CAPÍTULO 4

No hospital, após a mulher finalmente adormecer, Durval pegou o celular.

A tela iluminou seu rosto imediatamente.

Três chamadas perdidas.

Susan.

Seu coração acelerou.

Ela raramente ligava mais de uma vez seguida.

Levantando-se com cuidado para não acordar a paciente, ele saiu do quarto e caminhou em silêncio pelo corredor.

Assim que chegou próximo às janelas, retornou a ligação.

Uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

Nada.

Em todas as tentativas, a mesma mensagem mecânica ecoou em seu ouvido:

Este celular está desligado ou fora da área de cobertura.

Ele franziu a testa.

Tentou novamente.

Sem sucesso.

Então ligou para o telefone fixo de casa.

Chamou.

Chamou.

Chamou.

Ninguém atendeu.

Uma sensação estranha começou a surgir em seu peito.

Pensou em ligar para os pais de Susan.

Olhou para o relógio.

Já era muito tarde.

Então desistiu.

Não queria assustá-los sem motivo.

Ou talvez estivesse tentando convencer a si mesmo de que não havia motivo para preocupação.

Guardou o celular no bolso.

E permaneceu parado diante do grande basculante do corredor.

Lá fora, a noite parecia silenciosa demais.

Com os olhos erguidos para o céu escuro ficou ali, seu coração inquieto.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um incômodo que não conseguia explicar.

em pensamento se perguntava:

Onde Susan estava?

***

Enquanto isso, a uns quilômetros dali, Susan seguia acomodada no banco traseiro do luxuoso veículo de Trevis Kinly.

Malcollys dormia profundamente em seus braços.

O pequeno parecia completamente alheio à tempestade que havia atingido a vida da mãe poucas horas antes.

Trevis, sentado ao seu lado, lançava olhares discretos para os dois.

Em alguns momentos observava o bebê.

Em outros, observava Susan.

Principalmente quando ela fechava os olhos por alguns segundos, exausta.

Durante o trajeto, ele fez uma ligação.

— Vovó?

Do outro lado da linha, uma voz animada respondeu imediatamente.

— Trevis! Onde você está?

— Estou chegando.

Trevis soltou uma breve risada.

— Vovó eu não estou sozinho.

O silêncio do outro lado foi imediato.

— C-como…, como assim "não está sozinho"?

— Estou levando uma convidada.

A senhora demorou alguns segundos para responder.

— Uma… uma convidada?

— Sim.

— Mulher?

Trevis fechou os olhos.

Já sabia para onde aquela conversa estava indo.

— Sim, vovó.

— Meu Deus…

— E tem um bebê também.

Do outro lado da linha ouviu-se um grito abafado.

— TREVIS KINLY!

Augusto, que dirigia o veículo, começou a rir.

Trevis passou a mão pelo rosto.

— Vovó, por favor…

— Eu sabia!

— Não sabia nada, vovó não é o que a senhora está...

— Sabia sim! — a avó o interrompeu.

— Não sabia… — ele tentava continuar, mas a avó não lhe dava sequer chance.

— Eu disse para minhas amigas que você me daria um bisneto antes dos quarenta!

— Vovó! Quero que chame o doutor Arthur imediatamente!

— O-o quê…! Querido, por que devo chamar o doutor Arthur?

Mas a senhora ficou sem resposta, a ligação foi encerrada antes dele explicar qualquer coisa.

Do outro lado a senhora permaneceu imovel.

Esse meu neto enlouqueceu? Como ele resolve aparecer assim, e ainda mais a essa hora com uma mulher e uma criança!

***

No carro.

Augusto soltou uma risada.

— Ela vai ter um ataque — disse ele.

— Eu sei — Trevis confirmou.

— Devia ter explicado melhor.

— Eu tentei.

— Não tentou.

— Augusto, dirija.

O silêncio tomou o interior do carro.

***

Minutos depois.

O enorme portão de ferro da propriedade se abriu lentamente.

O carro atravessou a entrada e percorreu o longo caminho cercado por jardins impecavelmente cuidados.

Luzes ornamentais iluminavam árvores centenárias e canteiros floridos.

Susan observava tudo pela janela.

A propriedade parecia saída de um filme.

Quando finalmente chegaram à residência principal, o carro desacelerou diante da imponente porta de madeira maciça.

Antes mesmo que o veículo parasse completamente, a porta da mansão foi aberta.

Uma senhora surgiu na entrada.

Elegante.

Impecavelmente arrumada.

E completamente emocionada.

Os olhos dela brilharam assim que avistaram o carro.

— Não acredito...

Ela levou uma das mãos ao peito.

— Eu não acredito…

Já ainda dentro do carro, Trevis fechou os olhos.

— Lá vamos nós...

Augusto começou a rir novamente.

Assim que a porta foi aberta, a senhora praticamente desceu os dois degraus correndo, ou pelo menos o mais rápido que uma senhora de oitenta e dois anos conseguia correr.

— Meu menino!

Ela parou diante do neto.

Olhou para Susan.

Depois para o bebê.

Depois novamente para Susan.

E então voltou a olhar para o bebê.

As lágrimas apareceram instantaneamente.

— Eu sabia!

— Vovó… — Trevis tentou.

— Eu sabia! — continuou a senhora.

— Não é o que a senhora está pensando.

— É exatamente o que estou pensando! — retrucou a avó.

Ela apontou para o pequeno Malcollys.

— Olha esse bebê!

Então apontou para Susan.

— Olha essa moça linda!

Depois apontou para Trevis.

— E olha para sua cara de culpado!

Augusto quase engasgou tentando segurar o riso.

— Vovó…

— Você apareceu do nada com uma mulher e um recém-nascido!

Ela abriu os braços dramaticamente.

— Finalmente!

Susan, mesmo exausta, não conseguiu evitar.

Sorriu.

Pela primeira vez desde o hospital.

Uma risada escapou de seus lábios.

Trevis percebeu.

E, ao vê-la sorrir, sentiu algo estranho dentro do peito.

Algo que não acontecia havia muito tempo.

Enquanto isso, a senhora já se inclinava para ver o bebê.

— Meu bisnetinho é lindo.

— Ele não é seu bisneto.

— O-o quê…? — ela demorou uns segundos para assimilar o que o neto disse.

— Bom, se não é, por vir ser, não pode…?

— Vovó! — Ele a olhou sério.

— O que? Vai me dizer mais uma vez que ainda não está na hora?

— Vovó!

— Querido, eu tenho oitenta e dois anos. Sonhar ainda é permitido.

E, pela primeira vez naquela noite caótica, todos acabaram rindo.

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