Capítulo 9

Os detentos ao redor começaram a se afastar lentamente, rindo com deboche, Kecharq o observava sabendo exatamente do que se tratava.

O pátio, que antes estava barulhento com conversas e jogos, pareceu congelar em um silêncio tenso. Questionar a integridade ou as ações de um líder da facção, especialmente acusando-o de tal conduta no meio do pátio, era uma afronta direta à autoridade de Kecharq. Era uma quebra gravíssima de hierarquia.

Antes que Teteu pudesse continuar com o seu surto de audácia, um dos caras da disciplina deu um passo à frente. Sem aviso, desferiu um soco violento na boca do estômago de Teteu, fazendo-o perder o ar instantaneamente e cair de joelhos no chão de cimento batido.

O segundo homem o segurou pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás com força, expondo seu pescoço. Falou com deboche.

— Você já falou demais, seu comédia. — o cara sussurrou perto do ouvido de Teteu, enquanto ele tossia e tentava recuperar o fôlego.

— Ae tenha mais respeito e humildade. Kecharq fez um favor pra você. Teve uma consideração que você nem merecia.

— Se não pagar, o que deve. Acabou de assinar a sua sentença.

Teteu levantou com dor e o medo finalmente sufocando a sua arrogância, olhou em direção a Kecharq, ele estava observando a cena lá com uma indiferença irritante.

Não havia raiva no rosto de Kecharq, não havia surpresa. Havia apenas o olhar de quem observa um inseto prestes a ser esmagado.

Teteu se afastou, o dia seguiu como sempre era, mas a paranóia dele só crescia, tentou pegar coisas fiado e não conseguiu, começou oferecer Emília a qualquer um, dizendo que ela era pu.t4 na rua. Tentou queimar a índole dela, para a fofoca chegar a Kecharq.

Teteu percebeu, tarde demais, que a sua queda não era apenas financeira ou matrimonial. Ele havia desafiado o chefe dentro de sua própria toca e no mundo do crime, aquele era um erro que nunca se cometia duas vezes.

O peso de viver sob uma vigilância invisível já vinha testando os limites psicológicos de Emília, mas a calmaria tensa desmoronou em uma noite infernal.

Ela decidiu ir visitar Teteu, jurando para si mesma que não queria ver Kecharq, combinou com a moça da excursão, tudo certinho, preparou o Jumbo com o mesmo zelo de sempre, fez o cabelo, as unhas, se depilou e escolheu uma lingerie bonita. Estava sentindo um frio na barriga, uma sensação de angústia, e por isso achou que iam matar Teteu.

Tudo parecia normal, até que na hora de ir pegar o ônibus, a moça mandou mensagem mensagem mudando o ponto de encontro. Emília achou normal, saiu de casa de madrugada, como de costume.

Quando chegou na praça, viu mais três "cunhadas", usando roupas semelhantes, com sacolas transparentes de Jumbo, ela mal falou oi.

Uma delas se aproximou de forma abrupta, perguntou se ela era a marmita, a talarica. O pânico travou os músculos de Emília, ela balançou a cabeça em negativa.

Uma outra mulher que carregava no semblante uma expressão de superioridade fria. Falou que era a fiel de Kecharq, mãe dos filhos dele, deu um tapão no rosto de Emília, perguntando se ela estava fo.dendo com o marido dela.

A outra disse que era namorada dele, com o olhar injetado de pura fúria, segurou Emília pelo cabelo, dizendo que iam deixar ela careca.

Antes que Emília pudesse esboçar qualquer reação ou tentasse correr, a esposa dele avançou, desferindo um empurrão violento contra os ombros dela, fazendo-a se ajoelhar.

— Então é você a marmita com carinha de santa que está fazendo o nosso homem gastar dinheiro com escolta? — Disse, fincando as unhas afiadas contra a pele do rosto dela, a segurando forte.

— Uma faxineira imunda, mulher de um viciado que não vale o prato que come! Você achou mesmo que ia entrar no nosso terreno e ficar por isso mesmo, sua vagab.unda?

A outra foi juntando o cabelo de Emília, levantando, puxando.

Emília, com o coração batendo na garganta e o rosto ardendo machucado, tentou manter a voz firme, embora o terror a consumisse por dentro. Ela sabia perfeitamente do poder destrutivo que elas representavam.

— Eu não fiz nada pra prejudicar ninguém! Eu não quero nada do dinheiro de vocês, eu não pedi nada disso! — Emília exclamou com as mãos erguidas em sinal de defesa

— Meu marido me vendeu, pra pagar dívida.

— Foi o Kecharq que mandou aqueles caras. Eu falei pra ele me deixar em paz! Não quero nada com ele, nem problemas com vocês.

— Cala a boca, para de falar o nome dele, sua p.uta. Quero ver voltar lá com a cara cortada e careca.

Duas a seguraram, começaram a cortar o cabelo de Emília bem curto, ameaçando furar ela toda, cortar o bico dos sei.os, tacar pimenta na buce.ta e cortar o g.relo.

Emília chorava, olhando as mechas de cabelo caindo, a esposa grávida, começou a chutar o abdômen dela, dizendo que se ela aparecesse grávida, iam enfiar um cabide dentro dela.

Depois de cortar o cabelo dela, fizeram um corte no rosto, Emília quase desmaiou, caiu deitada ensanguentada chorando.

A namorada dele pisou no pescoço dela, falando hostil.

— Você achou que ia virar a fiel aqui fora só porque o seu maridinho comédia te fez abrir as pernas lá na tranca?

— Se eu souber que você atendeu mais uma ligação dele, ou se os caras falarem que tem escolta parada na sua porta de novo, a cobrança não vai ser assim não.

— Vamos quebrar as suas pernas e seus braços. Entendeu o seu lugar? Piranha, marmita.

— Se o Kecharq esquecer que você existe, você morre de fome. Se ele lembrar, quem te mata somos nós duas. Dá o fora da cidade, enquanto você tem pernas para andar.

Deixaram Emília lá, aterrorizada. O perigo de morte agora tinha rosto. Envolver-se com aquele homem não era apenas um flerte perigoso com o pecado, era assinar um pacto com o próprio inferno.

Desfigurada, coberta de sangue, Emília andou com o corpo curvado, até uma padaria ali perto, foi socorrida e levada ao hospital, levou pontos no rosto, teve costelas trincadas, dedos luchados, estava coberta de hematomas.

Saiu do hospital quase na hora do almoço, foi para casa de Uber, quando chegou uma vizinha, que a amparou. Emília falou que apanhou por causa de dívida do marido, ela estava irreconhecível, com o rosto deformado.

Deitou e a única coisa que conseguia pensar, era no trabalho, chorou o resto do dia com muita dor e medo.

O dia de visitas passou, e Kecharq não sabia de nada ainda, recebeu a visita da esposa, e só quando ela foi embora, uma das cunhadas comentou com o marido, que Emília tinha dito que ia visitar, agendou até hospedagem, não foi e sumiu.

A fofoca chegou até Kecharq, ele ficou intrigado, mandou um cara ir até a casa de Emília, verificar se estava tudo bem.

O rapaz foi de moto, com uma mochila eco bag, buzinou e desceu para olhar, a vizinha saiu e falou que Emília devia estar dormindo, porque não estava bem. O rapaz falou que era esposo de uma amiga dela, que elas tinham combinado de ir na visita e Emília não foi.

A vizinha contou o que aconteceu, disse que bateram em Emília por causa de dívidas do marido, contou que cortaram o cabelo e até o rosto dela.

O rapaz deixou um número para contato, foi embora sabendo que aquilo não era por dívida. Contou tudo para Kecharq, que ficou furioso querendo saber quem tinha contado das visitas para a mulher dele.

Kecharq tinha olhos e ouvidos em cada canto, logo soube dos detalhes, a moça da excursão contou, morrendo de medo.

Aquilo despertou em Kecharq uma fúria total, não foi difícil de saber, quem passou as informações pessoais de Emília, com detalhes.

A reação dentro do pavilhão foi de uma violência cirúrgica e impiedosa. Ele não discutiu, não gritou. Ele apenas deu a ordem.

Teteu, que já estava trêmulo em sua cela após o incidente no pátio do banho de sol, viu um movimento diferente, nas primeiras horas da noite, passou a noite em alerta.

Assim que começou o banho de sol no dia seguinte, ele não teve tempo de gritar, ou reagir, alguns caras o pegaram dentro da cela, forjaram um sui.cídio.

Kecharq nem foi olhar, mandou que tirassem sua fiel e a namorada, das casas que estavam morando, como punição. Mandou um recado de que se pensassem em encostar em Emília ou qualquer outra, por causa dele, iriam se arrepender amargamente.

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