Mundo ficciónIniciar sesiónHelena
O estalo do primeiro tiro de fuzil foi como um sinal de partida para o inferno. O som ensurdecedor da música foi substituído pelo coro de gritos e pelo barulho rítmico de centenas de solados militares batendo contra o concreto. A quadra, que antes era o palco da celebração, transformou-se em um abatedouro em segundos. — FICA NO CHÃO! — O grito de Arthur ecoou perto do meu ouvido, mas eu mal conseguia processar. Senti o impacto do meu corpo contra o piso frio do camarote quando ele me derrubou para nos proteger da primeira rajada. O vidro acima de nós estilhaçou em mil pedaços, chovendo cristais sobre meus cabelos. O cheiro de pólvora queimada era tão forte que eu podia senti-lo no fundo da garganta. — Arthur, minha família... a Laura! A vitória!— Tentei me levantar, mas a mão dele, pesada e firme, me prensou contra o chão. — Cala a boca e rasteja! Se você levantar a cabeça, ela explode! — ele rugiu. O rosto dele não tinha mais aquele tédio calculista; agora, ele era pura adrenalina e fúria. Ele sacou um rádio do cinto enquanto mantinha o fuzil travado no ombro, disparando rajadas curtas para dar cobertura. — — TH! Jota! Fechem as saídas 2 e 3! É equipe de elite, eles entraram pelo telhado! Tirem os civis e foquem no contra-ataque! No meio da fumaça das granadas de gás, vi vultos pretos descendo por cordas. Eram homens da CORE, a elite da polícia. Mas um deles se destacava. Ele não estava apenas atirando para dispersar; ele estava avançando direto para o camarote. Quando o clarão de um flashbang iluminou o rosto do invasor, meu coração parou. Os olhos... eram os mesmos olhos que me olhavam com doçura todas as manhãs. A mandíbula quadrada, o jeito de inclinar a cabeça. Era o pai do Rafael. O "empresário" que eu achava que odiava o crime por ética, mas que o caçava com sangue nos olhos. — Eles estão vindo por você, Helena — Arthur sibilou, percebendo o meu choque. — Você ainda não entendeu? O seu namorado não é uma coincidência. Você é o troféu do pai dele. — Não... o Rafael não faria isso... — Minhas palavras saíram fracas, perdidas no som de uma explosão na entrada principal. — Acorda para a vida! — Arthur me puxou pelo braço, me obrigando a levantar enquanto ele usava a pilastra como escudo. — Ou você vem comigo agora, ou vai virar moeda de troca na mão de quem quer ver seu pai apodrecer na Bangu. Ele me puxou para uma passagem estreita atrás do bar do camarote — um túnel de fuga que eu nem sabia que existia. Lá embaixo, o caos era total. Vi Juliana chorando desesperada enquanto era arrastada por um dos seguranças, e Vanessa sendo escoltada por JJ. Arthur me empurrou para dentro de um duto escuro e apertado. — Desce. Agora! Se parar de descer, eu te empurro. Escorregamos por uma rampa de metal que terminava nos fundos da quadra, em um beco estreito coberto por telhas de zinco. O som dos tiros agora parecia mais abafado, mas o perigo era maior. Policiais cercavam as ruelas. Arthur parou, encostado na parede, trocando o carregador da arma com uma agilidade assustadora. O suor escorria pelo rosto dele, misturado com um pouco de sangue de um corte no supercílio. — Escuta bem, Helena. A gente vai atravessar o Beco da Morte até a casa segura do Mago. Se eu mandar você correr, você corre. Se eu mandar você pular, você pula. Entendeu? — Eu quero ir para casa! Minha mãe está lá! Ele se aproximou, segurando meu rosto com as duas mãos. A palma da mão dele estava quente e áspera. — Sua casa é o primeiro lugar onde eles vão bater. Sua mãe está segura, o Leonardo já tirou ela de lá por outro caminho. Agora, o meu trabalho é garantir que você não vire a "mártir" dessa operação. Você é o meu trunfo, lembra? Ele não esperou resposta. Ele me agarrou pela cintura e saímos em disparada pelo beco. O ar estava pesado com fumaça e o som de gritos distantes. De repente, um laser vermelho pontuou o peito de Arthur. — PARADO! POLÍCIA! — O grito veio de cima de um telhado. Arthur nem hesitou. Ele girou o corpo, me protegendo com o próprio tórax, e disparou para cima enquanto me jogava para dentro de uma casa abandonada. O barulho dos projéteis atingindo a parede de tijolo baiano ao lado da minha cabeça foi o som mais aterrorizante da minha vida. Dentro da casa escura, ele me prensou contra a parede, ofegante. Nossos rostos estavam a centímetros de distância. Eu conseguia sentir o batimento acelerado do coração dele contra o meu peito. — Por que você está fazendo isso? — sussurrei, as lágrimas finalmente descendo. — Você nem gosta de mim. Arthur me encarou com uma intensidade que me queimou por dentro. O frio calculista tinha sumido, dando lugar a algo muito mais perigoso. — Eu não preciso gostar de você para não deixar ninguém te tocar, Helena. Eu esperei a vida inteira para ter o que é do seu pai. E eu não vou deixar um tira de merda tirar minha melhor parte antes de eu começar a usar. O rádio dele chiou novamente. Era a voz do TH, desesperada: — Coringa! Eles estão fechando o cerco na saída da mata! O pai do playboy está liderando o grupo alfa, ele quer a herdeira a qualquer custo! Arthur sorriu, um sorriso de lado, sombrio e cortante. — Deixa ele vir. Ele tem a lei, mas eu tenho o terreno.






