Mundo de ficçãoIniciar sessãoEmília não respondeu absolutamente nada. Apenas tirou o celular do ouvido e o devolveu para o rapaz, com o semblante fechado e os olhos perdidos.
O homem pegou o aparelho de volta e falou antes de desligar:
— Sim, pode deixar, patrão. Tá certo. A gente vai cuidar dela aqui.
Após encerrar a ligação, ele olhou para Emília pelo retrovisor do carro e disse com tranquilidade:
— Aí, patroa, se arruma que a gente vai te levar num médico particular pra ver como você tá.
Ela ficou olhando para ele, sem reação. Ele continuou falando.
— E o patrão falou que, se você quiser fazer qualquer coisa no rosto, colocar peito, fazer qualquer bagulho que quiser, ele vai patrocinar.
Deu uma pequena pausa e continuou:
— Porque agora você é a mulher dele. Você gostando ou não, a vida de vocês tá ligada. Eu só tô dando o recado, beleza?
Emília suspirou profundamente, olhando pela janela, pensativa e revoltada. Respondeu ríspida.
— Pode falar pro seu patrão que eu só preciso de repouso. Mais nada.
Sua voz saiu baixa, mas firme.
— Eu não quero fazer nada. Tudo o que ele podia fazer por mim, ele já fez.
Olhou para o próprio reflexo deformado no vidro escuro do carro e completou com amargura:
— E olha aqui o resultado.
A verdade era que Emília estava revoltada.
Não conseguia entender como Kecharq podia agir como se mandar dinheiro, médicos e homens para protegê-la fosse apagar tudo o que havia acontecido.
Quando o carro parou em frente à casa, ela abriu a porta com dificuldade e desceu. O rapaz também saiu, acompanhando-a até o portão.
— Toma.
Ele retirou novamente o bolo de dinheiro do bolso e estendeu em sua direção.
— Isso aí é pra você.
Emília parou e balançou a cabeça, recusando.
— Eu já falei que não quero.
— Mas eu não posso levar de volta, senão sou eu que vou ter problema. — Disse ele.
Ele insistiu, colocando o dinheiro quase contra as mãos dela.
— Aceita. Ele tá fazendo de coração porque te curtiu pra caramba.
Olhou nos olhos dela e continuou com sinceridade:
— E ó, eu conheço o patrão há muito tempo. Ele não fica insistindo com mulher nenhuma.
— Só aceita. Ele nunca vai pedir de volta. Se tá dando, é porque quer.
Emília olhou para as notas, dividida entre o orgulho e a necessidade.
Ela não conseguiria trabalhar durante semanas. Precisava comprar comida, pagar água, luz, aluguel e os remédios que o hospital havia receitado.
Mesmo morrendo de medo das consequências, acabou pegando o dinheiro.
— Obrigada pela carona.
— Tamo junto, patroa. — Ele disse saindo de perto.
Ela entrou rapidamente e fechou o portão.
Passou o restante da semana de repouso, saindo da cama apenas para tomar banho, comer alguma coisa ou trocar os curativos.
Os dias foram silenciosos e dolorosos.
Emília evitava os espelhos. Não queria olhar para o cabelo cortado de qualquer jeito, para os hematomas espalhados pelo corpo ou para o corte no rosto que ainda estava inchado e repuxando.
No final de semana, logo pela manhã, ela ouviu algumas palmas do lado de fora.
— Emília!
Seu corpo gelou, ela se levantou lentamente, sentindo as costelas doerem, e caminhou até a porta com medo de encontrar alguma das mulheres novamente.
Aquele dia era feriado, mas ela nem tinha se dado conta.
Quando abriu a porta e olhou para o portão, quase caiu para trás.
Era Kecharq, ele estava parado diante de sua casa, usando uma calça de moletom preta, uma camiseta branca e um tênis caríssimo de marca.
Continuava imponente, com o mesmo olhar profundo, o semblante carregado e o maxilar travado.
Ao vê-lo ali, fora do presídio, Emília não soube o que fazer.
Ficou parada na garagem, com os olhos arregalados e o coração batendo descontrolado.
Kecharq se aproximou do portão, segurou a grade e falou:
— E aí?
Deu um sorriso sutil ao notar que ela continuava imóvel.
— Vai abrir ou vai me deixar aqui fora, maluca?
Emília se aproximou devagar, ainda andando com dificuldade. Suas mãos começaram a tremer e os olhos ficaram marejados.
— O que você tá fazendo aqui?
Olhou para os lados, nervosa.
— O que aconteceu? Você fugiu, Kecharq?
Ele sorriu enfiou a mão pela fresta da grade e acariciou sutilmente o rosto dela, tomando cuidado para não tocar no corte.
Ficou observando profundamente os olhos dela, reparando em como estava abatida, machucada e com os cabelos muito curtos.
— Não. É claro que eu não fugi.
Parecia até ofendido com a pergunta.
— Tô de saidinha. É feriado.
Acariciou novamente a pele dela e continuou:
— E a primeira coisa que eu quis fazer foi vir ver você.
— Nem minha mãe eu fui ver ainda. Pra você ver como eu não tô de caô contigo.
Fez uma pequena pausa.
— Posso entrar?
Emília engoliu em seco.
Sentiu o olhar dele pesar sobre si e ficou constrangida. Sentia-se feia, acabada, diferente da mulher vaidosa e arrumada que ele conhecera dentro do presídio.
Toda a sua autoestima parecia ter ido embora junto com os cabelos cortados.
Ela assentiu e começou a abrir o portão.
Destrancou o cadeado e voltou para dentro de casa sem dizer nada.
Kecharq fechou o portão atrás de si e entrou.
Ao vê-la caminhando torto, sentiu o coração acelerar e a boca secar.
Sabia que aquilo era culpa dele.
Mesmo que não tivesse dado a ordem e nem soubesse do plano, foram as mulheres ligadas a ele que fizeram aquilo.
Talvez, depois de tudo, Emília nunca quisesse olhar para ele da mesma maneira.
Ela entrou na sala e sentou-se com dificuldade no sofá.
Ele observou o cômodo em silêncio. A casa era muito pequena e simples, com poucos móveis e tudo bastante organizado.
Ele se aproximou, se abaixou diante dela e apoiou uma das mãos em sua perna, acariciando sutilmente.
— Como você tá se recuperando?
Olhou para o rosto dela.
— Você foi no velório do Teteu?
— Como tá a vida aqui fora?
Ele segurou uma das mãos dela, falando com firmeza:
— Você é muito inacessível. E isso mexe comigo de um jeito que eu não gosto, Emília.







