Capítulo 6

Acordei com um aperto no peito e uma mãozinha gelada segurando a minha.

— Mauren... — a voz de Sophia era um fio, quase um sussurro. — Eu tive um sonho ruim.

Abri os olhos. Ela estava sentada na beirada da minha cama, de pijama listrado, braços cruzados sobre o peito, com os olhos marejados.

— Você foi embora. E eu corri, corri... mas você estava dentro de um carro que virou avião e sumiu no céu.

— Ah, minha flor... — puxei ela pra perto. — Eu não tenho avião, não tenho nem uma bicicleta. Só tenho essas pernas cansadas e esse coração que insiste em ficar.

— Promete?

— Prometo.

Ela encostou a cabeça no meu ombro e ficou ali, quieta, até a respiração voltar ao normal. Depois, como se nada tivesse acontecido, saltou da cama:

— Hoje é dia de parquinho de verdade! Você vai me levar no parquinho, não vai? — Questionou insegura. 

— Tá, mas antes do parquinho, café. E não, você não vai temperar com chocolate.

— Tá bom, mas posso comer dois pães? — me perguntou.

— Fechado. — Combinamos e eu saí da cama em um pulo. 

O café foi tranquilo, ela cumpriu os combinados e depois fomos brincar. Passamos a manhã inteira dançando clássicos da música infantil. Era impressionante como essa menina estava fazendo com que eu voltasse ao simples, à infância, voltasse a me divertir, sem pensar nas burocracias da vida adulta. Com ela, tudo era colorido. 

À tarde, enquanto jogávamos jogos de tabuleiro, tivemos uma grata surpresa. 

A campanhia do portão tocou para anunciar a chegada da minha amiga Mirielen, que veio nos visitar. 

— É a Mirielen! — falei para Sophia, enquanto nós duas íamos correndo recebê-la. — Deixa ela entrar, Larissa! É minha amiga! — Sophia falou com autoridade infantil.

Larissa, séria mas já acostumada com os dramas da menina, foi até o portão. Voltou minutos depois com Mirielen, que segurava uma sacola de pão e tinha um sorriso largo no rosto.

— Passei no Bar da Dona Lúcia — disse, entregando a sacola pra mim. — Pão ainda quente, recheio de queijo coalho e goiabada. O clássico que a gente comia quando estávamos perto.

— Você é um anjo — falei, abraçando-a com força.

— Anja nada. Vim ver se você não virou estátua de mármore nessa mansão fria.

— Tá menos fria do que parecia.

Sophia, ansiosa, puxou a manga de Mirielen:

— Vem brincar comigo no parquinho! O Mingau tá lá! Ele é meu melhor amigo depois da Mauren! — Comentou com sua ingenuidade natural. 

— Claro! Mas eu não subo no escorregador. Meu quadril reclama.

— Tudo bem. Você pode ser a juíza do concurso de pulo mais alto.

E assim, Mirielen foi levada para o parquinho dos fundos, onde Mingau, deitado sob a sombra de uma árvore, abriu um olho preguiçoso ao vê-las chegar e voltou a dormir, decidindo que aquele dia valia a pena.

Enquanto Sophia corria feito um furacão pequeno, Mirielen e eu sentamos no banco de madeira, longe o suficiente para conversar, mas perto o bastante para vigiar.

— Conta tudo — ela sussurrou, tirando óculos escuros. — Como é a vida de babá de milionário frio e egoísta?

— Primeiro: não falo sobre o Sr. Arthur na frente dela.

— Certo, certo. Ele é só “o papai” quando ela tá por perto.

— Exato. E segundo... — baixei a voz — ele não é frio e egoísta. Ele está traumatizado.

— Traumatizado por quê? Além da filha que j**a iogurte no sofá e travesseiros nas pessoas?

— A mãe dela... — hesitei — não morreu, Miri, sumiu do nada e há anos ninguém sabe onde ela está.

Mirielen arregalou os olhos.

— Meu Deus! — tapando a boca com uma das mãos — Então a menina não perdeu a mãe? Ela foi abandonada.

— Mais ou menos. Dizem que a mãe teve um surto. Saíram juntas um dia e só a Sophia voltou.

— Que horror!

— Pois é. Por isso ela tem tanto medo de eu ir embora. Não é birra. É trauma.

Mirielen olhou para Sophia, que agora tentava ensinar Mingau a “dançar”.

— Nossa... coitadinha.

— É. Mas ela tá aprendendo a confiar de novo.

— E você? Tá gostando?

— Gostando de quê?

— Daqui, dessa casa, dessa nova vida… da menina.

Fiquei em silêncio por um instante.

— É estranho. Eu vim aqui por desespero, por um teto, mas agora... — olhei ao redor — o jardim, o Mingau, os olhos verdes dessa menina... Tudo isso parece tão certo, que eu não tenho como ir embora. É como se eu tivesse me esquecido da minha vida antes de vir para cá.

Mirielen sorriu.

— Tô feliz. Mesmo. Porque você merece um lugar que te respeite por quem você é de verdade.

— E você? Tá bem?

— Tô. Seu Barcelos até me deu um abraço ontem. Disse que sente falta da sua bagunça no corredor.

— Minha bagunça era legítima.

— Agora o apartamento é silêncio total.

Rimos baixinho, para não atrair atenção.

— Ah, e a vizinha do 34?

— A das ervas? Tá em Minas, casada com o pastor. Agora planta alecrim para “proteger o rebanho”.

— Coitado do rebanho. Aquela mulher era muito pirada. — A risada veio sem pedir autorização e acabamos atraindo o olhar de Sophia que não largava o gato. 

Enquanto conversávamos, Sophia veio correndo.

— Mauren! Mingau fez xixi no jardim de novo! — Reclamou ela, séria.

— De novo? — eu tive que forçar para não rir. 

— Mas foi no canto certo! Eu ensinei! — Comentou cheia de si. 

— Parabéns! Você foi ótima e ele está aprendendo.

— Ele é um gato educado! — Me respondeu, orgulhosa. 

Mirielen ficou até o sol começar a se pôr. Na despedida, abraçou-me com força.

— Volto mês que vem. Trago pastel. — Levantou-se, ajeitando a roupa. 

— Tá combinado. — Falei. 

— E Mauren... — sussurrou no meu ouvido — se um dia você precisar de mim, de qualquer coisa, eu venho correndo. Sem perguntar, sem julgar.

— Eu sei. — Respondi. 

Ela acenou para Sophia, que gritou:

— Tchau, tia do coração! Volta logo!

— Volto! E trago um osso de brinquedo para o Mingau!

Rimos. E, quando o portão se fechou, senti aquele aperto bom no peito, por saber que eu era apenas uma pessoa comum e que tinha gente que estava sempre comigo.

Naquela noite, já quase dormindo, ouvi uma batida suave na porta.

— Pode entrar.

Era Arthur. Terno trocado por uma camisa social aberta no colarinho, copo de vinho na mão, olhar cansado, mas mais leve.

— Só vim tomar um gole aqui fora — disse, apontando para a varanda. — você poderia me dar a honra de sua companhia? — Convidou apontando para a varanda.

— Tô indo. — respondi, levantando.

— Te espero. — A voz saiu baixa, como um pedido. — Hoje foi um bom dia. Gostaria de prolongar um pouco mais.

Sentei ao seu lado, em silêncio. Ele serviu vinho em outra taça e me alcançou.

— A Mirielen é diferente — disse, depois de um gole.

— Ela é uma amiga de verdade. — comentei. 

— Percebi. Ela te olha como se você fosse você, não a babá. — Completou como se nunca tivesse vivido uma amizade sem interesse. 

— É. Ela me viu cair no shopping e não riu. Só me levantou. — alfinetei.

— Talvez — ele olhou pra mim — seja por isso que você ainda está aqui. — comentou. — No nosso meio, as pessoas ficam porque ganham algo em troca. Não estamos acostumados a termos amizades sem ambição. Todos ganham, todos querem crescer, é tudo parte de um negócio. 

— Essa vida de gente rica é estranha. — Falei, bebericando um pouco do vinho. 

Ficamos em silêncio, ouvindo o som dos grilos, o vento nas árvores, o ronronar distante de Mingau no jardim.

— Obrigado por hoje — falei, por fim.

— Por quê?

— Por deixar ela vir. Por não trancar tudo. Por permitir um pouco de normalidade.

— Normalidade — repetiu, como se provasse o gosto da palavra. — Quanto tempo faz que não ouço essa palavra aqui nessa casa?

Ele levantou o copo.

— À normalidade. E às amigas que trazem pão quente. — brindou com um sorriso. 

— E aos gatos que fazem xixi no canto certo. — brindei lembrando da Sophia e seu grande feito do dia. 

Desta vez, ele riu — de verdade, sem sombra, sem defesa.

E, naquela meia-luz, entre goles de vinho e silêncios confortáveis, senti que algo novo estava começando entre duas pessoas cansadas, bebendo um vinho, sem precisar fingir que estão bem.

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