O barulho da lanchonete parecia distante enquanto eu mergulhava na conversa do grupo. Rafael ainda estava afastado, gesticulando nervosamente ao telefone, o que me deu tempo para desabafar com as únicas pessoas que realmente conheciam todos os meus lados.
— Eu achei que a prova fosse me matar, mas consegui terminar tudo. Acho que me saí bem — digitei, sentindo o peso dos ombros diminuir um pouco.
Vitória: — Que bom, sobrinha! Parabéns, você é uma guerreira.
— Obrigada, Vi. Você também é. E você, Laura? Como foi a sua prova? — perguntei, preocupada com a minha prima.
Laura: — Ah, foi mais ou menos... Eu não estudei muito, confesso. Mas acho que deu para passar.
— Tomara que sim, amiga. Você é muito inteligente, só precisa se dedicar mais — respondi, tentando ser o incentivo que ela não tinha em casa.
Laura: — Eu sei, eu sei. Mas é que os problemas lá em casa não param... Você sabe como é. Meu pai está pegando muito no meu pé, tudo por culpa do Arthur. Agora que ele é o "Coringa", o clima lá está insuportável.
— Eu te entendo perfeitamente — suspirei, olhando de soslaio para Rafael, que ainda não tinha voltado. — Mas não desiste dos seus sonhos, tá? Você pode ser o que quiser, independente do que eles fazem.
Vitória: — Falou tudo! Eu estou em casa agora, descansando um pouco antes de ir para o trabalho. Helena, você vem para a posse hoje?
— Eu estou na lanchonete perto da faculdade, esperando o Rafael para almoçar. Ainda não decidi sobre a posse... — digitei, mas meu pensamento voou para o olhar de Arthur naquela manhã.
Rafael voltou para a mesa, guardando o celular às pressas. Ele parecia pálido.
— Tudo bem, amor? — perguntei, deixando o meu celular de lado.
— Tudo, tudo sim. Só problemas na empresa do meu pai. Coisa de herança, sabe como é... — Ele forçou um sorriso e segurou minha mão. — Mas e você? Como foi a prova de Direito Penal?
— Foi boa. Ironicamente, o professor usou exemplos que eu vejo todo dia da janela do meu quarto — comentei, observando a reação dele.
Rafael sempre mudava de assunto quando eu mencionava a realidade do morro. Ele me conhecia como a menina estudiosa de classe média que morava em um "bairro simples", não como a filha do dono da maior facção da região.
— Você é brilhante, Helena. Logo vai estar longe de tudo isso, em um escritório de elite no centro — ele disse, com uma ponta de desespero na voz. — Não precisa se preocupar com o que acontece lá em cima.
— Não é tão simples assim, Rafa. Minhas raízes estão lá.
O almoço seguiu em um silêncio desconfortável. Rafael estava em algum lugar longe dali, e eu? Eu só conseguia pensar no que TH tinha dito. O morro tinha um novo dono. O "Coringa" não era mais apenas o filho do Mago; agora ele era a lei.
Quando me despedi de Rafael com um selinho rápido na porta da faculdade, senti que ele escondia algo maior do que "problemas de empresa". Mas eu tinha meus próprios problemas para lidar.
Peguei o ônibus de volta e, conforme ele subia a ladeira em direção ao asfalto mais próximo do morro, o clima mudava. Bandeirolas e fogos de artifício já começavam a estourar. O asfalto gritava que hoje era dia de festa. Mas para mim, era o começo de um julgamento onde eu não sabia se seria a advogada, a juíza ou a ré.
Ao descer do ônibus, encontrei JJ parado perto de uma moto preta, com o rádio na cintura e o olhar de poucos amigos.
— Helena. — Ele apenas balançou a cabeça em sinal de respeito.
— Oi, JJ. O movimento está cedo hoje, não?
— Ordem do Coringa. Ninguém entra e ninguém sai sem ser revistado hoje. O morro está sob nova direção, mandada. É melhor você subir logo.
Engoli em seco e comecei a subida. Eu tinha renunciado ao cargo, mas o morro insistia em me lembrar de que, ali dentro, eu nunca seria apenas uma civil. Eu era a herdeira. E o novo dono estava apenas esperando o momento certo para cobrar o meu lugar ao lado dele.