Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlgumas guerras são vencidas com balas. Outras são vencidas com rotas.
⚜️ NIKOLAS ALEXANDROS DRAKOS KALLISTRATOS. Durante anos disseram que eu queria dominar o Mediterrâneo. Estavam errados. Nunca me interessou dominar o mar. O mar não pertence a ninguém. O que realmente importa é tudo aquilo que passa por ele. Navios, portos, seguros, cargas, contratos e tempo. O verdadeiro poder nunca esteve na água, mas na capacidade de decidir quem chega primeiro, quem espera e quem simplesmente deixa de existir economicamente. Quem controla as rotas controla o dinheiro. E quem controla o dinheiro dificilmente precisa controlar homens. Eles acabam obedecendo por interesse. O prédio do Consórcio ocupava um dos pontos mais estratégicos do porto de Pireu. Não havia ostentação gratuita. A arquitetura era limpa, marcada por vidro, aço e mármore branco. Tudo transmitia permanência. Tudo havia sido pensado para durar décadas, como o próprio Consórcio. Da parede de vidro do meu escritório eu enxergava o Mediterrâneo inteiro transformado em números. Navios entravam e saíam do porto sem interrupção. Guindastes movimentavam contêineres com precisão milimétrica. Centenas de pessoas trabalhavam ao mesmo tempo, mas dali de cima tudo parecia silencioso. Gostava daquela sensação. O caos só existia para quem estava no chão. Para quem observava do alto, havia apenas ordem. Na enorme tela instalada à frente da mesa, um mapa digital atualizava, em tempo real, a movimentação das principais rotas marítimas do mundo. Pequenas linhas luminosas cruzavam oceanos, mudavam de cor conforme o fluxo de carga e exibiam valores que fariam governos inteiros entrarem em guerra. Meu olhar permaneceu fixo sobre uma delas. A nova rota. Foi por ela que Karim morreu. O mundo atravessava uma transformação energética silenciosa. Os antigos modelos de abastecimento já não eram suficientes para sustentar a demanda europeia. Uma nova cadeia internacional conectava os campos petrolíferos do Golfo Pérsico aos mercados do continente, utilizando o Canal de Suez como principal corredor antes de alcançar o Mediterrâneo. A maioria das pessoas acreditava que o Canal de Suez era o prêmio. Não era. O canal era apenas uma passagem. O verdadeiro prêmio começava quando os navios entravam no Mediterrâneo. Milhões de toneladas de petróleo, gás natural, equipamentos industriais, componentes tecnológicos e cargas de altíssimo valor cruzavam diariamente aquelas águas. Quem administrasse aquela infraestrutura não conquistaria apenas contratos bilionários. Conquistaria influência sobre países inteiros. Conquistaria décadas de poder. Foi exatamente por isso que a guerra contra a Casa Al-Haddad nunca teve relação com território. Território qualquer exército conquista. O que eu defendia era estabilidade. O que Karim defendia era tradição. Duas formas completamente diferentes de enxergar o mesmo mar. Uma discreta batida na porta interrompeu meus pensamentos. Meu secretário entrou apenas o suficiente para anunciar a visita. — Senhor Drakos, o ministro acaba de chegar. Olhei rapidamente para o relógio. Ainda faltavam três minutos para o horário marcado. Ele havia chegado antes. Bom sinal. — Peça que aguarde. — Sim, senhor. Fechei o arquivo que analisava, organizei duas folhas sobre a mesa e só então caminhei até a sala de reuniões. Pontualidade sempre foi uma demonstração de respeito. Antecipação excessiva também podia revelar ansiedade. Quando entrei, quatro homens levantaram imediatamente. O ministro estendeu a mão com um sorriso cuidadosamente ensaiado. — Finalmente conheço o famoso Don Drakos. Apertei sua mão sem alterar a expressão. — Não me chame assim. Ele hesitou por um instante. O sorriso perdeu parte da confiança. — Peço desculpas. Então... como devo chamá-lo? Soltei sua mão. — Nikolas basta. Fiz uma breve pausa antes de completar: — Ou Archon, se fizer questão de títulos. Ele sorriu novamente, agora de maneira mais contida. Naquele instante compreendeu duas coisas. A primeira era que eu não era italiano. A segunda era que eu não precisava de títulos para lembrar quem eu era. Sentamo-nos. Durante pouco mais de uma hora discutimos investimentos portuários, contratos de seguro marítimo, ampliação de terminais de carga e a segurança da nova rota energética. Nenhum dos presentes mencionou Karim. Nenhum mencionou guerra. Nenhum falou sobre sangue. Era assim que o poder funcionava. As manchetes mostravam assinaturas. Nunca mostravam os cadáveres que permitiam que aquelas assinaturas existissem. Ao final da reunião, acompanhei os convidados até a porta apenas por cortesia. Assim que o elevador se fechou, Dimitris, meu diretor financeiro, entrou na sala trazendo um tablet nas mãos. — Os últimos contratos foram assinados esta manhã. A nova rota está praticamente consolidada. Aproximei-me novamente da janela. Observei um cargueiro deixar lentamente o porto. — Praticamente? Ele respirou fundo antes de responder. — Ainda existem pequenos grupos tentando pressionar algumas seguradoras. Balancei a cabeça negativamente. — Então ela ainda não é nossa. Dimitris franziu a testa. — Estamos muito próximos. — Próximo não basta. Continuei olhando para o mar. — Uma rota pertence a alguém quando deixa de precisar ser defendida. Ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Depois apenas assentiu. Sabia que eu tinha razão. Anotou algumas observações no tablet e deixou a sala. O escritório voltou ao silêncio habitual. Sempre gostei do silêncio. Homens nervosos falam demais. Homens inteligentes escutam. Olhei o relógio. Dezessete horas e quarenta e três minutos. Meu dia ainda não havia terminado. Peguei o celular e deslizei os contatos até encontrar o número que procurava. Ela atendeu rapidamente. — Alô? Minha voz saiu calma, sem qualquer alteração. — No lugar de sempre. Daqui a quarenta minutos. Do outro lado da linha houve apenas uma pequena pausa. — Estarei lá. Desliguei. Sem despedidas. Sem perguntas. Sem promessas. Nunca perguntava o nome delas. Nunca perguntava de onde vinham. Nunca perguntava o que faziam quando eu não estava por perto. Aquelas mulheres nunca fizeram parte da minha vida. Faziam parte da minha rotina. Alguns homens bebiam para esquecer. Outros jogavam. Alguns descontavam a tensão em violência. Eu preferia o silêncio de um quarto de hotel e a companhia de uma mulher cujo nome eu jamais lembraria na manhã seguinte. Não buscava amor. Muito menos companhia. Buscava apenas desligar a mente por algumas horas. Peguei o paletó sobre a cadeira, abotoei a manga da camisa e lancei um último olhar para o Mediterrâneo. A guerra havia terminado. A nova rota finalmente pertencia ao Consórcio. O império que eu levara treze anos para construir estava completo. Mesmo assim... Por alguma razão que eu ainda não compreendia, o olhar de Karim Al-Haddad continuava preso à minha memória como se aquele disparo ainda ecoasse dentro da biblioteca. Talvez aquela noite fosse suficiente para silenciar mais uma lembrança. Até então... Sempre tinha sido.






