Mundo de ficçãoIniciar sessãoDurante anos, ela viveu escondida do mundo. Esposa de um dos homens mais influentes da máfia rival, aprendeu que sua função era permanecer em silêncio. Nunca teve voz. Nunca teve liberdade. Nunca conheceu o prazer. Existia apenas como uma sombra dentro da própria casa. Até a noite em que ficou viúva. O homem responsável pela morte do marido não deixou apenas um corpo para trás. Deixou uma guerra inacabada. Enquanto todos acreditavam que a viúva desapareceu para reconstruir a própria vida, ela fazia exatamente o contrário. Estudava, Observava, Esperava. Durante meses, investigou cada detalhe da rotina do homem que destruiu seu passado. Descobriu seus aliados, seus negócios e o único lugar onde até o Don mais poderoso parecia baixar a guarda. Foi então que nasceu um plano tão simples quanto mortal. Ela deixaria que ele a desejasse. Sem revelar quem era. Sem revelar por que havia voltado. Entrou em seu mundo usando outro nome. Aprendeu a dizer "não" para o único homem que jamais ouvira uma recusa. Transformou cada olhar em provocação. Cada passo em direção ao quarto dele era, na verdade, um passo em direção à vingança. Mas existem planos que deixam de pertencer a quem os criou. Porque algumas guerras são vencidas com armas. Outras... Começam quando duas pessoas descobrem que são capazes de despertar o pior uma na outra. Agora, uma viúva vive escondendo um segredo. Um Don passou a desconfiar que a mulher que invadiu seus pensamentos talvez nunca tenha aparecido em sua vida por acaso. E, enquanto as famílias mafiosas continuam travando uma guerra pelo poder, uma batalha muito mais perigosa acontece longe dos olhos de todos. O que acontece quando uma guerra destrói dois homens... e obriga uma mulher a carregar, dentro de si, a única possibilidade de reconciliação entre os dois mundos?
Ler maisQuando um dia marcado pela guerra deixa o gosto amargo na língua.
⚜️ NIKOLAS ALEXANDROS DRAKOS KALLISTRATOS. Meu nome é Nikolas Alexandros Drakos Kallistratos. Aos vinte e sete anos fundei o Consórcio. Treze anos depois, homens sentados em gabinetes governavam países. Eu governava o Mediterrâneo. Não por bandeiras. Por rotas. Enquanto políticos desperdiçavam meses discutindo tratados, assinando acordos e prometendo estabilidade, meus navios cruzavam continentes todos os dias. Enquanto exércitos protegiam fronteiras desenhadas em mapas, eu protegia o comércio que mantinha economias inteiras funcionando. Quem controlava os portos controlava o dinheiro. Quem controlava o dinheiro nunca precisava controlar homens. Eles obedeciam por vontade própria. Não por medo. Por necessidade. Foi assim que uma guerra silenciosa começou. Sem manchetes. Sem bombas. Sem soldados marchando pelas ruas. Uma guerra feita de contratos, seguros, cargueiros, petróleo e influência. Uma guerra onde um documento podia destruir um império mais rápido do que um míssil. Uma guerra que levou treze anos para terminar. E ela havia terminado naquela noite. O silêncio dentro do jatinho particular era quase absoluto. Meus homens ocupavam os assentos atrás de mim. Ninguém falava. Ninguém tossia. Ninguém sequer ousava quebrar aquele silêncio pesado que parecia acompanhar o voo desde que deixáramos o Oriente Médio. Não porque eu tivesse proibido. Porque todos sabiam que algumas vitórias pesavam mais do que derrotas. A pistola repousava sobre a pequena mesa de madeira escura ao meu lado. Limpa. Fria. Imóvel. Meu olhar permaneceu preso nela durante alguns segundos. Não era a arma. Era o que ela representava. Então a lembrança voltou. Karim Al-Haddad permaneceu em pé até o último instante. Nem todos os homens conseguem olhar para a morte. Ele conseguiu. Quando entrei na biblioteca de sua propriedade, ele já sabia por que eu estava ali. Não tentou fugir. Não chamou seus homens. Não implorou. Também não demonstrou raiva. Apenas permaneceu em silêncio. Durante alguns segundos, dois líderes apenas se observaram. Sem pressa. Sem ameaças. Ele entendia perfeitamente o motivo daquela visita. Assim como eu entendia que aquele encontro jamais terminaria de outra forma. A guerra havia ultrapassado um limite que nenhum dos dois acreditava ser possível ultrapassar. Foi Karim quem rompeu o silêncio. — Vai matar um Don? Balancei a cabeça lentamente. — Não. Esperei apenas o tempo suficiente para que ele entendesse. — Vou matar um homem que escolheu a guerra quando ainda existia paz. O disparo ecoou pela biblioteca. Depois... Silêncio. Nenhum grito. Nenhuma correria. Apenas o fim de uma guerra que já havia custado vidas demais. A aeronave começou a perder altitude. Olhei pela janela. As luzes da costa grega surgiam no horizonte como pequenos pontos dourados refletidos sobre a escuridão do Mediterrâneo. Casa. Sempre achei curioso como uma única palavra podia carregar tanto significado. Para alguns homens, casa era um lugar. Para mim, era território. Duas horas depois, o jatinho tocou a pista. Uma fila de SUVs pretas já aguardava ao lado do hangar. Os motores permaneciam ligados. Assim que desci, ninguém fez perguntas. Ninguém comentou a operação. Meu diretor de segurança apenas abriu a porta traseira do carro. Entrei. O comboio deixou o aeroporto em direção à minha propriedade. A cidade continuava viva. Bares lotados. Casais caminhando pelas calçadas. Turistas rindo. Música escapando das portas abertas dos restaurantes. Ninguém imaginava que, naquela mesma noite, um dos homens mais poderosos do Oriente Médio havia deixado de existir. O mundo continuava girando como se nada tivesse acontecido. Era exatamente assim que eu preferia. --- Minha casa ficava de frente para o mar. Não era uma mansão construída para impressionar. Era construída para permanecer. Mármore branco. Linhas retas. Vidros enormes voltados para o Mediterrâneo. Nada ali era exagerado. Tudo tinha uma função. Assim que entrei, subi diretamente para o quarto. Não cumprimentei ninguém. Não precisava. Tirei o paletó. Afrouxei a gravata. Entrei debaixo da água quente. Fechei os olhos. Durante alguns segundos tentei apenas ouvir o som da água. Mas a imagem continuava ali. Karim. O olhar firme. Nenhum arrependimento. Nenhum pedido de misericórdia. Nenhum medo. Eu já havia visto homens morrerem antes. Muitos. Alguns gritavam. Outros imploravam. Havia os que prometiam dinheiro, poder ou alianças. Karim não ofereceu nada. Aceitou o próprio destino como quem sempre soube que aquele dia chegaria. Poucos homens morrem com dignidade. Ele foi um deles. Desliguei o chuveiro. Sequei o corpo lentamente. Vesti uma calça escura e uma camisa preta. Quando desci, meus homens já me esperavam na sala principal. Silêncio. Sempre silêncio. Aquele era um idioma que todos no Consórcio aprendiam cedo. Quanto menos palavras eram necessárias, maior era a confiança. Peguei o celular. Disquei um único número. A ligação foi atendida no segundo toque. — Prepare uma para mim. Do outro lado da linha, nenhuma pergunta. Nenhuma confirmação. Eles já sabiam. — Chego em quarenta minutos. Desliguei. Fui até o bar. Servi um uísque. Observei o líquido âmbar girando lentamente dentro do copo antes de levá-lo aos lábios. Dessa vez bebi. O álcool queimou a garganta de forma agradável. Olhei para os homens espalhados pela sala. Nenhum desviava os olhos. Nenhum precisava perguntar se a missão havia sido concluída. Levantei o copo. — O Don caiu. Uma pausa. Longa o suficiente para que todos compreendessem o peso daquelas palavras. — Essa guerra acabou. Ninguém respondeu. Não era necessário. Todos sabiam o que aquela frase significava. Treze anos. Milhares de contratos. Bilhões movimentados. E incontáveis decisões difíceis. Tudo terminava ali. Deixei o copo sobre o balcão. Peguei as chaves. Saí. --- A boate funcionava apenas para convidados. Luzes baixas. Música suficiente para esconder conversas. Bebidas caras. Homens discretos. Mulheres acostumadas a nunca fazer perguntas. Poucos sabiam quem realmente era o proprietário. Muito menos quem pagava para que aquele lugar permanecesse aberto. Assim que entrei, o gerente caminhou em minha direção. Inclinou discretamente a cabeça. — A suíte está pronta, senhor. Assenti. Subi sem olhar para ninguém. A rotina era sempre a mesma. Operação. Silêncio. Mulher. Esquecimento. Abri a porta. Ela já estava lá. Bonita. Muito bonita. Provavelmente perfeita para qualquer outro homem. Sorriu ao me ver. Deu um passo em minha direção. Abriu a boca para dizer alguma coisa. Interrompi antes da primeira palavra. — Tire a roupa. Ela hesitou por um instante. Talvez esperasse uma apresentação. Talvez imaginasse um elogio. Depois começou a obedecer. Afrouxei os botões da camisa. Observei a cidade pela janela. Nunca precisei saber o nome de nenhuma mulher. Nunca precisei saber quem eram. Nem de onde vinham. Mulheres nunca passaram de uma maneira eficiente de silenciar dias como aquele. Era um ritual. Nada além disso. Eu não precisava de companhia. Não precisava de conversa. Muito menos de sentimentos. Precisava apenas esquecer. Pelo menos... Até a manhã seguinte.A primeira vez que eu toquei uma mulher com verdade. ⚜️ ALEXANDROS NIKOLAS DRAKOS KALLISTRATOSFechei a porta atrás de mim. O clique do trinco ecoou seco no silêncio da suíte e, por um segundo, o mundo lá fora deixou de existir. Eu deveria ter seguido o protocolo. Empurrá-la contra a parede, tirar a roupa com eficiência, usar o corpo dela como usava todos os outros. Em vez disso, parei. Olhei.Que olhar era aquele?Não havia sedução barata. Não havia o sorriso treinado das mulheres que eu costumava encontrar nessa mesma suíte. Havia apenas presença. Uma quietude perigosa. Os olhos azul-escuros me encaravam sem pedir nada e, ao mesmo tempo, sem se entregar. Eu nunca tinha visto alguém olhar assim para mim.Pensei na pele. Branca como porcelana. Macia demais para ser real, quase como a de um bebê. Lábios rosados, sem nenhum traço de maquiagem. Nada para esconder. Nada para vender. Eu levantei a mão e passei o polegar sobre o lábio inferior dela. A textura era quente, viva, levemente úm
Algumas guerras não começam com um disparo. Começam com um olhar. Três meses haviam se passado desde a morte de Karim Al-Haddad. Para o restante do mundo, a guerra terminara na noite em que o Don caiu. O Mediterrâneo voltava a respirar, os jornais especializados anunciavam a recuperação do mercado marítimo, seguradoras internacionais retomavam contratos suspensos e investidores comemoravam a estabilidade da principal rota energética entre o Golfo Pérsico e a Europa. O conflito desaparecera das manchetes, substituído pelos números de um mercado que voltava a crescer. Para Nikolas Drakos, aquilo representava o fim de treze anos de planejamento. O Consórcio finalmente controlava o corredor marítimo que durante anos fora disputado por interesses políticos, econômicos e criminosos. Para Amira Al-Haddad, porém, a guerra apenas mudara de forma. Todas as manhãs ela atravessava os corredores da antiga Casa Al-Haddad e ocupava a cadeira que antes pertencera ao marido. Não porque acreditass
Algumas guerras terminam no campo de batalha. Outras começam diante de um caixão.🔆 AMIRA YASMIN AL-KHOURY AL-HADDAD.Naquela manhã, porém, ninguém me chamou pelo meu nome.Para todos que atravessavam os portões da propriedade, eu já havia deixado de existir como mulher.Eu era apenas a viúva do Don.O funeral começou antes do nascer do sol.Homens vindos de diferentes países atravessavam o grande salão em absoluto silêncio. Líderes de antigas Casas, ministros, empresários, diplomatas e representantes de famílias que durante décadas dividiram interesses com Karim Al-Haddad permaneciam lado a lado, unidos por uma única certeza: um dos pilares daquele mundo havia caído.O aroma do incenso misturava-se ao perfume discreto das flores brancas.As orações ecoavam baixas entre as colunas de mármore.Ninguém chorava em voz alta.Na nossa tradição, a dor não precisava de espetáculo.Ela era carregada no olhar.Permaneci durante toda a cerimônia ao lado do caixão, vestia preto, sem joias, sem
Algumas guerras são vencidas com balas. Outras são vencidas com rotas.⚜️ NIKOLAS ALEXANDROS DRAKOS KALLISTRATOS.Durante anos disseram que eu queria dominar o Mediterrâneo.Estavam errados.Nunca me interessou dominar o mar. O mar não pertence a ninguém. O que realmente importa é tudo aquilo que passa por ele. Navios, portos, seguros, cargas, contratos e tempo. O verdadeiro poder nunca esteve na água, mas na capacidade de decidir quem chega primeiro, quem espera e quem simplesmente deixa de existir economicamente.Quem controla as rotas controla o dinheiro.E quem controla o dinheiro dificilmente precisa controlar homens.Eles acabam obedecendo por interesse.O prédio do Consórcio ocupava um dos pontos mais estratégicos do porto de Pireu. Não havia ostentação gratuita. A arquitetura era limpa, marcada por vidro, aço e mármore branco. Tudo transmitia permanência. Tudo havia sido pensado para durar décadas, como o próprio Consórcio.Da parede de vidro do meu escritório eu enxergava o M





Último capítulo