Mundo ficciónIniciar sesiónHelena vive um jogo de aparências. Para o mundo da faculdade de Direito e para seu namorado perfeito, Rafael, ela é uma jovem brilhante em busca de justiça. Para o Morro, ela é a herdeira de um império que nunca quis. Tudo o que Helena planejou começa a ruir quando seu pai entrega o comando a Arthur — conhecido como Coringa. Frio, calculista e perigosamente atraente, Arthur cresceu à sombra da família de Helena, nutrindo um desejo que agora não pretende mais esconder. Ele quer o morro, mas quer, acima de tudo, a mulher que o despreza. Enquanto a lealdade de Helena é testada e o perigo ronda sua vida dupla, ela precisará decidir: seguir a ética dos tribunais ou a paixão avassaladora que nasce no coração do crime?
Leer másHoras depois... 03:22O hospital Saint-Michel era silencioso demais. O único som era o bipe distante dos monitores e o clique dos meus saltos no mármore. Olhei para o lado e vi Arthur parado perto da janela, observando o pátio. Ele ainda parecia um peixe fora d'água naquele ambiente estéril, mas a forma como a mão dele descansava perto da arma escondida no casaco de marca deixava claro que ele era o predador ali.Passei a mão pelo meu cabelo curto. A sensação do ar batendo na minha nuca era estranha, mas libertadora. Eu não era mais a menina que se escondia atrás de cachos longos. — O médico disse que a cirurgia foi um sucesso, mas as próximas 24 horas são cruciais — falei, quebrando o silêncio.Arthur se virou. O olhar dele desceu pelo meu novo corte de cabelo, demorando-se mais do que o necessário.— Você mudou, Helena. Não foi só o cabelo. — Eu tive que mudar. O mundo que eu achei que exist
HELENA O estado do meu pai era crítico. O lençol branco sob ele já estava tomado por um vermelho escuro e persistente. Dona Neide fazia o que podia, mas os aparelhos apitavam de forma errática.— Ele não aguenta mais duas horas aqui, Arthur — eu disse, minha voz saindo fria, uma calma que eu nem sabia que possuía. — Se ele não for para uma UTI de verdade, ele morre.— Se a gente descer com ele agora, o Moreira pega a gente no primeiro comboio — Arthur respondeu, socando a parede de tijolo aparente. — O asfalto está infestado de choque e milícia.Olhei para o meu reflexo no espelho quebrado da clínica. O rosto sujo, o cabelo castanho longo e ondulado... eu era parecida com a Bruna Marquezine, mas meu cabelo longo ainda me entregava como a "Helena do Morro". Eu precisava de algo mais. Precisava da imagem da estrela internacional que ela era agora.Avistei uma tesoura cirúrgica sobre a bandeja de Dona Neide. Sem hesitar, agarrei o instrumento.— O que você vai fazer, Helena? — Arthur p
HELENA O silêncio na gruta foi quebrado apenas pelo soluço baixo que eu não conseguia mais conter. Eu estava sentada em um caixote de madeira, com o vestido rasgado e os pés sujos de lama, sentindo que toda a estrutura da minha vida de "estudante de Direito" tinha desmoronado sob meus pés.Arthur se aproximou. Ele não disse "eu te avisei", embora seus olhos gritassem isso. Ele se agachou na minha frente, tirando o lenço que usava no pescoço para limpar o rastro de sangue e fuligem no meu braço. — Não gasta suas lágrimas com quem já te vendeu, Helena — ele disse, a voz num tom baixo, quase um comando. — O Rafael é passado. A realidade é o que está aqui na sua frente agora. — Por que você é assim? — olhei para ele, sentindo uma raiva súbita. — Por que parece que nada te abala? Você acabou de matar pessoas lá embaixo! Você quase morreu por mim!Arthur parou o movimento do lenço. Ele segurou meu pulso, e a eletricidade do toque dele me fez estremecer.— Eu não sinto nada porque se eu s
A Fuga pela MataO som dos tiros na quadra começou a ser substituído pelo estalar de galhos secos e pelo som da respiração descompassada. Arthur me puxava com uma força que quase deslocava meu ombro, subindo por uma trilha íngreme que poucos conheciam. A mata era fechada, escura, e o cheiro de terra molhada se misturava ao suor frio que escorria pelo meu corpo. — Abaixa! — Arthur sibilou, me empurrando para trás de uma árvore de tronco largo.Lá embaixo, luzes de lanternas táticas cortavam a escuridão como sabres de luz. Os cães da polícia ladravam ao longe, um som que parecia cada vez mais perto.— Eles estão cercando a trilha principal. O pai do Rafael não é burro, ele sabe que a gente ia tentar a crista do morro — Arthur sussurrou, verificando o fuzil. — Vamos ter que descer pelo despenhadeiro do lado leste. — Arthur, eu não consigo... é muito alto, eu vou cair! — Minhas pernas tremiam tanto que eu mal conseguia me manter em pé.Ele se virou para mim, segurando meu queixo com for
Helena O estalo do primeiro tiro de fuzil foi como um sinal de partida para o inferno. O som ensurdecedor da música foi substituído pelo coro de gritos e pelo barulho rítmico de centenas de solados militares batendo contra o concreto. A quadra, que antes era o palco da celebração, transformou-se em um abatedouro em segundos.— FICA NO CHÃO! — O grito de Arthur ecoou perto do meu ouvido, mas eu mal conseguia processar.Senti o impacto do meu corpo contra o piso frio do camarote quando ele me derrubou para nos proteger da primeira rajada. O vidro acima de nós estilhaçou em mil pedaços, chovendo cristais sobre meus cabelos. O cheiro de pólvora queimada era tão forte que eu podia senti-lo no fundo da garganta.— Arthur, minha família... a Laura! A vitória!— Tentei me levantar, mas a mão dele, pesada e firme, me prensou contra o chão. — Cala a boca e rasteja! Se você levantar a cabeça, ela explode! — ele rugiu. O rosto dele não tinha mais aquele tédio calculista; agora, ele era pura adr
A NOITE..As luzes da quadra do morro podiam ser vistas de longe. O som do grave do funk tremia o chão, anunciando que aquela não era uma noite qualquer. Era a noite em que o comando mudava de mãos.Eu encarei meu reflexo no espelho uma última vez. Estava usando um vestido justo preto e um batom vermelho que eu raramente tinha coragem de usar. Se eu ia entrar na cova dos leões, que fosse de cabeça erguida.— Helena? Você vai mesmo? — minha mãe perguntou, encostada na porta.— Vou, mãe. Só para marcar presença. Não quero que pensem que a "herdeira" está se escondendo só porque o Arthur assumiu.Ao chegar na quadra, o cheiro de perfume caro misturado com o de fumaça era sufocante. O camarote estava lotado. Assim que entrei, os olhares se voltaram para mim. Eu era a filha do patrão, mas também era a "estudante" que muitos ali mal viam.— Olha ela! — Laura veio ao meu encontro, radiante em um conjunto brilhante. — Achei que ia ficar em casa estudando o Código Penal!— Vim ver se você não
Último capítulo