Samuel
A mansão tinha ficado mais quieta à noite desde que a gravidez avançou. Ou talvez fosse só dentro de mim que o barulho tivesse mudado.
Alguns meses tinham passado desde o exame de sangue, os enjoos iniciais, o primeiro ultrassom. Agora, a barriga da Anny era impossível de esconder. Mesmo de camisetas largas, o volume aparecia, firme, anunciando a presença de alguém que ainda nem tinha nome oficial, mas já era o centro da minha vida.
Naquela madrugada, eu estava no escritório do térreo, a única sala onde ainda conseguia pensar. Luz amarela do abajur, pilha de documentos à esquerda, tablet com relatórios à direita. Eu fingia que estava revisando números de uma campanha internacional, mas a mente voltava sempre para o andar de cima.
Não sei quanto tempo fiquei ali, até ouvir um som leve vindo do corredor. Passos descalços, arrastados, como se a pessoa estivesse brigando com o próprio sono.
A porta do escritório estava semiaberta. Quando levantei o olhar, vi Anny parada na moldur