Capítulo 6

Kecharq observou-a falou acariciando o rosto dela.

— Você fala como se estivesse saindo de um negócio burocrático, Emília. Mas o jeito que você se tremeu toda no meu p4u não foi burocracia não — ele pontuou cinicamente, com os olhos semicerrados.

— Eu te avisei e vou repetir... Aquele comédia é um peso morto na sua vida.

— Infelizmente, ele é meu marido. — ela respondeu .

Beijou sutilmente a mão dele, falou de olhos fechados recebendo carinho.

— Mesmo errado, viciado e sendo um idi. ota... ele ainda é o homem com quem me casei. Eu prometi na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...

— E na cadeia, enquanto ele te vende para outro homem te com3r? — Ariel falou, a interrompendo.

Sua voz saiu fria como gelo, sem levantar o tom, mas com uma crueza que atingiu a dignidade de Emília como um soco físico.

— Essa parte do juramento eu não conhecia, sabia? — Kecharq provocou ironicamente, prestes a beijar a boca dela.

Deu um chupão e continuou falando.

— Ele te entregou, delícia. Aceita a realidade que dói menos. No momento em que seu marido aceitou que eu entrasse no meio das suas pernas, fod3r sua bucet4, para ele não levar uma surra, o seu casamento acabou. Só você que não quer ver.

Ela se afastou sutilmente, parou com as mãos trêmulas no meio do cabelo, tentando prendê-lo novamente. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Emília sabia que ele tinha razão. Essa era a pior parte. A verdade dita por um criminoso doía mais do que as mentiras românticas que ela contava para si mesma todas as noites.

— Não importa. — ela disse, limpando o rosto com o dorso da mão.

— Eu não sou mulher de bandido. Não quero essa vida de luxo bancada com corre errado, não quero celular caro, não quero nada disso. Eu não vou mais ser marmita. E, por favor, se você tiver um pingo de consideração pelo que aconteceu aqui dentro, não deixe o Matheus fazer mais nenhuma dívida. Não venda nada pra ele.

Kecharq estendeu a mão, segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a olhar para cima, em seus olhos.

— Eu não sou babá de pilantr4, Emília. Se ele vacilar de novo, a cobrança vem, e não vai ser na pedalada ou xerecard. Mas vou te falar uma coisa...

Ele se inclinou, deixando os lábios quase colados aos dela, o cheiro do cigarro misturado com o perfume criando uma atmosfera sufocante.

— Eu respeito sua postura. Você é firme, tem palavra. Mas o mundo lá fora é cruel para quem quer ser certinha demais. Se as coisas apertarem, se aquele vacilão rodar de vez ou se você cansar de passar fome para pagar jumbo de quem não te valoriza... você sabe onde me encontrar. O meu pessoal lá fora já sabe quem você é.

Ela engoliu em seco, sentindo o coração falhar uma batida. Perguntou apreensiva.

— Isso é uma ameaça? Tem que cobrar dele, não de mim.

Kecharq sorriu, um sorriso de canto de boca, misterioso e perigoso, antes de soltar o queixo dela e dar um passo para o lado, passando por ela e caminhando em direção à porta.

— É um aviso, delícia. O banquete que você trouxe tá me esperando lá fora, e eu quero ver se o seu tempero na cozinha é tão bom quanto o da cama.

Emília respirou fundo, tentando estabilizar o tremor nas mãos. Ela ajeitou a camiseta, limpou os cantos dos olhos no espelho pequeno e gasto pendurado na parede e caminhou em direção à porta.

Ela saiu cabisbaixa, foi em direção a Teteu, ele estava sentado sério impaciente, levantou quando os dois chegaram perto, falou desconcertado, se sentindo inferiorizado.

— Ae meu patrão, só de boa? Tudo certo?

— Não comi nada aqui, pode se servir ficar a vontade.

Kecharq sentou, Emília também, ela começou a servir os dois, com as mãos trêmulas, Kecharq falou percebendo o nervosismo dela.

— Tá tremendo porque p0rra? Fica de boa, tenta não chamar atenção.

Teteu falou começando a comer.

— Ae amor, bora lá no quieto comigo. Tô com saudades de ter um tempo com você. Pra gente trocar uma ideia e eu...

Ela o olhou muito séria, falou interrompendo.

— Vai chupar minha bucetal4 com a p0rra dele? Seu filho da put4 de m3rda.

Ficou emotiva com muita raiv4.

— Olha aqui Teteu, acabou. Eu já deixei bem avisado, se ficar devendo, o problema é seu. Não vou voltar aqui.

Kecharq continuou comendo, sentindo o quanto era bom ver Teteu levar aquele balde de água fria. Emília não conseguiu comer, ficou cabisbaixa e sugeriu que chamassem mais alguém pra comer, porque ela tinha levado muita comida. Teteu ficou bastante sério, sugeriu que Kecharq decidisse, Kecharq repetiu a refeição, falou com deboche e os olhos fixos em Emília.

— Muito bom, tudo o que você faz é bom, estava uma delícia.

Ela ficou calada, séria, bastante desconfortável. Saiu mais cedo do que normalmente, não falou tchau para nenhum dos dois.

O caminho de volta para casa pareceu o triplo do tamanho habitual. Sentada perto da janela do ônibus, Emília apoiava a testa contra o vidro trêmulo, observando a paisagem, pensando no quanto estava odiando seu marido.

O estômago dela revirava a cada solavanco. Por dentro, ela se sentia completamente destruída, como se uma parte essencial de quem fora até poucas horas atrás tivesse sido arrancada e deixada para trás, trancada na cela de visitas íntimas daquele presídio. Sua intimid4de estava dolorida, o cheiro de Kecharq impregnado em sua pele e o f3do do presídio junto.

A humilhação de ter sido usada como moeda de troca, mais uma vez, por Teteu ainda queimava em seu peito, mas o que realmente a aterrorizava e a cobria de uma culpa sufocante era a lembrança dos momentos deliciosos que teve.

Ela sentia n0jo de Teteu. Noj0 da fraqueza dele, do egoísmo descarado de quem a abraçou fingindo arrependimento enquanto secretamente celebrava a própria sobrevivência às custas do corpo da esposa.

Mas, ao mesmo tempo, uma conexão avassaladora, confusa e terrivelmente perigosa com Kecharq havia se instalado sob sua pele. Ela ainda conseguia sentir a pressão das mãos dele em seu quadril, o calor da boca dele em seu pescoço e a intensidade daquele olhar que parecia enxergar todas as suas fraquezas.

Kecharq a tratara com uma dignidade distorcida, respeitando seus limites quando pediu pela proteção, algo que o próprio marido negligenciou algumas vezes no passado. Se não fosse a disciplina dela de se prevenir todo mês, tomando seus anticoncepcionais eles já teriam tido filhos.

O que só pioraria ainda mais sua situação agora.

Ao cruzar o portão de sua casa, o silêncio da edícula vazia a recebeu como uma acusação. Sem sequer acender as luzes da sala, Emília caminhou direto para o banheiro. Tirou a roupa com uma pressa desesperada, foi jogando as peças no cesto de roupa suja como se estivessem contaminadas.

Entrou debaixo do chuveiro e abriu o registro no máximo. A água caiu fria no início, depois esquentou, mas Emília continuou esfregando a pele com a bucha de forma obsessiva, até deixar os braços, os se1os e as pernas vermelhos e ardendo.

Ela queria arrancar qualquer vestígio físico daquele dia. Queria apagar a sensação do toque de Kecharq, mas quanto mais esfregava, mais as imagens intensas invadiam sua mente, trazendo de volta o calor e a excitação voluntária que a fizeram flutuar.

Exausta, Emília saiu do banho e deitou-se na cama. O celular, jogado ao lado, começou a vibrar. O visor exibia o número restrito que ela já conhecia muito bem. Era Teteu. O aparelho vibrou uma, duas, três vezes. A cada insistência, o peito de Emília se apertava.

Ela imaginava a voz dele do outro lado, tentando justificar o injustificável, implorando por perdão mais uma vez. Com um misto de raiva e determinação, Emília pegou o aparelho. Suas mãos não tremiam mais. Ela abriu as configurações, foi até a lista de rejeição automática e bloqueou o número.

Bloqueou também os dois números de celulares que Teteu usava para mandar mensagens de texto. Se ele quisesse falar com ela, que mofasse esperando.

A lealdade cega que a guiara nos últimos anos havia morrido.

— Acabou — Emília falou para o quarto escuro, com a voz firme, embora as lágrimas finalmente tivessem começado a descer por seu rosto.

— Agora sou só eu. Já chega.

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