Quando o mundo desmorona

O silêncio do pequeno kitnet parecia ainda mais pesado do que o normal naquele domingo. Marina estava sentada no colchão, as pernas cruzadas, a cabeça afundada entre as mãos. Não precisava trabalhar naquele dia — e, pela primeira vez desde que chegara ao Japão, ela agradecia profundamente por isso.

Depois do episódio na cafeteria, Marina não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido. A cena voltava em flashes dolorosos, como cortes rápidos na mente: a bandeja caindo, o café derramando, o olhar furioso, as palavras cruéis jogadas sem piedade.

Não era apenas por ter derrubado café em um cliente.

Não era apenas por Kaito ter presenciado tudo aquilo.

Era por tudo o que ela ouviu.

“Volta pro seu país.”

As palavras ecoavam na cabeça de Marina como se ainda estivessem sendo ditas naquele instante — afiadas, venenosas, certeiras. Ela sempre soube que alguns japoneses tinham certa resistência com estrangeiros, mas jamais imaginou que ouviria algo tão direto, tão humilhante.

Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor das mãos.

No kitnet silencioso, as paredes pareceram encolher ao redor dela.

Por mais que abrisse a janela ou acendesse todas as luzes, a sensação não ia embora.

Marina sentia-se deslocada.

Minúscula.

Fora do lugar.

Mesmo alguém com a maior autoestima do mundo teria sentido o golpe, e ela…

Ela nunca teve a maior autoestima do mundo.

E saber que Kaito — justamente Kaito — tinha visto tudo tornava a dor ainda mais intensa.

O homem que ela admirava desde a adolescência.

O profissional que a inspirou a vir para o Japão.

O rosto que ela sempre achou impossível de alcançar.

Ele viu sua pior versão.

Assustada.

Desajeitada.

Sendo humilhada sem conseguir se defender.

Marina passou as mãos pelo rosto, sentindo a pele quente e repuxada de tanto segurar o choro.

— Que vergonha… — murmurou para si mesma, a voz falhando.

Ela sabia que tinha sido um acidente. Sabia que o cliente tinha exagerado. Sabia que Kaito e os outros tinham tentado intervir. E ainda assim o peso não diminuía.

Naquele domingo, sentada no minúsculo kitnet que representava seu sonho de recomeço, Marina sentiu o Japão — o país pelo qual ela cruzou o mundo — se tornar subitamente distante, frio e hostil.

***

Na segunda-feira, o despertador tocou como sempre, mas Marina não teve forças para sequer esticar o braço e desligá-lo. Ela encarou o teto por longos segundos, sentindo o peso acumulado do dia anterior puxá-la de volta para dentro de si mesma.

Levou alguns minutos até finalmente pegar o celular e digitar a mensagem para Rafael.

“Bom dia, Rafael.

Eu ainda estou muito nervosa pelo que aconteceu. Será que posso faltar hoje? Desculpa.”

O dedo dela pairou sobre o botão de enviar.

Teve vontade de apagar tudo.

De escrever “tô doente”.

Ou simplesmente ignorar e ir trabalhar mesmo tremendo de ansiedade.

Mas não tinha como.

O peso no peito era real.

A vergonha ainda queimava forte demais.

Ela apertou Enviar.

A resposta veio menos de dois minutos depois.

“Claro, Marina. Não se preocupe.

Eu sei como é.

Já passei por isso antes e não é fácil mesmo.

Fica em casa hoje e descansa, tá?”

A gentileza dele — simples, direta — fez o nó na garganta dela apertar novamente.

Ela reclinou a cabeça no travesseiro, sentindo o alívio se misturar à culpa.

Pouco tempo depois, o celular vibrou de novo.

Era Camila.

“Amiga, tô indo aí à tarde.

Quero te ver, saber como você tá.”

Marina fechou os olhos com força.

Por mais que amasse a presença de Camila, não tinha condições de conversar, muito menos de reviver tudo aquilo em voz alta.

Com as mãos trêmulas, respondeu:

“Camila, obrigada, mas eu queria ficar sozinha hoje.

De verdade.”

A resposta da amiga veio um minuto depois.

“Tudo bem. Se precisar de mim, me chama.

Estarei aqui.”

***

Depois daquela segunda-feira em que pediu folga, Marina voltou ao trabalho — mas nada, absolutamente nada, parecia como antes.

Ela entrava na cafeteria com o uniforme impecavelmente limpo, o cabelo preso com cuidado, o sorriso ensaiado… mas por dentro, parecia estar andando sobre cacos de vidro. Cada passo era pesado, cada gesto, calculado demais.

E o resultado logo começou a aparecer.

Na terça, deixou um copo cair no chão quando um grupo de estudantes passou rindo alto.

Na quarta, confundiu dois pedidos e precisou lidar com uma cliente impaciente que revirava os olhos como se ela fosse incapaz até de respirar.

Na quinta, queimou o próprio dedo no vapor da máquina de café.

Rafael observava tudo. Cada pequeno deslize, cada olhar perdido, cada tremor nas mãos. Ele era calmo, paciente, mas também alguém que conhecia aquele tipo de queda. Ele já tinha passado por algo semelhante. Sabia reconhecer os sinais — e Marina estava desmoronando devagar.

Até que, numa manhã cinzenta de sexta-feira, o inevitável aconteceu.

Marina estava servindo uma bandeja com duas taças de cappuccino quando tropeçou no próprio pé. As taças voaram num arco dramático e se espatifaram no chão, respingando café espesso por todo lado. O barulho pareceu alto demais. O silêncio depois foi pior.

O rosto dela empalideceu, e Rafael veio imediatamente ajudá-la.

— Marina… — disse ele, gentil, mas firme. — Acho que precisamos conversar um pouquinho. Só nós dois.

Ela apenas assentiu, o coração martelando tão forte que parecia que todos podiam ouvir.

No escritório pequeno nos fundos da cafeteria, Marina ficou de pé, as mãos entrelaçadas, olhando para o chão como se procurasse um buraco para desaparecer dentro.

Rafael respirou fundo.

— Eu não quero te pressionar — começou ele, com um cuidado quase fraternal — mas você não está bem. E eu sei que isso não é só sobre trabalho. Sei porque… — ele hesitou um instante — …porque já passei por algo muito parecido.

As palavras dele, tão compreensivas, foram o golpe final. Os olhos de Marina se encheram de lágrimas.

E antes que Rafael pudesse continuar, ela falou.

— Eu… — sua voz falhou. — Eu acho melhor eu me demitir.

Rafael arregalou os olhos, surpreso, mas não por discordar — e sim por ver o quanto aquilo estava machucando ela.

— Marina…

— Me desculpa por tudo — disse ela, a voz trêmula, finalmente levantando os olhos marejados para ele. — Eu estraguei tantas coisas nos últimos dias e você não merece isso. A cafeteria não merece isso. Eu não estou conseguindo. Não consigo ser eu mesma. Não consigo nem ser funcional.

Rafael suspirou, com um olhar que misturava compreensão e impotência.

— Se essa é a sua decisão eu vou respeitar. Mas quero que saiba que você não falhou. Você está apenas machucada. E isso acontece. Mais do que você imagina.

As lágrimas finalmente escaparam, silenciosas.

A demissão foi aceita. E Marina saiu daquele escritório sentindo-se ainda menor do que quando entrou — como se estivesse deixando para trás não apenas um emprego, mas uma parte dela mesma que, até então, acreditava ser forte o bastante para aguentar qualquer coisa.

A partir dali, as coisas que já não estavam boas… pioraram.

Pioraram de um jeito lento, silencioso, quase cruel.

Já fazia seis meses que Marina estava no Japão — seis meses que deveriam ter sido o início de um novo capítulo, promissor, emocionante, cheio de possibilidades. Mas, desde a demissão, tudo parecia empilhar-se contra ela como ondas quebrando em sequência, sem dar tempo de respirar.

Ela tentou novas vagas. Tentou cafeterias menores, izakayas, lojas de conveniência, até limpeza em hotéis.

Nada.

Nem respostas.

Os poucos e-mails que recebeu eram sempre educados, formais — e terrivelmente iguais:

“Obrigados pelo interesse, mas optamos por outro candidato.”

“Infelizmente, buscamos alguém com mais experiência.”

“Lamentamos informar que…”

Com o passar das semanas, Marina passou a conhecer aquele silêncio digital melhor do que o próprio tom da sua voz.

O dinheiro que tinha trazido do Brasil começou a derreter como neve sob um sol impiedoso. O aluguel do kitnet, mesmo sendo minúsculo, consumia boa parte das economias. A comida… passou de refeições humildes para versões ainda mais humildes.

Até o transporte começou a ficar caro demais. Marina passou a caminhar longas distâncias para economizar cada moeda.

E, numa noite fria, ela finalmente encarou o pior:

O dinheiro estava prestes a acabar.

De verdade.

E ela não tinha nem como voltar para o Brasil.

A passagem era cara demais, muito além das migalhas que restavam. E pedir ajuda para a família… aquilo era simplesmente impossível.

A humilhação de ouvir “a gente avisou” seria maior do que qualquer coisa pela qual ela já tinha passado.

Eles sempre disseram que ir morar no Japão sozinha não ia dar certo.

Que ela não tinha estrutura.

Que era um sonho tolo.

Marina respirou fundo, os olhos ardendo, a garganta apertada.

Ela não suportaria ouvir aquelas palavras.

Não daquele jeito.

Não naquele momento.

A única coisa que a mantinha minimamente de pé era Camila.

As duas continuaram se falando todos os dias. Camila mandava mensagens cedo, perguntando se ela tinha comido, se tinha descansado, se estava procurando vagas. Mandava memes, vídeos bobos, fotos do trabalho… como se tentasse, com pequenas doses de luz, impedir Marina de afundar completamente na escuridão.

E Marina respondia. Nem sempre com entusiasmo, nem sempre com força — mas respondia. Porque Camila era uma das poucas certezas que ainda lhe restavam ali.

Mesmo assim, por mais que tentasse agir como estava tudo bem, Camila percebia. Ela sempre percebia.

E Marina sabia que, em algum momento, não teria mais como esconder o quão fundo havia caído.

Mais uma semana se passou.

Mais recusas.

Mais silêncios.

Mais noites sem dormir.

Até que um sábado de manhã, quando ela abriu os olhos após apenas duas horas de sono, encontrou no celular uma mensagem de Camila, curta e estranhamente séria:

“Marina, me espera no seu apartamento hoje depois do expediente”

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