Capítulo 7

Dois dias depois da visita de Mirielen, a mansão parecia ter guardado um pouco daquela leveza — como se o ar tivesse aprendido a respirar mais devagar.

Sophia acordava sorrindo. Mingau passeava pelo jardim com a postura de quem sabia de um segredo. Até Larissa, nas rondas matinais, parava para observar as margaridas crescendo no canteiro do esconderijo.

Sophia já estava sentada na mesa da cozinha, com os pés balançando e os olhos fixos na porta.

— Você dormiu bem? — perguntei, passando a mão nos seus cachos bagunçados.

— Dormi. E não sonhei que você virou avião. — Ela sorriu, meio sem graça. — Sonhei que a gente estava plantando margaridas com o Mingau.

— Então tá bom. Esse sonho eu tenho mais condições de transformar em realidade.

Dona Cida trouxe o café com um pão de queijo ainda fumegante. — Hoje é dia de fazer compras, menina. O Sr. Arthur deixou a lista. — Ela estendeu um papel cheio de letras firmes e números redondos.

— Compra? Eu não tenho cartão, nem dinheiro…

— Ele deixou o dele. — Ela piscou. — Disse que confia em você. Mas pediu para não comprar chocolate em pó. A menina já tentou colocar no arroz ontem.

Sophia fez beicinho, mas eu ri.

— Pode deixar. Vamos de lista em punho e coração aberto.

O mercado era um mundo à parte. Corredores largos, luzes brancas, cheiro de pão e frutas frescas. Sophia correu na frente, empurrando o carrinho como se fosse um carro de corrida.

— Mauren, olha! Iogurte grego! — gritou, apontando.

— Iogurte grego não é iogurte comum, é iogurte sério. Só se a gente prometer comer com fruta.

— Prometo!

Foi assim o tempo todo — ela apontando, eu negociando. Um pacote de biscoito integral por um de aveia. Um suco sem açúcar por uma garrafinha de água com gás. Aos poucos, vou arrumando a alimentação dela. 

No caixa, enquanto organizava as compras, senti um olhar pesado nas minhas costas. Virei devagar.

Era uma mulher de cabelos lisos e compridos, vestido simples, mas com olhos que pareciam ter visto coisas demais. Ela estava parada três caixas adiante, segurando uma maçã com uma das mãos, a outra enfiada no bolso do casaco. Mas não era a postura que me chamou atenção — era o jeito que ela olhava para Sophia. Não com curiosidade, mas com algo que parecia ser saudade.

Meu corpo gelou. Meu coração disparou. A mão suou.

Sophia, sentada no carrinho, balançava as pernas e cantarolava baixinho, alheia a tudo.

A mulher percebeu que eu a vi. Nossos olhos se encontraram por um segundo — um segundo que durou uma eternidade. Havia dor ali, medo e algo que eu não saberia decifrar… algo como um pedido de socorro silencioso.

Ela abaixou a cabeça, deixou a maçã em uma cesta próxima e saiu rápido, desaparecendo entre as prateleiras antes que eu pudesse reagir.

— Mauren? Tá tudo bem? — Sophia puxou minha blusa.

— Tudo, flor. Só pensei que tinha esquecido alguma coisa. — Mentira, eu não tinha esquecido nada. Eu tinha visto alguma coisa.

No caminho de volta, fiquei em silêncio. A imagem daquela mulher não saía da minha cabeça. Será que era só uma estranha? Será que era… não, não podia ser.

Mas e se fosse?

Arthur estava na biblioteca quando chegamos. Olhei para ele, para a foto em cima da estante — uma foto desbotada de uma mulher sorridente, com os mesmos olhos verdes de Sophia — e senti um nó na garganta.

— A compra foi boa? — ele perguntou, sem levantar os olhos do laptop.

— Foi. Sophia até escolheu iogurte grego.

— Grego? Ela tá evoluindo.

— É… — hesitei. — Arthur, posso te perguntar uma coisa?

Ele fechou a tela do computador.

— Pode.

— A mãe da Sophia… ela tinha cabelo liso? Comprido?

Ele parou. O ar na sala ficou pesado, carregado.

— Por quê?

— É que no mercado, tinha uma mulher e ela olhou para  a Sophia de um jeito  diferente.

Ele se levantou devagar. Seus olhos, antes cansados, agora estavam alertas, vigilantes.

— Descreve ela.

Descrevi: o cabelo, o vestido, os olhos, a maçã na mão, a saída rápida.

Ele não disse nada por um tempo. Só respirava fundo, com as mãos apoiadas na mesa, os dedos brancos de tanto pressionar.

— Pode ter sido qualquer uma.

— Pode. — concordei. — Mas e se não foi?

Ele me olhou, e pela primeira vez vi nele não só o CEO, não só o pai sobrecarregado, mas o homem assustado. Aquele que ainda espera, mesmo sem querer admitir.

— Se não foi… — a voz dele saiu rouca — então ela ainda está por aí. E se ela ainda está por aí, um dia ela vai voltar. E eu não sei o que vai ser pior: ela voltar, ou ela nunca mais voltar.

Sophia entrou correndo na biblioteca, segurando o iogurte grego.

— Papai, olha! Iogurte de adulto! A Mauren deixou!

Ele sorriu, forçado, e pegou ela no colo.

— Tá virando gente grande, minha princesa?

— Tô! E amanhã a gente vai plantar margaridas, né, Mauren?

— Vamos — respondi, mas minha voz saiu fraca.

Arthur me olhou por cima da cabeça dela. E, sem dizer uma palavra, seus olhos disseram tudo:

Fica. Por favor, fica.

E eu sabia, no fundo do peito, que não era mais só pelo emprego. Não era mais só pelo teto.

Era por ela. Por ele. Por aquele mundo que, de repente, tinha se tornado o meu.

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