Capítulo 11

Emília não respondeu absolutamente nada. Apenas tirou o celular do ouvido e o devolveu para o rapaz, com o semblante fechado e os olhos perdidos.

O homem pegou o aparelho de volta e falou antes de desligar:

— Sim, pode deixar, patrão. Tá certo. A gente vai cuidar dela aqui.

Após encerrar a ligação, ele olhou para Emília pelo retrovisor do carro e disse com tranquilidade:

— Aí, patroa, se arruma que a gente vai te levar num médico particular pra ver como você tá.

Ela ficou olhando para ele, sem reação. Ele continuou falando.

— E o patrão falou que, se você quiser fazer qualquer coisa no rosto, colocar peito, fazer qualquer bagulho que quiser, ele vai patrocinar.

Deu uma pequena pausa e continuou:

— Porque agora você é a mulher dele. Você gostando ou não, a vida de vocês tá ligada. Eu só tô dando o recado, beleza?

Emília suspirou profundamente, olhando pela janela, pensativa e revoltada. Respondeu ríspida.

— Pode falar pro seu patrão que eu só preciso de repouso. Mais nada.

Sua voz saiu baixa, mas firme.

— Eu não quero fazer nada. Tudo o que ele podia fazer por mim, ele já fez.

Olhou para o próprio reflexo deformado no vidro escuro do carro e completou com amargura:

— E olha aqui o resultado.

A verdade era que Emília estava revoltada.

Não conseguia entender como Kecharq podia agir como se mandar dinheiro, médicos e homens para protegê-la fosse apagar tudo o que havia acontecido.

Quando o carro parou em frente à casa, ela abriu a porta com dificuldade e desceu. O rapaz também saiu, acompanhando-a até o portão.

— Toma.

Ele retirou novamente o bolo de dinheiro do bolso e estendeu em sua direção.

— Isso aí é pra você.

Emília parou e balançou a cabeça, recusando.

— Eu já falei que não quero.

— Mas eu não posso levar de volta, senão sou eu que vou ter problema. — Disse ele.

Ele insistiu, colocando o dinheiro quase contra as mãos dela.

— Aceita. Ele tá fazendo de coração porque te curtiu pra caramba.

Olhou nos olhos dela e continuou com sinceridade:

— E ó, eu conheço o patrão há muito tempo. Ele não fica insistindo com mulher nenhuma.

— Só aceita. Ele nunca vai pedir de volta. Se tá dando, é porque quer.

Emília olhou para as notas, dividida entre o orgulho e a necessidade.

Ela não conseguiria trabalhar durante semanas. Precisava comprar comida, pagar água, luz, aluguel e os remédios que o hospital havia receitado.

Mesmo morrendo de medo das consequências, acabou pegando o dinheiro.

— Obrigada pela carona.

— Tamo junto, patroa. — Ele disse saindo de perto.

Ela entrou rapidamente e fechou o portão.

Passou o restante da semana de repouso, saindo da cama apenas para tomar banho, comer alguma coisa ou trocar os curativos.

Os dias foram silenciosos e dolorosos.

Emília evitava os espelhos. Não queria olhar para o cabelo cortado de qualquer jeito, para os hematomas espalhados pelo corpo ou para o corte no rosto que ainda estava inchado e repuxando.

No final de semana, logo pela manhã, ela ouviu algumas palmas do lado de fora.

— Emília!

Seu corpo gelou, ela se levantou lentamente, sentindo as costelas doerem, e caminhou até a porta com medo de encontrar alguma das mulheres novamente.

Aquele dia era feriado, mas ela nem tinha se dado conta.

Quando abriu a porta e olhou para o portão, quase caiu para trás.

Era Kecharq, ele estava parado diante de sua casa, usando uma calça de moletom preta, uma camiseta branca e um tênis caríssimo de marca.

Continuava imponente, com o mesmo olhar profundo, o semblante carregado e o maxilar travado.

Ao vê-lo ali, fora do presídio, Emília não soube o que fazer.

Ficou parada na garagem, com os olhos arregalados e o coração batendo descontrolado.

Kecharq se aproximou do portão, segurou a grade e falou:

— E aí?

Deu um sorriso sutil ao notar que ela continuava imóvel.

— Vai abrir ou vai me deixar aqui fora, maluca?

Emília se aproximou devagar, ainda andando com dificuldade. Suas mãos começaram a tremer e os olhos ficaram marejados.

— O que você tá fazendo aqui?

Olhou para os lados, nervosa.

— O que aconteceu? Você fugiu, Kecharq?

Ele sorriu enfiou a mão pela fresta da grade e acariciou sutilmente o rosto dela, tomando cuidado para não tocar no corte.

Ficou observando profundamente os olhos dela, reparando em como estava abatida, machucada e com os cabelos muito curtos.

— Não. É claro que eu não fugi.

Parecia até ofendido com a pergunta.

— Tô de saidinha. É feriado.

Acariciou novamente a pele dela e continuou:

— E a primeira coisa que eu quis fazer foi vir ver você.

— Nem minha mãe eu fui ver ainda. Pra você ver como eu não tô de caô contigo.

Fez uma pequena pausa.

— Posso entrar?

Emília engoliu em seco.

Sentiu o olhar dele pesar sobre si e ficou constrangida. Sentia-se feia, acabada, diferente da mulher vaidosa e arrumada que ele conhecera dentro do presídio.

Toda a sua autoestima parecia ter ido embora junto com os cabelos cortados.

Ela assentiu e começou a abrir o portão.

Destrancou o cadeado e voltou para dentro de casa sem dizer nada.

Kecharq fechou o portão atrás de si e entrou.

Ao vê-la caminhando torto, sentiu o coração acelerar e a boca secar.

Sabia que aquilo era culpa dele.

Mesmo que não tivesse dado a ordem e nem soubesse do plano, foram as mulheres ligadas a ele que fizeram aquilo.

Talvez, depois de tudo, Emília nunca quisesse olhar para ele da mesma maneira.

Ela entrou na sala e sentou-se com dificuldade no sofá.

Ele observou o cômodo em silêncio. A casa era muito pequena e simples, com poucos móveis e tudo bastante organizado.

Ele se aproximou, se abaixou diante dela e apoiou uma das mãos em sua perna, acariciando sutilmente.

— Como você tá se recuperando?

Olhou para o rosto dela.

— Você foi no velório do Teteu?

— Como tá a vida aqui fora?

Ele segurou uma das mãos dela, falando com firmeza:

— Você é muito inacessível. E isso mexe comigo de um jeito que eu não gosto, Emília.

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