Ecos de humilhação

Os dias seguintes passaram devagar, arrastados, como se o tempo tivesse resolvido brincar com a ansiedade de Marina.

Desde aquela tarde em que vira Kaito tão de perto — tão real, tão palpável — ela não conseguia evitar. Toda vez que a porta do café se abria, o sininho tocando suave no alto, seu coração disparava em um reflexo que ela não conseguia controlar.

E, inevitavelmente, caía na própria expectativa.

Ela parava o que estivesse fazendo — secar um copo, anotar um pedido, organizar as vitrines — e levantava os olhos, sempre com a mesma esperança tola brilhando dentro do peito.

Mas nunca era ele.

Entravam estudantes, senhoras japonesas, casais jovens, até alguns estrangeiros curiosos…

Mas não Kaito.

Camila até brincou um dia:

— Menina, você parece que está esperando o amor da sua vida entrar por essa porta! — disse, rindo enquanto arrumava a máquina de café.

Marina fingiu rir também, desviando o olhar para esconder o rubor que subiu em suas bochechas. Não podia — e não queria — explicar o motivo real daquela reação.

A verdade é que ela esperava.

Esperava sem admitir.

Esperava sem saber se ele voltaria.

Esperava apesar de saber o quão impossível aquilo era.

O coração dela fazia festa toda vez que o sininho da porta tilintava…

…e se despedaçava um pouquinho quando percebia que era só mais um cliente comum.

E assim passaram-se não apenas dias, mas semanas.

Kaito não voltou.

Nem uma só vez.

E Marina começou a se perguntar se aquela pequena magia que sentiu no breve encontro não passara apenas de um capricho do destino — algo destinado a acontecer só uma única vez.

Mesmo assim…

Por mais que tentasse se convencer do contrário…

Toda vez que a porta se abria, seus olhos ainda corriam para ela, procurando aquela silhueta alta, aquele sorriso calmo, aquela voz que ela reconheceria mesmo se o mundo inteiro estivesse em silêncio.

Mas ele não vinha.

Não ainda.

A chuva tamborilava suave contra as janelas do café, formando riscos tortos pelos vidros e enchendo o ambiente com aquele cheiro úmido e doce que sempre anunciava tardes movimentadas. Marina estava atrás do balcão, tentando se distrair enquanto enxugava pela terceira vez a mesma xícara.

Até aquela tarde.

A porta abriu com um tilintar mais forte, carregando uma lufada de ar frio e o som abafado da chuva. Marina levantou o olhar por pura força do hábito… e o ar sumiu de seus pulmões.

Kaito.

E não estava sozinho.

Atrás dele entravam outros três seiyuus, vozes que ela reconheceria até dormindo. Dois deles trabalhavam diretamente com ele no anime que estava em exibição naquela temporada; o terceiro era famoso por um papel icônico em um shounen clássico. A mesa que escolheram ficou perto da janela, e quando Kaito tirou o capuz da jaqueta, sacudindo delicadamente as pontas do cabelo escuro ainda úmidas, Marina sentiu o estômago afundar.

Ele estava ainda mais bonito do que ela lembrava.

A reação foi imediata — o mesmo calor subindo pelo pescoço, o mesmo tremor nas mãos. Mas dessa vez não havia Camila para aparecer do nada e salvá-la. A amiga ficara em casa, resfriada, e Marina era a única atendente do turno.

Não tinha escapatória.

Respirou fundo. Mais fundo do que realmente precisava. Reprimiu o impulso de esconder-se atrás da máquina de café ou fingir que não os tinha visto. Pegou o bloquinho de anotações com dedos que insistiam em tremer e caminhou até a mesa como se estivesse prestes a enfrentar uma prova que não estudara.

— Boa tarde… — conseguiu dizer, com a voz delicada, porém surpreendentemente firme.

Os quatro levantaram o olhar.

E como se o tempo tivesse ensaiado aquilo, os olhos de Kaito encontraram os dela. Não foram apenas segundos — foram incontáveis batidas de coração condensadas em um único instante. Havia surpresa ali, mas havia também reconhecimento. Ele definitivamente se lembrava dela.

Marina sentiu as pernas fraquejarem de leve, mas manteve o sorriso profissional.

— O que vocês gostariam de pedir? — completou, tentando manter a postura.

Kaito a observava com um interesse calmo, atento, como se tentasse encaixar alguma peça de memória que já tinha lugar. E saber que ele estava olhando — realmente olhando — fez algo quente se abrir dentro dela, como se a tarde chuvosa tivesse ficado subitamente mais luminosa.

Marina anotou cada pedido com mãos firmes, ou pelo menos tentando parecerem firmes. Mesmo concentrada, ela notou quando um dos seiyuus — um homem de semblante afiado, sorriso inexistente e postura rígida — a avaliou de cima a baixo com um olhar carregado de desdém. Não era apenas julgamento; era como se, na cabeça dele, ela estivesse invadindo um espaço que não lhe pertencia.

Ela fingiu não reparar. Um sorriso curto, neutro, e terminou a lista.

— Arigatou. Já trago — disse com a voz mais educada que conseguiu.

Virou-se e caminhou até o balcão, onde respirou fundo, tentando se recompor. Seu coração ainda estava acelerado. Não pelo seiyuu arrogante, mas porque Kaito estava ali — tão real, tão próximo — e ela precisava manter a compostura. O olhar torto do outro homem era só um ruído incômodo no fundo da mente.

Ela se concentrou no preparo dos pedidos, movendo-se com a precisão que aprendera nas últimas semanas. Colocou o bolo escolhido no prato, preparou o café especial brasileiro, arrumou as xícaras de cerâmica e ajeitou tudo na bandeja. Quando terminou, soltou um suspiro e ergueu a bandeja, equilibrando o peso com as duas mãos.

“Devagar, Marina. Respira. É só mais uma mesa.”

Mas o destino às vezes tem um senso de humor cruel.

O piso perto da mesa deles estava úmido. Os clientes haviam entrado correndo por causa da chuva, e gotas ficaram espalhadas no chão liso. Marina, focada demais em manter a bandeja estável, não percebeu o brilho escorregadio.

O pé dela deslizou.

Foi rápido demais para reagir. A bandeja inclinou violentamente. Xícaras, pratos e talheres pareciam flutuar por um segundo antes de caírem em direção ao inevitável.

O café quente e o bolo atingiram em cheio o seiyuu arrogante.

Um silêncio cortante tomou o ambiente.

O homem levantou-se tão abruptamente que a cadeira bateu contra o chão, fazendo Marina estremecer. Ela arregalou os olhos, branca como papel.

— M-me desculpa, eu… — tentou dizer, mas sua voz tremia tanto que mal era audível.

Ele olhou para a camisa suja, para a bandeja caída, e depois para ela. A expressão dele se fechou num ódio frio.

— Você é completamente irresponsável! — ele explodiu, a voz ecoando pelo café. — Não tem olhos? Não sabe andar? Que tipo de funcionária é você!?

Marina engoliu seco. Quis falar. Quis explicar que escorregou, que estava nervosa, que não foi por descuido. Mas sua garganta parecia ter sido trancada por dentro.

— E ainda contratam gente assim? — ele continuou, ainda mais alto. — Gente de fora. Volta pro seu país se não consegue fazer nem uma tarefa tão simples!

As palavras dela morreram. Mas as lágrimas começaram a nascer. Quentes, cortando seus olhos como lâminas internas. Ela piscou rápido, lutando para mantê-las presas.

Foi então que ouviu uma voz conhecida:

— Ei — Kaito disse, a voz firme, sem elevar o tom. — Isso foi um acidente. Você passou do limite.

Outro seiyuu concordou, cobrindo a boca com a mão numa clara expressão de constrangimento alheio.

— Cara, sério… pega leve. Ela só escorregou.

Mas em vez de se acalmar, o homem ficou ainda mais furioso.

— Não se metam! — ele retrucou, apontando um dedo na direção dos colegas. — Se essa garota fosse competente, isso não teria acontecido!

O rosto de Marina queimava. A vergonha pulsava por todo o corpo. Ela queria desaparecer. Afundar no chão. Ser engolida por ele.

Antes que a situação passasse do limite, uma voz grave surgiu às suas costas:

— Marina.

Era o dono do café.

Ele não gritava — nunca gritava — mas sua autoridade era inquestionável.

— Vá para a cozinha — disse calmamente. — Eu resolvo isso aqui.

Ela mal conseguiu assentir. Apenas virou-se e caminhou rápido, quase tropeçando de novo, até empurrar a porta da cozinha. Assim que ela balançou atrás dela, o controle que segurava com tanta força se rompeu.

As lágrimas caíram.

Primeiro silenciosas.

Depois em soluços sufocados, curvando seus ombros enquanto ela se apoiava na bancada fria. O uniforme sujo, as mãos tremendo, o coração apertado.

A humilhação.

A injustiça.

O fato de ter sido tratada como se não fosse nada.

E o pior de tudo… o pensamento que a atingiu como uma agulha fina:

Kaito viu tudo.

Dona Lurdes, que tinha visto tudo da abertura da porta da cozinha, não pensou duas vezes. Deixou a panela no fogo baixo e caminhou até Marina com passos firmes e cuidadosos, como quem vai socorrer uma filha.

— Vem cá, minha menina… — disse baixinho, tocando o ombro dela com gentileza.

Marina tentou limpar as lágrimas com as costas da mão, mas elas continuavam escorrendo, insistentes, doloridas. Dona Lurdes a guiou até uma cadeira e a fez sentar, depois pegou um copo d’água na pia e colocou nas mãos dela.

— Bebe um pouquinho. Acidentes acontecem… — falou com uma voz que parecia um cobertor macio.

Mas Marina balançou a cabeça, apertando o copo entre os dedos trêmulos.

— D-dona Lurdes… e-ele falou como se eu fosse… — A voz falhou, e mais lágrimas escaparam. — Como se eu não tivesse direito de estar aqui.

O peito de dona Lurdes apertou. Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos de Marina, afastando uma mecha úmida do rosto dela.

— Eu sei. Tem gente que não sabe tratar o próximo, seja estrangeiro ou japonês. Mas ele foi grosseiro demais, meu anjo. Você não merece ouvir uma palavra daquelas. Nenhuma.

Marina mordeu o lábio, tentando conter o soluço que ameaçava escapar.

— Eu só… eu só queria fazer tudo certo. Eu preciso desse emprego. Eu não queria dar trabalho pro Rafael.

Dona Lurdes segurou as mãos dela, firmes e quentes:

— Você não deu trabalho nenhum. Aquele rapaz que deveria pedir desculpas, não você.

Marina respirou fundo, tentando se recompor, mas o peito ainda ardia, como se alguém tivesse cavado um buraco ali.

A porta da cozinha se abriu devagar, e Rafael entrou, fechando atrás de si com cuidado. Ele parecia cansado, mas não zangado. Olhou para Marina com um semblante compreensivo.

— Marina… — começou, aproximando-se — já está tudo resolvido.

Ela ergueu os olhos vermelhos.

— R-resolvido?

— Sim. Eu conversei com o grupo. Falei que foi um acidente e que não tinha justificativa para aquele ataque. Eles entenderam. — Ele suspirou. — Inclusive o próprio colega dele acabou concordando… depois de esfriar um pouco a cabeça.

Marina não respondeu. Apenas encarou o chão, ainda segurando o copo d’água como se fosse a única coisa que a mantinha de pé.

Rafael então se abaixou um pouco para ficar de frente com ela.

— Você não precisa ficar assim. Está tudo bem, certo? Só… — ele hesitou, como quem escolhe as palavras — só toma mais cuidado para não acontecer de novo. O piso estava molhado, sim, mas ainda assim… você entende.

Ela assentiu com a cabeça, porque era o que ele esperava. Mas por dentro… não, não estava nem um pouco bem.

O nó na garganta ainda estava ali. A sensação pegajosa de humilhação grudada na pele. A frase “volta pro seu país” ecoando como um tapa repetido.

Nem o consolo.

Nem as palavras gentis.

Nem o esforço de Rafael para resolver tudo.

Nada disso afastava o fato de que, pela primeira vez desde que pisou no Japão, Marina se sentiu pequena.

Indesejada.

Fora do lugar.

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