Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando Trevis voltou ao escritório, encontrou Susan observando Malcollys adormecido em seus braços.
Ela ergueu os olhos assim que ele entrou. — Tudo certo — garantiu Trevis fechando a porta atrás de si. — Tudo certo… o que? Em passou leves, ele aproximou-se dos dois. — Já falei com a pessoa que precisava. Susan aguardou. — Meu amigo é detetive particular. Ela piscou surpresa. — Você já falou com ele? — Sim. — Tão rápido assim? — Quanto antes começar, melhor. Trevis acomodou-se novamente na poltrona. — Pedi que investigasse tudo sobre Durval. Susan ficou imóvel por alguns segundos. Tudo. Aquela palavra ecoou dentro dela. Tudo. Não apenas a mulher. Não apenas o hospital. Mas tudo. Pela primeira vez alguém parecia levar sua dor a sério. Sem minimizar. Sem pedir paciência. Sem dizer que talvez fosse apenas um mal-entendido. Seus olhos se encheram de lágrimas. — Obrigada. Trevis apenas assentiu. — Não precisa agradecer. Mas ela precisava. Porque, em anos de casamento, poucas vezes alguém havia olhado para ela com a mesma atenção que aquele homem demonstrava. Poucas vezes alguém realmente escutara suas palavras. Poucas vezes alguém fizera algo apenas para ajudá-la. Susan respirou fundo. — Também preciso resolver outra coisa. — O quê? — ele quis saber. Ela acariciou a cabeça do filho. — Preciso encontrar um lugar para ficar. Trevis sentiu o corpo enrijecer. — Um lugar para ficar? — Sim. — Por quê? — Porque não quero voltar para minha casa. A voz dela saiu firme. — Não agora. Trevis compreendia perfeitamente. — E também preciso receber meus pais. Ela sorriu levemente. — E a Paula. Seu olhar desceu para Malcollys. — Eles precisam conhecer meu filho. Trevis assentiu. Mas, por algum motivo que nem ele compreendeu, ao ouvir que Susan pretendia partir, algo apertou dentro de seu peito. Uma sensação estranha. Desagradável. Como se a ideia daquela casa voltar ao silêncio o incomodasse mais do que deveria. Ele abriu a boca para responder. Mas não teve oportunidade. A porta foi aberta abruptamente. — NÃO! Susan e Trevis quase se assustaram. A senhora Margareth entrou determinada. Como uma tempestade de um metro e meio de altura. — Você não pode ir embora! Susan piscou surpresa. — C-como? — gaguejou. — Não pode. — Mas… eu — Susan tentou argumentar. — Não pode e pronto. Trevis levou a mão ao rosto. — Vovó... — Nada de vovó. Ela aproximou-se do sofá. — Você acabou de dar à luz. Apontou para Malcollys. — Este anjinho nasceu ontem. Apontou novamente para Susan. — E você ainda está se recuperando. — Eu sei, mas... — Não sabe nada. Trevis fechou os olhos. Já conhecia aquele tom. Ninguém vencia uma discussão contra a dona Margareth naquele estado. Susan tentava conter um sorriso. Então Trevis estreitou os olhos. — Espera um minuto. A senhora ergueu o queixo. — O quê? — Como a senhora sabe do que estávamos falando? Margareth permaneceu em silêncio. Por exatos três segundos. — Porque eu estava ouvindo. Susan quase engasgou. Trevis arregalou os olhos. — Vovó! — O quê? — A senhora estava escutando atrás da porta? — Claro que estava. Ela respondeu com a maior naturalidade do mundo. — Alguém precisa garantir que vocês dois não façam nenhuma bobagem. — Isso é inacreditável. — Eu prefiro chamar de supervisão. Trevis soltou uma risada sem querer. — A senhora está impossível. Margareth revirou os olhos. — Eu tenho oitenta e dois anos. Posso fazer o que quiser. Susan acabou rindo. Uma risada verdadeira. Leve. Espontânea. Margareth imediatamente apontou para ela. — Está vendo? Os dois a olharam sem entender. — Ela está sorrindo. — exaltou a senhora olhando para o neto. Susan ficou vermelha. A senhora aproximou-se e sentou-se ao seu lado. Com carinho, segurou uma de suas mãos. — Que bom vê-la sorrindo, minha querida. A voz saiu suave. Maternal. Acolhedora. Susan sentiu o peito aquecer. Porque, desde que chegara àquela casa, era exatamente assim que vinha sendo tratada. Como alguém importante. Como alguém que merecia cuidado. Margareth apertou sua mão. — E quanto aos seus pais... Susan ergueu os olhos. — Eles serão muito bem recebidos aqui. — M-mas…, mas eu não quero incomodar. — Incomodar? A senhora soltou uma gargalhada. — Minha querida, você não imagina como esta casa estava precisando de vida. A senhora olhou para Malcollys. — E esse pequeno resolveu chegar trazendo uma família inteira. Trevis balançou a cabeça. Já sabia que não adiantava argumentar e dizer à avó que ela estava colocando a carroça à frente dos burros — como ela mesmo costumava dizer. A decisão estava tomada. E todos sabiam disso. Naquela mesma tarde. Augusto recebeu um envelope com os endereços. Entrou no carro da família. E partiu. Primeiro para buscar os pais de Susan. Depois para buscar Paula. Enquanto isso, na mansão Kinly, uma avó extremamente animada supervisionava os preparativos. Porque, segundo ela, a chegada dos convidados era um acontecimento importante. E ninguém discutiria com ela. Muito menos dentro da própria casa. *** Algumas horas depois, o som de um veículo chegando à propriedade chamou a atenção de todos. Margareth foi a primeira a levantar-se. — Chegaram! A senhora de oitenta e dois anos, parecia uma criança aguardando presentes de Natal. Trevis sorriu, ele não via a avó animada daquele jeito a anos. Susan, sentada no sofá com Malcollys nos braços, sentiu o coração acelerar. Seus pais estavam chegando e eles finalmente conheceriam o neto. Poucos segundos depois, Augusto surgiu na entrada principal. Atrás dele vinham três pessoas. Osvaldo. Isabel. E Paula. Assim que atravessaram a porta, os olhos de Isabel encontraram os de Susan. Por um instante, ela ficou imóvel. Então levou as duas mãos à boca. — Meu Deus... As lágrimas surgiram imediatamente. — Minha filha... Susan levantou-se devagar. E no instante seguinte estava sendo abraçada pela mãe. Um abraço apertado. Cheio de amor. Cheio de alívio. Cheio de saudade. Osvaldo aproximou-se logo depois. Visivelmente emocionado. Mas tentando manter a postura. — Então era essa a surpresa… Sua voz falhou. Susan sorriu. — Surpresa boa? — A melhor da minha vida. Ele beijou a testa da filha. E depois observou o pequeno Malcollys. — E esse rapazinho… Os olhos dele brilharam. — Já chegou causando confusão. Todos riram. Foi então que Isabel ergueu os olhos. E viu a senhora Margareth. A mulher congelou. O sorriso desapareceu. A surpresa tomou seu lugar. — N-não…! Não pode ser. Margareth também ficou imóvel. Por alguns segundos nenhuma das duas falou nada. Apenas se encararam. Como se tentassem confirmar o impossível. Então Isabel deu um passo à frente. — Dona Margareth? A senhora levou uma das mãos ao peito. Os olhos enchendo-se de lágrimas. — Isabel... A emoção tomou conta da sala. — Meu Deus… — disse Isabel aproximou-se rapidamente. — Quanto tempo… Dona Mar… Margareth já chorava. — A-anos demais. — falou entre as lágrimas. As duas se abraçaram. Um abraço forte. Demorado. Cheio de lembranças. Cheio de saudade. Susan e Trevis observavam sem entender absolutamente nada. Paula estava com a testa franzida e os olhos arregalados, mas o espanto não era pela emoção das senhoras, e sim, pela bela mansão a qual estava entrando. Osvaldo se mostrava confuso. Quando finalmente se afastaram, Isabel enxugou os olhos. — Eu não acredito que estou diante da senhora. Margareth sorriu através das lágrimas. — Nem eu. Sua voz falhou. — Você era a melhor amiga da minha Teresa. — mencionou a senhora em meio ao soluço. O silêncio tomou conta do ambiente. Ao ouvir aquilo, Susan arregalou os olhos. Trevis fez o mesmo. — Espera… Susan olhou para a mãe. — Vocês se conhecem? Isabel soltou uma risada emocionada. — Se nos conhecemos? Ela voltou a olhar para Margareth. — Eu praticamente vivi na casa dessa senhora durante anos. — E minha filha vivia na sua. As duas sorriram. Mesmo chorando. Trevis franziu mais ainda a testa, os olhos já estavam juntos. — Como isso aconteceu? Isabel voltou-se para ele. — Porque sua mãe namorou meu irmão. Agora foi a vez de Trevis ficar imóvel. — O quê? — Túlio — pronunciou Margareth assentindo com a cabeça. — Eles foram namorados durante anos. Susan piscou várias vezes. — Meu tio Túlio?






