Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo hospital, após a mulher finalmente adormecer, Durval pegou o celular.
A tela iluminou seu rosto imediatamente. Três chamadas perdidas. Susan. Seu coração acelerou. Ela raramente ligava mais de uma vez seguida. Levantando-se com cuidado para não acordar a paciente, ele saiu do quarto e caminhou em silêncio pelo corredor. Assim que chegou próximo às janelas, retornou a ligação. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Nada. Em todas as tentativas, a mesma mensagem mecânica ecoou em seu ouvido: Este celular está desligado ou fora da área de cobertura. Ele franziu a testa. Tentou novamente. Sem sucesso. Então ligou para o telefone fixo de casa. Chamou. Chamou. Chamou. Ninguém atendeu. Uma sensação estranha começou a surgir em seu peito. Pensou em ligar para os pais de Susan. Olhou para o relógio. Já era muito tarde. Então desistiu. Não queria assustá-los sem motivo. Ou talvez estivesse tentando convencer a si mesmo de que não havia motivo para preocupação. Guardou o celular no bolso. E permaneceu parado diante do grande basculante do corredor. Lá fora, a noite parecia silenciosa demais. Com os olhos erguidos para o céu escuro ficou ali, seu coração inquieto. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um incômodo que não conseguia explicar. em pensamento se perguntava: Onde Susan estava? *** Enquanto isso, a uns quilômetros dali, Susan seguia acomodada no banco traseiro do luxuoso veículo de Trevis Kinly. Malcollys dormia profundamente em seus braços. O pequeno parecia completamente alheio à tempestade que havia atingido a vida da mãe poucas horas antes. Trevis, sentado ao seu lado, lançava olhares discretos para os dois. Em alguns momentos observava o bebê. Em outros, observava Susan. Principalmente quando ela fechava os olhos por alguns segundos, exausta. Durante o trajeto, ele fez uma ligação. — Vovó? Do outro lado da linha, uma voz animada respondeu imediatamente. — Trevis! Onde você está? — Estou chegando. Trevis soltou uma breve risada. — Vovó eu não estou sozinho. O silêncio do outro lado foi imediato. — C-como…, como assim "não está sozinho"? — Estou levando uma convidada. A senhora demorou alguns segundos para responder. — Uma… uma convidada? — Sim. — Mulher? Trevis fechou os olhos. Já sabia para onde aquela conversa estava indo. — Sim, vovó. — Meu Deus… — E tem um bebê também. Do outro lado da linha ouviu-se um grito abafado. — TREVIS KINLY! Augusto, que dirigia o veículo, começou a rir. Trevis passou a mão pelo rosto. — Vovó, por favor… — Eu sabia! — Não sabia nada, vovó não é o que a senhora está... — Sabia sim! — a avó o interrompeu. — Não sabia… — ele tentava continuar, mas a avó não lhe dava sequer chance. — Eu disse para minhas amigas que você me daria um bisneto antes dos quarenta! — Vovó! Quero que chame o doutor Arthur imediatamente! — O-o quê…! Querido, por que devo chamar o doutor Arthur? Mas a senhora ficou sem resposta, a ligação foi encerrada antes dele explicar qualquer coisa. Do outro lado a senhora permaneceu imovel. Esse meu neto enlouqueceu? Como ele resolve aparecer assim, e ainda mais a essa hora com uma mulher e uma criança! *** No carro. Augusto soltou uma risada. — Ela vai ter um ataque — disse ele. — Eu sei — Trevis confirmou. — Devia ter explicado melhor. — Eu tentei. — Não tentou. — Augusto, dirija. O silêncio tomou o interior do carro. *** Minutos depois. O enorme portão de ferro da propriedade se abriu lentamente. O carro atravessou a entrada e percorreu o longo caminho cercado por jardins impecavelmente cuidados. Luzes ornamentais iluminavam árvores centenárias e canteiros floridos. Susan observava tudo pela janela. A propriedade parecia saída de um filme. Quando finalmente chegaram à residência principal, o carro desacelerou diante da imponente porta de madeira maciça. Antes mesmo que o veículo parasse completamente, a porta da mansão foi aberta. Uma senhora surgiu na entrada. Elegante. Impecavelmente arrumada. E completamente emocionada. Os olhos dela brilharam assim que avistaram o carro. — Não acredito... Ela levou uma das mãos ao peito. — Eu não acredito… Já ainda dentro do carro, Trevis fechou os olhos. — Lá vamos nós... Augusto começou a rir novamente. Assim que a porta foi aberta, a senhora praticamente desceu os dois degraus correndo, ou pelo menos o mais rápido que uma senhora de oitenta e dois anos conseguia correr. — Meu menino! Ela parou diante do neto. Olhou para Susan. Depois para o bebê. Depois novamente para Susan. E então voltou a olhar para o bebê. As lágrimas apareceram instantaneamente. — Eu sabia! — Vovó… — Trevis tentou. — Eu sabia! — continuou a senhora. — Não é o que a senhora está pensando. — É exatamente o que estou pensando! — retrucou a avó. Ela apontou para o pequeno Malcollys. — Olha esse bebê! Então apontou para Susan. — Olha essa moça linda! Depois apontou para Trevis. — E olha para sua cara de culpado! Augusto quase engasgou tentando segurar o riso. — Vovó… — Você apareceu do nada com uma mulher e um recém-nascido! Ela abriu os braços dramaticamente. — Finalmente! Susan, mesmo exausta, não conseguiu evitar. Sorriu. Pela primeira vez desde o hospital. Uma risada escapou de seus lábios. Trevis percebeu. E, ao vê-la sorrir, sentiu algo estranho dentro do peito. Algo que não acontecia havia muito tempo. Enquanto isso, a senhora já se inclinava para ver o bebê. — Meu bisnetinho é lindo. — Ele não é seu bisneto. — O-o quê…? — ela demorou uns segundos para assimilar o que o neto disse. — Bom, se não é, por vir ser, não pode…? — Vovó! — Ele a olhou sério. — O que? Vai me dizer mais uma vez que ainda não está na hora? — Vovó! — Querido, eu tenho oitenta e dois anos. Sonhar ainda é permitido. E, pela primeira vez naquela noite caótica, todos acabaram rindo.






