Capítulo 5: O Rastro do Medo

A Fuga pela Mata

O som dos tiros na quadra começou a ser substituído pelo estalar de galhos secos e pelo som da respiração descompassada. Arthur me puxava com uma força que quase deslocava meu ombro, subindo por uma trilha íngreme que poucos conheciam. A mata era fechada, escura, e o cheiro de terra molhada se misturava ao suor frio que escorria pelo meu corpo.

— Abaixa! — Arthur sibilou, me empurrando para trás de uma árvore de tronco largo.

Lá embaixo, luzes de lanternas táticas cortavam a escuridão como sabres de luz. Os cães da polícia ladravam ao longe, um som que parecia cada vez mais perto.

— Eles estão cercando a trilha principal. O pai do Rafael não é burro, ele sabe que a gente ia tentar a crista do morro — Arthur sussurrou, verificando o fuzil. — Vamos ter que descer pelo despenhadeiro do lado leste.

— Arthur, eu não consigo... é muito alto, eu vou cair! — Minhas pernas tremiam tanto que eu mal conseguia me manter em pé.

Ele se virou para mim, segurando meu queixo com força para que eu olhasse nos olhos dele.

— Olha para mim, Helena. Esquece o Direito, esquece a faculdade. Agora é instinto. Ou você desce aquele despenhadeiro comigo, ou você vira a prisioneira pessoal daquele desgraçado que você chama de sogro. O que você escolhe?

Eu engoli o choro e assenti. Descemos a encosta quase deslizando na lama. Em um momento, um clarão de lanterna passou a centímetros de nós. O som de uma rajada de fuzil cortou o ar, atingindo as folhas acima de nossas cabeças.

— ALI! MOVIMENTO NA ENCOSTA! — O grito veio de um dos policiais.

— CORRE, HELENA! NÃO OLHA PARA TRÁS! — Arthur gritou, virando-se para dar cobertura e disparando contra os vultos que subiam.

Corri como se minha vida dependesse de cada passo, sentindo os espinhos rasgarem minha pele e o vestido que eu tanto escolhera virar farrapos. O som dos disparos de Arthur ecoava como trovões atrás de mim até que, finalmente, chegamos a uma gruta camuflada por trepadeiras. Entramos e ele selou a entrada com uma placa de metal escondida.

O silêncio dentro da gruta era absoluto, interrompido apenas pelo som das nossas respirações pesadas. A luz de uma lanterna pequena foi acesa por ele, iluminando o ambiente úmido e apertado. Arthur encostou o fuzil na parede e desabou no chão, ofegante.

— Estamos seguros? — perguntei, abraçando meus próprios joelhos, tremendo de frio.

Ele não respondeu de imediato. Tirou o colete, revelando uma camisa preta colada ao corpo pelo suor.

— Por enquanto. Eles não conhecem esse ponto. O Mago preparou isso aqui para emergências.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que a raiva começou a substituir o medo em mim.

— Você sabia, não sabia? Sobre o pai do Rafael.

Arthur me olhou de soslaio, limpando o sangue do corte no rosto.

— Eu sabia que o Coronel Moreira tinha um filho estudando Direito fora do estado. Só não imaginei que o playboy ia ter a audácia de vir pescar logo no nosso aquário.

— O Rafael não sabia de nada! Ele me ama! Ele estava em casa... — tentei defender, mas minha voz falhou.

Arthur deu uma risada amarga e pegou o rádio, sintonizando uma frequência que ele tinha capturado da polícia durante a fuga. O som saiu chiado, mas a voz era clara. Era Rafael.

— Pai, eu vi a Helena saindo da quadra com o Coringa. Eles foram para o setor norte. Por favor, não atira na direção dela, eu preciso que ela saia ilesa para o plano funcionar.

O rádio ficou mudo. Eu senti como se o chão tivesse desaparecido. Rafael não estava em casa. Ele estava monitorando a operação. Ele estava ajudando o pai a me caçar.

— Plano? Que plano, Arthur? — perguntei, a voz quase sumindo.

Arthur se levantou e caminhou até mim, ficando tão perto que eu podia sentir o calor que emanava do corpo dele após a luta.

— O plano deles nunca foi só prender o seu pai, Helena. Eles querem o controle do morro sem dar um tiro oficial. Se eles te pegam, o Leonardo entrega as chaves de ouro para o Estado só para te ver livre. O Rafael não é seu namorado. Ele é o seu carcereiro.

Eu cobri o rosto com as mãos, soluçando. Toda a minha vida "perfeita" no asfalto era uma mentira montada por um policial e o filho dele.

Senti a mão de Arthur, surpreendentemente suave dessa vez, tocar o meu ombro.

— Eu avisei, princesa. O amor é um luxo que a gente não tem aqui em cima. Mas agora... agora você sabe quem está do seu lado.

Ele se inclinou, o rosto perto do meu, e o ódio que eu sentia por ele começou a se misturar com uma necessidade desesperada de proteção.

— Se quiser chorar, chora agora. Amanhã, você vai ter que decidir: se volta para o braço do traidor, ou se assume o seu lugar como a Herdeira que vai me ajudar a enterrar o Coronel e o filho dele.

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