Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlgumas guerras não começam com um disparo. Começam com um olhar.
Três meses haviam se passado desde a morte de Karim Al-Haddad. Para o restante do mundo, a guerra terminara na noite em que o Don caiu. O Mediterrâneo voltava a respirar, os jornais especializados anunciavam a recuperação do mercado marítimo, seguradoras internacionais retomavam contratos suspensos e investidores comemoravam a estabilidade da principal rota energética entre o Golfo Pérsico e a Europa. O conflito desaparecera das manchetes, substituído pelos números de um mercado que voltava a crescer. Para Nikolas Drakos, aquilo representava o fim de treze anos de planejamento. O Consórcio finalmente controlava o corredor marítimo que durante anos fora disputado por interesses políticos, econômicos e criminosos. Para Amira Al-Haddad, porém, a guerra apenas mudara de forma. Todas as manhãs ela atravessava os corredores da antiga Casa Al-Haddad e ocupava a cadeira que antes pertencera ao marido. Não porque acreditasse ter direito àquele lugar, mas porque não existia outro nome capaz de impedir que o império construído por Karim fosse dividido entre homens que jamais haviam lutado por ele. Contratos chegavam diariamente, representantes de governos aguardavam respostas, bancos exigiam garantias e antigos aliados buscavam segurança. Amira lia cada documento, ouvia cada relatório e decidia com a serenidade de quem aprendera, durante oito anos, a observar antes de falar. Os mesmos conselheiros que antes mal sustentavam sua presença na sala agora aguardavam sua palavra final. Ela continuava discreta, educada e silenciosa. A diferença era que, quando finalmente rompia o silêncio, ninguém ousava interrompê-la. À noite, porém, quando a mansão mergulhava na quietude, a líder desaparecia. Restava apenas a esposa que ainda sentia a ausência do homem com quem dividira oito anos da própria vida. Foi em uma dessas noites que Hassan, antigo chefe da inteligência da Casa Al-Haddad, entrou silenciosamente em seu escritório carregando uma pasta de couro escuro. Depositou-a sobre a mesa e aguardou. Amira ergueu os olhos. — O que é isso? — Tudo o que conseguimos descobrir sobre Nikolas Drakos. Ela permaneceu alguns segundos encarando a pasta. Intuía que, depois de abri-la, deixaria de procurar respostas para começar a planejar uma execução. Respirou fundo e abriu o dossiê. Ali estavam reunidas fotografias, relatórios, mapas, registros financeiros, viagens, contratos e uma descrição minuciosa da rotina de Nikolas. Cada página revelava o mesmo homem: disciplinado, metódico e absolutamente previsível em seus hábitos. Acordava sempre no mesmo horário, treinava todos os os dias, jamais bebia durante reuniões importantes, alterava constantemente seus protocolos de segurança e nunca repetia o mesmo esquema de deslocamento. Era quase impossível alcançá-lo. Quase. Amira continuou folheando os documentos até perceber um detalhe que ninguém parecia considerar importante. Depois de cada grande negociação, da assinatura de um contrato bilionário ou da conclusão de uma operação estratégica, Nikolas desaparecia durante algumas horas. O destino era sempre o mesmo. A mesma boate. A mesma suíte. O mesmo intervalo de tempo. Ela voltou ao início do relatório, releu cada anotação e comparou as datas pela segunda vez. Não era coincidência. Era um ritual. Levantou os olhos para Hassan. — Ele faz isso sempre? O velho conselheiro confirmou com um discreto movimento de cabeça. — Há anos. Amira fechou lentamente a pasta. Pela primeira vez desde a morte de Karim, ela não enxergava apenas o homem que havia puxado o gatilho. Encontrara a única fraqueza de Nikolas Drakos. Enquanto isso, do outro lado do Mediterrâneo, Nikolas observava os cargueiros cruzarem o porto através da parede de vidro do seu escritório. A nova rota funcionava exatamente como planejara. Seu telefone vibrou. Era a confirmação de mais um contrato assinado. Ele respondeu apenas: — Ótimo. Guardou o celular, olhou o relógio e pegou o telefone novamente. — Prepare uma para mim. Chego em quarenta minutos. Do outro lado da linha, o gerente da boate respondeu apenas: — A suíte estará pronta, senhor. Nikolas desligou. Era apenas mais uma noite. Mal sabia que, pela primeira vez, alguém já o esperava. Nikolas entrou na boate como fazia havia anos. Os cumprimentos discretos do gerente, a música baixa e o movimento elegante do salão compunham um ritual que ele conhecia de cor. Seu olhar percorreu o ambiente apenas por hábito, até encontrar uma mulher sentada sozinha no bar. Ela não sorria. Também não desviava os olhos. Vestia preto, sem joias chamativas, e mantinha a postura serena de quem não estava ali para ser notada. Ainda assim, era impossível ignorá-la. Nikolas aproximou-se. — Posso oferecer uma bebida? Ela virou lentamente o rosto. Os olhos azul-escuros permaneceram presos aos dele por alguns segundos antes que respondesse, em um grego impecável: — Prefiro que essa conversa aconteça em outro lugar. A naturalidade com que pronunciou cada palavra despertou algo que ele não esperava. Não era apenas o idioma. Era a segurança. Nenhuma hesitação. Nenhuma tentativa de impressioná-lo. Nikolas lançou um breve olhar ao gerente. — Dispense a mulher que está na suíte. Prepare tudo novamente. O gerente apenas assentiu. Sem trocar mais palavras, Nikolas fez um discreto gesto para que a desconhecida o acompanhasse. Ela caminhou ao seu lado com a mesma tranquilidade com que sustentara seu olhar no bar, como se já soubesse exatamente onde aquela noite terminaria. Quando a porta da suíte se fechou atrás dos dois, o silêncio pareceu ocupar todo o ambiente. Pela primeira vez em muito tempo, Nikolas teve a estranha impressão de que aquela noite não seguiria o roteiro que conhecia tão bem.






