Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla manteve o olhar baixo, cética e distante. Sentia o carinho dele em sua mão, mas não correspondia.
— Eu não pude ir no velório. — Ela disse.
Respirou fundo.
— A família dele tá me culpando. E também eu não estava em condições.
Levantou o rosto e o encarou.
— E, caso você não tenha percebido, elas acabaram com o meu rosto.
Sua voz começou a falhar.
— Elas me espancaram, Kecharq. Você tem noção? Me pegaram de madrugada na covardia.
Apontou para o próprio corpo.
— Minhas costelas estão machucadas. Meu rosto agora que começou a desinchar. Eu tô coberta de hematomas.
Levou a mão trêmula até o curativo.
— E ainda vou ficar com essas cicatrizes.
Emília começou a chorar, cobrindo o rosto com as mãos.
Ariel sentou-se ao lado dela imediatamente.
A puxou com cuidado para um abraço e acariciou os cabelos curtos, passando os dedos próximos ao curativo.
— Emília, eu sei que a culpa foi minha.
Falou baixo, contendo a própria raiva.
— Mas isso já passou. Nunca mais vai se repetir.
Ela continuou chorando contra o peito dele. Ele falou dando beijinhos afetuosos no rosto dela.
— Eu juro por tudo que há de mais sagrado: se algum dia qualquer pessoa encostar em você ou te fizer algum mal, eu acabo com a vida dela.
Afastou-a o suficiente para olhar em seus olhos.
— Seja quem for.
— Você tá me ouvindo?
Sua voz ficou mais firme.
— O papo já tá dado.
— Uma é mãe dos meus filhos, a outra tá grávida. Entendeu?
Passou a mão no rosto, nervoso.
— Eu respeito mulher. Respeito minha família.
— Mas o que elas fizeram na covardia não tem perdão.
Cerrou o maxilar.
— Nunca que eu vou ficar com mulher doida, como minha fiel. Mulher minha tem que ser posturada.
— Enquanto eu tava lá preso, elas podiam ter matado você.
Olhou para o corpo machucado dela.
— E se você estivesse grávida? Qual ia ser a fita?
— Acabar com a vida de um inocente? De um filho meu?
Tocou suavemente no queixo dela.
— Ninguém encosta na minha família.
Emília o encarou com os olhos embaçados de lágrimas, ainda tomada pela revolta.
— Se eu estivesse grávida, Kecharq, eu teria perdido.
Ele ficou imóvel, com os olhos ardendo de raiva. Ela continuou falando.
— Elas me encheram de pancadas e chutaram minha barriga, dizendo que eu não ia ter um filho seu.
Ela limpou as lágrimas com as mãos.
— Elas deixaram bem claro que isso nunca iria acontecer.
Kecharq ficou em silêncio, respirando pesadamente, como se tentasse controlar uma fúria crescente.
Emília continuou:
— Olha, eu agradeço de verdade toda a sua ajuda.
— Mas eu não consigo.
— Nunca na minha vida imaginei que poderia ser mulher de bandido, mulher de preso, nada disso.
Respirou fundo, sentindo um peso no peito.
— E agora que o Teteu se foi, eu senti que um peso saiu das minhas costas.
— Eu só quero voltar pra minha vida.
Ariel aproximou o rosto e começou a beijá-la suavemente.
Beijou a testa, a bochecha e, com muito cuidado, o curativo sobre o corte.
Depois acariciou os cabelos curtos dela.
— É...
Suspirou.
— Só tem um problema.
Emília o olhou desconcertada. Ele piscou fazendo charme, e disse.
— Agora você é a minha vida.
Ela ficou paralisada, achando que era brincadeira. Ele segurou a mão dela, continuou falando entrelaçando os dedos.
— E eu já larguei tudo por você.
Continuou, olhando profundamente nos olhos dela:
— Eu não vou te pedir pra me visitar.
— Não vou te pedir pra fazer corre nenhum.
— Nunca vou te usar como bucha.
— Jamais.
Segurou as duas mãos dela.
— Eu sou sujeito homem.
— Sustento o que é meu. Até o fim.
— Nunca vou pedir pra você assumir BO por mim.
Sua voz saiu baixa e sincera:
— Eu só quero que me deixe ficar com você. Na moral.
— Ficar perto, quando estiver de saidinha. Conversar, por cartas, mensagens.
Acariciou as mãos dela com os polegares.
— E eu não peço muito.
— Só peço lealdade, fidelidade. Não aceito traição, de ninguém.
Fez uma pequena pausa.
— É tão difícil assim pra você?
Segurou o rosto dela delicadamente, fazendo-a olhar diretamente em seus olhos.
— Olha pra mim, Emília. Quero me acertar contigo.
Ela o encarou completamente arrasada, mas permaneceu em silêncio.
Ele não desviou o olhar.
Continuou acariciando-a com cuidado.
— Vamos fazer assim.
— Eu vou cuidar de tudo.
— Você vai se recuperar.
— Vai passar no médico e ele vai cuidar do seu rosto.
Passou a ponta dos dedos perto do corte.
— A gente vai dar um jeito nessas cicatrizes.
— Você vai no melhor salão que tiver nessa cidade.
— Vai arrumar seu cabelo.
— Fazer tudo o que quiser. Pra se sentir bem e voltar a brilhar, pra eu não esquecer quem é a guerreira, gostosa pra caralh.o que revirou minha vida e me deixou apaixonado.
Emília apenas o observava, ainda desconfiada. Reagiu levemente apertando as mãos dele. Ele sorriu sutilmente, esperando uma resposta.
— Eu já tô desenrolando uma enfermeira.
— Ela vai ficar com você, pra não ter que sair de casa e ficar indo em postinho. Vai cuidar da casa.
Fez uma pequena pausa, como se a decisão já estivesse tomada.
— E você vai morar na minha casa.
— Já é?
Emília franziu o cenho, assustada.
Ele segurou as mãos dela com mais firmeza.
— Você pode fazer isso por mim?
— Pra eu ficar tranquilo?
Ela continuou sem responder.
O olhar dele ficou ainda mais intenso.
— Porque eu não vou voltar pra tranca se você não me disser sim.
Emília arregalou os olhos.
— O quê?
Ele falou com naturalidade, como se aquilo não fosse nada.
— Eu fujo. Fico aqui.
— Viro foragido.
— Porque você tá me deixando maluco.
Aproximou o rosto do dela, mantendo os olhos fixos em sua expressão. Deu um selinho sutil na boca.
— Eu só volto se você falar sim pra mim.
Acariciou a bochecha dela com o polegar.
— Se deixar eu cuidar de você.
Um pequeno sorriso apareceu no canto de sua boca.
— E aí, delícia?







