CAPÍTULO 2

Paula observou Susan por alguns segundos.

A amiga estava estranhamente calma.

Calma demais.

Susan permanecia parada no corredor, olhando para o vazio, como se ainda estivesse tentando compreender tudo o que acabara de acontecer.

— Vamos embora daqui — disse Susan, guardando o celular na bolsa.

Paula a acompanhou em silêncio até a saída do hospital.

Já do lado de fora, antes que Susan entrasse no carro, Paula segurou delicadamente seu braço.

— Susan...

— Estou bem.

— Não, você não está.

Susan forçou um sorriso.

— Estou sim.

Paula respirou fundo.

Seu coração acelerou.

Durante todo o caminho até a saída, ela havia tentado decidir se deveria contar ou não o que descobrira.

Mas mentir para Susan nunca foi uma opção.

A amizade das duas havia sido construída sobre confiança.

E confiança exigia verdade.

Mesmo quando a verdade machucava.

Paula aproximou-se um pouco mais.

Sua voz saiu embargada.

— Eu conversei com uma enfermeira daquele andar.

Susan permaneceu imóvel.

— E daí?

Paula engoliu em seco.

— A mulher daquele quarto foi internada com risco de perder o bebê.

Os olhos de Susan piscaram lentamente.

— B-bebê?

— Sim.

O silêncio que se seguiu pareceu interminável.

— E o marido dela... — continuou Paula, quase sussurrando. — Está desesperado porque pode perder o primeiro filho.

Susan sentiu algo se partir dentro dela.

Não foi uma sensação física.

Foi pior.

Foi como se todos os anos de casamento, todas as desculpas, todas as ausências e todas as promessas quebradas tivessem se transformado em estilhaços.

— O-o…, o primeiro filho... — repetiu ela.

Paula assentiu.

As lágrimas começaram a fluir, mas ela não permitiu que escorresse.

Ela não se permitiu chorar.

Não naquele momento.

Apenas fechou os olhos por alguns segundos.

Quando os abriu novamente, pareciam vazios.

— Obrigada por me contar.

— Susan...

— Eu estou bem.

Paula sabia que era mentira.

A pior mentira que Susan já havia contado.

Susan se despediu, entrou no carro e partiu.

A estrada parecia interminável.

A noite estava fria.

Os faróis do carro iluminavam apenas alguns metros à frente.

Susan dirigia mecanicamente.

As lágrimas escorriam sem controle.

Ela mal conseguia enxergar.

A revelação de Paula ecoava sem parar em sua mente.

"O primeiro filho."

"O primeiro filho."

"O primeiro filho."

Como assim o primeiro filho?

E o bebê que ela carregava?

E todos aqueles anos?

Todas as esperas?

Todos os aniversários passados sozinha?

Todas as promessas quebradas?

Um aperto violento tomou conta de seu peito.

Ela levou uma das mãos ao coração.

A respiração ficou difícil.

Curta.

Irregular.

— Não... não... não...

Tentou inspirar profundamente.

Mas não conseguiu.

Outra pontada atravessou seu corpo.

Dessa vez mais forte.

Muito mais forte.

Susan arqueou as costas.

Uma expressão de dor surgiu em seu rosto.

Então sentiu algo quente.

Úmido.

Ela olhou para baixo.

Por um instante não compreendeu.

Mas quando viu o vestido molhado, o sangue desapareceu de seu rosto.

— Meu Deus...

Sua bolsa havia estourado.

O bebê estava chegando.

Naquele exato momento.

Sozinha.

No meio da estrada.

Sem ninguém.

Sem ajuda.

Sem Durval.

Outra contração a atingiu.

Violenta.

Susan gritou.

O carro balançou levemente.

Com dificuldade, conseguiu encostar no acostamento.

As mãos tremiam.

O corpo inteiro tremia.

Ela pegou o celular.

A tela permaneceu preta.

Desligado.

Sem bateria.

— Não... não... por favor...

Procurou desesperadamente pelo carregador.

Abriu a bolsa.

Mexeu entre os objetos.

Nada.

O cabo havia ficado em casa.

O pânico começou a sufocá-la.

Uma nova contração veio.

Mais intensa.

Mais longa.

Susan apertou o volante com tanta força que seus dedos ficaram brancos.

Os minutos pareciam horas.

Nenhum carro.

Nenhuma luz.

Nenhuma alma.

Apenas ela.

A escuridão.

E a dor.

Então...

Ao longe, dois faróis surgiram.

Susan ergueu a cabeça imediatamente.

As lágrimas voltaram.

Ela abriu a janela.

Colocou o braço para fora.

Acenou desesperadamente.

— Por favor...

O carro se aproximou.

Um sedan preto.

Luxuoso.

Passou lentamente ao lado dela.

Por um segundo, Susan acreditou que seguiria viagem.

Seu coração afundou.

Mas então...

As luzes vermelhas dos freios acenderam.

O veículo parou alguns metros adiante.

— Obrigada, meu Deus...

A porta do motorista se abriu.

Um senhor de cabelos grisalhos, vestindo um elegante terno preto, saiu rapidamente.

Ao se aproximar da janela, encontrou Susan completamente abatida.

Suada.

Pálida.

Em sofrimento.

— Meu Deus...

Ele imediatamente percebeu a gravidade da situação.

Sem perder tempo, correu de volta ao carro.

Poucos segundos depois retornou acompanhado de um homem mais jovem.

Alto.

Elegante.

Na faixa dos trinta e cinco anos.

O desconhecido se aproximou rapidamente.

Ao ver o estado de Susan, seu semblante mudou.

Então seus olhos desceram para o banco molhado.

Foi o bastante.

Ele entendeu tudo.

Na mesma hora retirou o paletó.

— Precisamos levá-la para um hospital agora.

— Me ajude a tirá-la daqui — ordenou ao homem mais velho.

Mas antes que pudessem tocá-la, uma contração ainda mais forte atravessou o corpo de Susan.

Ela soltou um grito.

Instintivamente levou as mãos ao ventre.

E então sentiu.

Sentiu algo diferente.

Algo aterrorizante.

O bebê estava descendo.

Susan ergueu os olhos cheios de lágrimas.

— Não...

Outra onda de dor a fez gemer.

— Não vai dar tempo...

O homem se inclinou imediatamente.

— O quê?

— Não vai dar tempo...

Ela respirava com dificuldade.

O rosto completamente molhado de suor.

— M-meu bebê...

Mais uma contração.

Mais um gemido.

Então Susan segurou o braço dele com força.

Uma força que nem sabia possuir.

— E-ele… — ela puxou o ar tomando fôlego — ele está nascendo…

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