Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia seguinte, Emília mal conseguiu sair da cama. O corpo inteiro doía, principalmente as costelas e o rosto, onde os pontos repuxavam sempre que ela fazia qualquer expressão.
Logo pela manhã, o telefone tocou.
Ela atendeu imaginando que fosse mais algum conhecido perguntando sobre o que tinha acontecido.
Do outro lado, a voz séria do advogado dizendo que tinha notícias do presídio a fez gelar.
— Oi, Emília?
— Sim...
O advogado começou a falar que encontraram o corpo de Matheus.
Emília permaneceu em silêncio.
Não chorou, não conseguiu dizer uma única palavra e nem acreditar.
A ligação terminou poucos minutos depois.
Ela continuou sentada na cama, olhando para o nada.
Sentindo um vazio enorme, não era somente tristeza.
Era como se todo aquele sofrimento finalmente tivesse encontrado um fim... da pior maneira possível.
Pouco tempo depois, o celular começou a tocar sem parar.
Era a família de Teteu.
Ela atendeu uma das ligações.
Nem teve tempo de falar.
— A culpa é sua! — a mãe dele gritava do outro lado.
— Você abandonou o Matheus na cadeia!
— Se tivesse ido visitar ele, isso nunca tinha acontecido!
Logo outro parente tomou o telefone.
— Você matou ele!
— Egoísta!
— Vaga.bunda!
— Deus vai cobrar você!
Emília desligou, começou chorar.
Outras ligações começaram, muitas mensagens, áudios, ameaças.
Ela bloqueou um por um.
Nem cogitou ir ao velório.
Mal conseguia caminhar até o banheiro.
Passou o restante do dia deitada, tomando remédio para dor e tentando dormir.
Durante dois dias seguidos, um motoboy apareceu em frente à casa dela, ele buzinava.
Chamava pelo nome dela.
— Emília!
— Ô, patroa!
— Sai aí rapidinho!
Ela ouvia tudo escondida atrás da cortina.
O medo era maior que qualquer curiosidade.
Não abriu o portão, nem respondeu.
No terceiro dia, precisou sair cedo para fazer o curativo no posto de saúde.
Caminhava devagar, mancando.
As costelas doíam a cada passo.
O corte no rosto estava coberto por um curativo grande.
Os cabelos, antes longos e bem cuidados, agora estavam curtos e totalmente desiguais.
No fim da rua, um rapaz parado ao lado de uma moto a reconheceu imediatamente.
Era o mesmo motoboy.
Assim que a viu, atravessou a rua rapidamente.
— E aí, patroa...
Ela parou imediatamente.
O medo voltou com força.
— Não fica nervosa não.
— O patrão tá querendo falar com você pra desenrolar qual é que vai ser de agora.
Ele colocou a mão no bolso.
— Espera aí que vou dar um salve lá pra ele.
— Não precisa. — A voz de Emília saiu cansada, trêmula.
— Eu não tenho nada pra conversar com o Kecharq.
Respirou fundo.
— Minha vida virou de cabeça pra baixo por causa dele.
— Eu só quero seguir minha vida.
— Não quero problema com ninguém.
— Tudo isso aconteceu por causa dele.
— Eu só quero paz.
O rapaz ouviu tudo em silêncio. Depois tirou um bolo de dinheiro do bolso e estendeu para ela.
— Não, patroa...
— Fica suave.
— O patrão vai cuidar de você.
— Ele já resolveu lá o desacerto com as doidas dele lá
— Agora ele quer se acertar com você.
— Disse que tá boladão pelo que aconteceu.
— E falou que não vai te largar na mão.
Ela olhou para o dinheiro e balançou a cabeça.
— Eu não quero.
Nem tocou nas notas. Continuou caminhando lentamente em direção ao posto de saúde.
O rapaz guardou o dinheiro novamente.
Pegou o celular e fez uma ligação.
— Patrão...
— Ela tá indo pro postinho.
— Não quis pegar a grana.
— Certo...
Ele desligou e passou a segui-la de longe.
Depois do curativo, Emília saiu do posto sentindo o rosto latejar.
Assim que atravessou a porta, viu um carro preto parado bem em frente.
O mesmo rapaz de outro dia, estava esperando.
Assim que a viu, abriu a porta traseira.
— E aí, patroa?
— Vamos?
Ela permaneceu parada. Ele insistiu.
— Bora.
— A gente vai te levar.
— Não precisa ter medo não.
— Já tá tudo acertado com o patrão.
— Agora a gente vai ajudar.
— Vai te fortalecer aqui fora.
Fez uma pequena pausa.
— E ele mandou avisar que, quando der, vai colocar seu nome no hall de visita.
— Pra você poder ir lá ver ele.
Emília respirou fundo. Respondeu indisposta.
— Eu não tenho interesse nenhum em visitar o Kecharq.
— Nem em ter nada com ele.
— As mulheres dele deixaram bem claro o que vai acontecer comigo.
O rapaz abriu um pequeno sorriso.
— Elas não são mais problema seu. Ele já resolveu.
Ela ficou em silêncio. Depois de alguns segundos, entrou no carro apenas porque realmente não tinha condições físicas de voltar andando.
Durante o caminho, o rapaz explicou:
— O patrão mandou tirar as duas das casas onde estavam.
— Ficou muito bravo.
— Disse que ninguém encosta em mulher por causa dele.
Emília ficou olhando pela janela, pensativa, confusa.
Quando estavam chegando perto da casa dela, o celular do rapaz começou a tocar.
Ele olhou o visor, sorriu discretamente.
Atendeu.
— Fala, patrão.
Ouviu por alguns segundos.
Depois estendeu o aparelho para ela.
— Aí...
— É o patrão.
— Pra você.
Emília pegou o celular devagar, levou ao ouvido.
Do outro lado, ouviu imediatamente a voz grave de Kecharq.
— E aí, delícia...
— Como que você tá?
Ela permaneceu em silêncio.
Ele continuou:
— Primeiramente...
— Eu queria te pedir desculpas.
— E dizer que eu sinto muito pelo que aconteceu com você.
— O que aquelas surtadas fizeram eu já resolvi.
— Vou desenrolar com elas.
— Agora meu papo reto é com você.
— Tenho certeza que você já tá sabendo do que aconteceu com o Teteu.
— Isso aí era problema dele.
— Ele começou a falar muita merda... desandou.
Emília o interrompeu imediatamente.
— Eu não quero saber de nada disso.
— Nem de você.
— Ou dele.
— Nem de nada.
A voz dela começou a falhar.
— Se você visse o meu estado...
— Elas acabaram comigo.
— Cortaram todo o meu cabelo.
— Eu tô toda machucada.
— Cortaram o meu rosto.
— Eu vou ficar com uma cicatriz enorme.
Ela respirou fundo para conter o choro.
— Você não entende, Ariel.
— Eu tô sozinha aqui do lado de fora.
— Como que eu vou trabalhar?
— Como que eu vou me manter?
— Eu tô com medo.
— Eu não consigo sair nem no portão.
— E você tá aí me chamando de delícia...
— Você acha que é fácil?
— Você tá achando que eu sou o quê?
— Uma das suas marmitas?
— Uma das suas putas?
— Você tá muito enganado.
— Porque eu nunca dependi de homem pra nada.
— Sempre fui muito mulher.
— E vou continuar sendo.
— Depois de tudo o que eu passei na mão do Teteu...
— Pode ter certeza que eu nunca vou ficar com alguém como você pra correr o risco disso acontecer de novo.
Do outro lado da linha, Kecharq permaneceu alguns segundos em silêncio.
Quando voltou a falar, sua voz estava calma, paciente.
— Emília...
— Eu não sou um comédia igual o Teteu era, beleza?
— Mulher minha não fica sozinha.
— Mulher minha não trabalha.
— Nunca na minha vida eu colocaria uma mulher minha pra abrir as pernas pra qualquer homem fo.der.
— Eu preferia resolver de qualquer outro jeito do que fazer uma merda dessas.
— Valeu?
Ele suspirou.
— O que aconteceu com você também virou problema meu.
— Você pode ficar tranquila.
— Eu vou te fortalecer.
— Vou cuidar de você até se recuperar.
Fez uma pequena pausa antes de concluir:
— E, se você quiser ficar comigo...
— Arruma suas coisas.
— Porque amanhã você vai pra minha casa.
Emília fechou os olhos por alguns segundos.
A proposta ficou ecoando em sua mente.
Pela primeira vez desde que toda aquela tragédia começou, ela percebeu que estava diante de uma escolha que mudaria completamente o rumo da sua vida.







