Capítulo 7

Nos dias que se seguiram, Emília transformou o cansaço em seu escudo protetor. Ela decidiu focar única e exclusivamente no trabalho, usando a exaustão física como um anestésico para manter a mente ocupada e longe das lembranças de Kecharq.

Sua rotina tornou-se uma engrenagem implacável.

Emília acordava antes das seis da manhã para fazer as faxinas, estendia o horário ajudando na limpeza de um escritório comercial no final da tarde e, nas quintas, sextas e sábados, engatava o freelancer como garçonete em um restaurante e chopperia movimentado da região.

Ela trabalhava doze, quatorze, às vezes dezesseis horas por dia. Quando chegava em casa, mal tinha forças para tirar os sapatos. Desabava na cama e dormia um sono pesado, sem sonhos, exatamente como desejava.

Emília precisava levantar dinheiro para pagar as contas atrasadas que Teteu acumulara e, acima de tudo, precisava provar para si mesma que não dependia de ninguém, muito menos da caridade ou do dinheiro sujo de um líder de facção.

No entanto, o destino, ou melhor, as garras de Kecharq, não se desfaziam com tanta facilidade.

Embora ela tivesse deixado claro para ele que nunca mais voltaria e que não aceitaria nenhum tipo de presente ou favorecimento, Kecharq não era alguém acostumado a ouvir a palavra “não”, especialmente de uma mulher que o havia marcado tão profundamente.

Ele não precisava estar fisicamente do lado de fora para fazer sua presença ser sentida, porque tinha um exército de homens leais dispostos a cumprir qualquer ordem sua.

O primeiro sinal do cerco invisível de Kecharq aconteceu em uma terça-feira à tarde. Emília havia acabado de chegar de uma faxina pesada, com o corpo moído e os pés latejando. Enquanto procurava a chave na bolsa para abrir o portão de casa, o ronco alto de uma motocicleta cortou o silêncio da rua.

Um motoboy, usando um capacete escuro e uma jaqueta preta, parou bem em frente à sua calçada. Ele trazia na garupa duas caixas grandes de papelão, presas no banco da moto.

— Moça você é a Emília? — o rapaz perguntou, sem tirar o capacete, com a voz abafada e a viseira aberta.

— Sim, sou eu.

Ele foi soltando as caixas, falou que tinha uma entrega.

— O que é isso? — ela respondeu, dando um passo para trás, desconfiada e com medo, achando que fosse alguém conhecido de Teteu à procura de quitar alguma dívida dele.

— Entrega para a patroa.

Ele começou a colocar as caixas pesadas na calçada. Emília aproximou-se, ele foi abrindo uma das caixas, ela ficou com os olhos arregalados ao notar o conteúdo. Ali havia de tudo: pacote de arroz, feijão, óleo, carnes, produtos de limpeza, caixas de leite, biscoitos e até mesmo chocolates.

Era uma compra de mês completa, farta, que facilmente custaria metade do seu salário mensal como faxineira.

— Moço, tem algum erro aí. Eu não comprei nada disso — Emília explicou, com a voz subindo de tom pela apreensão.

— Eu não tenho dinheiro para pagar por isso. Leva de volta.

— Não tem erro nenhum, moça — o motoboy respondeu, subindo novamente na moto e ligando o motor.

— Já está tudo pago. O patrão mandou entregar e disse que na sua casa não vai faltar nada enquanto ele estiver cuidando de você. Ele mandou avisar que mulher dele não passa necessidade.

Antes que Emília pudesse falar, exigir que ele levasse as caixas embora, o motoqueiro acelerou, sumindo na curva da rua em poucos segundos.

Ela ficou parada na calçada, olhando para aquela quantidade absurda de comida com um misto de indignação e medo. O recado era claro. Kecharq sabia onde ela morava, sabia que ela estava trabalhando até aquele horário, e ele estava tentando comprar sua submissão através do conforto.

Com o orgulho ferido, Emília pensou em deixar as caixas na calçada para que os vizinhos pegassem, mas a realidade de sua despensa vazia pesou. Com os olhos cheios de lágrimas de raiva, ela arrastou as caixas para dentro de casa, sentindo-se mais uma vez encurralada pelo poder daquele homem que a tratava como se ela fosse especial.

Mas o cerco não parou por aí. A presença de Kecharq começou a se manifestar nos lugares mais inesperados da rotina dela, de forma sutil, mas constante o suficiente para fazê-la perceber que nunca estava realmente sozinha.

Na sexta-feira seguinte, durante seu turno como garçonete na chopperia, o movimento estava caótico. O restaurante ficava na avenida principal do bairro vizinho, um local movimentado e frequentemente frequentado por pessoas de fora e por alguns sujeitos envolvidos com os negócios ilícitos da região.

Passava da meia noite quando Emília saiu pelos fundos do estabelecimento para levar alguns sacos de lixo até a caçamba que ficava no beco escuro e mal iluminado. O ar frio da noite bateu em seu rosto suado, trazendo um breve alívio para o cansaço.

Ao erguer os olhos, ela notou um veículo estacionado do outro lado da rua.

Era um civic preto com os vidros cobertos por uma película tão escura que impossibilitava enxergar quem estava no seu interior.

No início, Emília achou que era apenas algum cliente esperando por alguém, mas ao longo das duas semanas seguintes, o mesmo carro preto estava lá. Todas as quintas, sextas e sábados, ele estacionava exatamente no mesmo ponto perto da hora de fechar, e só saía de lá quando o restaurante fechava e Emília pegava sua condução para voltar para casa.

Em uma dessas noites, um grupo de rapazes embriagados começou a importuná-la em uma das mesas da calçada, fazendo piadas de mau gosto e tentando segurá-la pelo braço quando ela ia recolher os copos vazios. Antes que o gerente do restaurante pudesse intervir, a porta do civic preto do outro lado da rua se abriu.

Dois homens mal encarados saíram, com expressões fechadas, desceram do veículo. Eles não disseram uma única palavra para Emília, apenas caminharam até a mesa dos homens alterados e pararam ali, um deles perguntou se estavam com algum problema, deixando visível o volume da arma sob sua camiseta.

O efeito foi imediato. Os clientes arruaceiros empalideceram, pagaram a conta às pressas e sumiram do local sem olhar para trás. Um dos homens do carro olhou fixamente para Emília, deu um aceno sutil com a cabeça, como se estivesse prestando uma reverência, falou "boa noite patroa", e voltou para o veículo junto com o parceiro.

O coração de Emília disparou. Eles não estavam ali para assaltar o local ou para criar problemas. Eles estavam ali por ela. Fazendo a sua segurança. Uma escolta invisível ordenada direto de dentro do presídio pelo homem que se auto denominava seu protetor.

A ficha caiu de forma avassaladora naquela noite, enquanto ela esperava o uber, na rua deserta, viu que quando entrou, o carro foi embora. Mesmo sem colocar os pés na cadeia, mesmo tendo bloqueado Teteu e tentado construir uma parede de indiferença ao seu redor, Emília percebeu que agora estava definitivamente no radar de Kecharq.

Ele a havia cercado por todos os lados. Ele a alimentava, ele a protegia, ele a vigiava. E ela achava, que se rejeitasse, ficaria em perigo.

Seu dia a dia, que antes parecia o seu refúgio, agora funcionava como uma extensão do próprio domínio de Kecharq, ela ficou paranóica, achando que cada motoboy e cada carro suspeito poderia ser os olhos e os ouvidos do homem que prometera cuidar dela, quisesse ela ou não.

Ela havia conseguido se distanciar de Teteu, ficando livre dele e de sua influência manipuladora. Todavia, agora sua recém liberdade estava sob os olhos de alguém que parecia querer jogar um jogo onde as regras já haviam sido escritas por ele, e ela se encontrava prestes a ser forçada a jogar também.

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