressão de surpresa ao descobrir onde e como o pequeno Malcollys havia nascido. Dos exames cuidadosos. Das recomendações. E, principalmente, dos parabéns. — Confesso que já vi situações incomuns na medicina, mas essa certamente entrou para a lista das mais memoráveis — revelou o doutor Arthur. Ele sorria ao dizer aquilo. No fim, ele apertou a mão de Trevis. — Meus parabéns, fez um excelente trabalho. Susan ainda se lembrava perfeitamente do constrangimento estampado no rosto de Trevis. — Que isso, eu praticamente não fiz nada, doutor. — Não? — Não mesmo — disse Trevis sinalizando com a cabeça para Susan deitada. — Ela foi incrível. Depois apontara para o bebê. — E esse pequeno resolveu nascer sozinho. O médico riu. — Mesmo assim, ajudou a trazê-lo ao mundo. Sem jeito, Trevis passou a mão na nuca, claramente sem saber o que responder. A lembrança arrancou um leve sorriso de Susan. Um sorriso verdadeiro. Pequeno. Mas sincero. Foi nesse instante que algumas batidas suaves ecoaram na porta. Toc. Toc. Toc. Susan ergueu a cabeça. — Entre. A maçaneta girou lentamente. E a porta começou a se abrir lentamente. Quem entrou primeiro foi a senhora Margareth. — Bom dia, minha querida! A voz da senhora encheu o quarto de alegria. Susan sorriu. Para a senhora vestida elegantemente como na noite passada. Os cabelos prateados perfeitamente arrumados. Os olhos vivos. E um sorriso tão acolhedor que imediatamente aqueceu o ambiente. — Bom dia — respondeu Susan tentando levantar. — Não querida, não se levante, vim ver se você dormiu bem. — Muito bem, obrigada. — Que maravilha! O doutor Arthur ficará feliz em saber disso. Ele praticamente me proibiu de deixar você se preocupar com qualquer coisa. Susan riu baixinho. A senhora bateu levemente as mãos. Logo duas empregadas entraram. — Bom dia senhora Susan! — cumprimentaram as empregadas. Uma carregava uma bandeja com frutas, pães, café com leite, suco natural e alguns quitutes. A outra aproximou-se silenciosamente do berço do berço. A senhora apontou para a bandeja que a empregada colocou sobre as pernas de Susan, sinalizando para que ela começasse a comer. — Eu fui devidamente ameaçada — disse a senhora. — Ameaçada? — Sim! Ela levou uma das mãos sobre o peito e acomodando-se em uma poltrona ao lado da cama, continuou. — Meu amigo Arthur, disse que se eu não a alimentasse direito, ele me daria uma bronca. Susan não conseguiu evitar uma leve risada. A senhora abriu um largo sorriso, satisfeita por vê-la mais relaxada. Seu olhar foi até o berço. Depois para Susan novamente. E então surgiu aquele brilho característico de quem estava prestes a falar sobre alguém de quem gostava muito. — Trevis me contou tudo o que aconteceu. Susan sentiu um leve constrangimento. — Tudo? — Absolutamente tudo. A senhora fez uma pausa. — Inclusive como você foi corajosa. Susan abaixou os olhos. — E-eu só fiz o que precisava fazer. — Não seja modesta. A senhora apontou para o berço. — Você colocou esse pequeno príncipe no mundo numa estrada. As duas sorriram. Então a senhora continuou: — Mas sabe de uma coisa? Susan ergueu os olhos. — O quê? — Faz muito tempo que não vejo aquele brilho nos olhos do meu neto. Ela falou suavemente. Como quem revelava um segredo. — Que brilho? — O brilho de alguém que se importa. Susan ficou sem saber o que responder. A senhora Margareth sorriu. — Eu vi quando ele entrou por aquela porta carregando você. — S-senhora… Margareth. A senhora assentiu satisfeita. — Vi a preocupação dele. Vi o jeito que olhava para você e para o bebê. Ela suspirou dando uma pausa. — Faz muito tempo que não vejo isso. Susan sentiu-se desconfortável. Não queria alimentar interpretações equivocadas. Principalmente depois de tudo o que havia vivido. Então resolveu mudar de assunto. — A senhora disse que não via esse brilho há muito tempo... A senhora permaneceu em silêncio por alguns segundos. O sorriso diminuiu. — Sim, desde que ele perdeu a mãe. A atmosfera mudou imediatamente. — Sinto muito. A senhora assentiu. — Eu também. Susan hesitou. — Posso perguntar o que aconteceu? A tristeza apareceu claramente nos olhos da senhora. — Foi um acidente. Sua voz ficou mais baixa. — Minha filha adorava esquiar. Susan ouviu atentamente. — Durante uma viagem, ela sofreu uma queda. A senhora apertou as próprias mãos. — Bateu a cabeça. O silêncio tomou conta do quarto. — Ela foi socorrida rapidamente. — E sobreviveu? A senhora sorriu com amargura. — Por alguns dias sim. Susan sentiu um aperto no peito. — Depois disso… A senhora Margareth respirou fundo. — Depois disso nós a perdemos. Por alguns instantes, ninguém falou. Até que a senhora soltou uma pequena risada sem humor. — O pior veio depois. Susan franziu a testa. — Depois…? Margareth assentiu. Uma sombra atravessou seu olhar. — Meu genro não esperou nem um mês. Susan congelou. — C-como…? Choque. — N-em um mês — gaguejou. — Sim! — afirmou a senhora. A amargura em sua voz era impossível de esconder. — Antes mesmo de a dor da perda diminuir, ele apareceu acompanhado de outra mulher. Susan ficou mais chocada. Sem perceber, apertou levemente a xícara em suas mãos. Margareth continuou: — Trevis tinha pouco mais de quatorze anos. — Meu Deus…! — Susan deixou escapar. — Ele não aceitou — revelou a senhora. O orgulho brilhou discretamente nos olhos dela. — Brigou com o pai. — Brigou? — Susan a olhou com olhos arregalados e sobrancelhas erguidas. — Sim! E o expulsou da casa. Susan arregalou mais os olhos. — E- ele expulsou o pai? — Sim. Margareth sorriu. — A casa pertencia à mãe dele, foi presente do pai dela. Um pequeno silêncio surgiu. — E o pai dele, foi embora? — Sim! Junto com a mulher. Susan sentiu um estranho desconforto. Talvez porque aquela história estivesse tocando feridas parecidas e recentes. Margareth percebeu imediatamente. E arrependeu-se de ter entrado naquele assunto. O doutor Arthur havia sido muito claro. Nada de estresse. Nada de tristeza. Nada de emoções fortes. Ela precisava descansar. Precisava se recuperar. Precisava produzir leite. Então a senhora sorriu novamente. Desta vez com mais leveza. — Chega de histórias tristes. Termine seu café. Susan agradeceu mentalmente pela mudança de assunto. E enquanto ela terminava o café, a empregada cuidou de Malcollys. Trocou a fralda. Limpou-o cuidadosamente. E o deixou confortável novamente. Quando Susan terminou de comer, a funcionária trouxe o pequeno até ela. Instintivamente, os braços da mãe se abriram. Malcollys acomodou-se junto ao seu peito. Poucos segundos depois começou a mamar. O quarto mergulhou num silêncio sereno. Margareth observava tudo. Sem dizer nada. Aquela cena despertava lembranças antigas. Lembranças de sua filha. Lembranças de uma época que parecia tão distante. Mas, pela primeira vez em muitos anos, aquelas recordações não vieram acompanhadas apenas de saudade. Vieram acompanhadas de paz. Um calor suave espalhou-se por seu coração. E um largo e belo sorriso surgiu em seu rosto. Porque, olhando para aquela jovem mãe, e para aquele bebê, ela teve a estranha sensação de que a vida acabava de trazer algo muito precioso de volta para dentro daquela casa.






