Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia Navarro sempre soube que não era amada. Cresceu sendo tratada como um fardo dentro da própria casa — espancada, humilhada e esquecida por aqueles que deveriam protegê-la. Mas tudo muda na manhã em que Matteo Vercetti, o homem mais temido da cidade, bate à sua porta. Endividado e sem saída, seu pai entrega a única coisa que ainda lhe resta: ela. Arrancada de sua vida e levada para um mundo de poder, violência e segredos, Lívia se torna propriedade de um mafioso frio e impiedoso. Trancada, vigiada… e cada vez mais observada por Matteo. O que ela não sabe é que sua existência desperta fantasmas do passado — e que sua chegada pode mudar tudo. Porque, no jogo da máfia… Dívidas não são pagas apenas com dinheiro. Mas com sangue.
Ler maisO cheiro de café queimado já fazia parte da rotina.
Lívia Navarro estava de pé há tanto tempo que suas pernas pareciam não pertencer mais ao próprio corpo. O relógio na parede marcava pouco depois das seis da manhã, mas para ela, o dia já tinha começado muito antes disso. Sempre começava.
Seus dedos tremiam levemente enquanto ela mexia o café na panela, observando o líquido escuro borbulhar mais do que deveria. Ela sabia que tinha passado do ponto… mas não podia simplesmente jogar fora e fazer outro. Não havia tempo. Nunca havia. O fogão velho estalava baixo, como se estivesse prestes a desistir também. Lívia respirou fundo, tentando se controlar. Tentando não errar. Porque qualquer erro… era motivo. Ela olhou rapidamente ao redor da cozinha. O ambiente era simples, quase miserável, mas limpo — sempre limpo. Precisava estar. A mesa já estava posta: pão cortado, manteiga, café, ovos mexidos. Tudo exatamente do jeito que eles gostavam. Do jeito que ele exigia. O silêncio da casa era pesado. Não era um silêncio de paz — era aquele tipo sufocante, que pressionava o peito e fazia o coração bater mais forte sem motivo aparente. Mas havia motivo. Sempre havia. Um rangido veio do andar de cima. Lívia congelou. Seu corpo inteiro ficou rígido, como se tivesse sido programado para reagir assim. Seus olhos foram automaticamente em direção à escada, e sua respiração ficou mais curta. Depois outro. Lento. Arrastado. Ela engoliu seco. Seu coração começou a bater mais rápido, como um aviso. A porta do quarto se abriu com força, batendo contra a parede. — Já tá pronto, sua inútil? — a voz rouca e carregada de irritação de Rogério Navarro ecoou antes mesmo de ele aparecer. O cheiro de álcool chegou antes dele. Lívia apertou o pano de prato entre os dedos. — Tá sim… já está na mesa — respondeu baixo, quase sem voz. Rogério apareceu no topo da escada, com os olhos vermelhos, o cabelo bagunçado e a camisa aberta de qualquer jeito. Ele parecia mais velho do que realmente era, consumido pelos próprios vícios. Atrás dele, vinha Dona Alzira. Sempre observando. Sempre julgando. — Hm — ela murmurou, descendo os degraus devagar, apoiando-se no corrimão. — Vamos ver se dessa vez essa garota não estragou tudo. Lívia abaixou o olhar imediatamente. — Eu fiz tudo certo… — Cala a boca! — Rogério rosnou, descendo o restante da escada com passos pesados. O som do cinto sendo puxado ecoou pela cozinha. Seco. Inconfundível. Lívia paralisou. Seu corpo reagiu antes mesmo da mente — os ombros se encolheram, as mãos apertaram o pano de prato com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Eu… eu não fiz nada… — Sempre faz! — ele avançou, o olhar carregado de ódio. — Sempre faz alguma merda! — Pai, eu— O primeiro golpe veio rápido. O couro estalou contra sua perna, e a dor subiu como fogo. Um som fraco escapou de seus lábios, mas ela tentou conter. Não podia fazer barulho. Nunca podia. — Não grita! — Dona Alzira disse, incomodada. — Que escândalo desnecessário. Outro golpe. Mais forte. Lívia fechou os olhos com força, mordendo o lábio inferior até sentir o gosto metálico do sangue. As lágrimas vieram sem permissão, escorrendo silenciosas pelo rosto. Ela não levantou a cabeça. Não podia. Nunca podia. — Nem pra nascer direito você serviu — Rogério cuspiu, erguendo o braço novamente. — Matou a própria mãe! A frase atingiu mais fundo que o cinto. Sempre atingia. Lívia sentiu o peito apertar, como se faltasse ar. — Eu… não tive culpa… — ela sussurrou, a voz quebrada, quase inaudível. O silêncio caiu por um segundo. Pesado. Perigoso. Rogério ficou imóvel, encarando ela. Então, sem aviso, veio o empurrão. Lívia foi jogada contra a mesa. Seu quadril bateu com força na madeira, e uma das xícaras caiu no chão, se espatifando. O café quente se espalhou pelo piso. O barulho ecoou. E tudo parou. Rogério olhou lentamente para o chão. Depois para ela. Respirou fundo. Devagar. — Você… quebrou… minha xícara? Lívia arregalou os olhos, o pânico subindo pela garganta. — Foi sem querer, eu juro, eu— O cinto voltou a subir. Mas antes que descesse novamente…TOC. TOC. TOC. O som firme na porta interrompeu tudo. Seco. Imponente. Diferente. O braço de Rogério ficou suspenso no ar. Dona Alzira franziu a testa. — Quem diabos é agora? Ninguém batia naquela porta. Ninguém visitava aquela casa. Nunca. Lívia ficou imóvel no chão, o coração disparado — mas dessa vez não era só medo. Era algo estranho. Novo. Quase proibido. Esperança. Rogério bufou irritado, jogando o cinto sobre a mesa. — Fica aí — ele apontou para ela com desprezo. — Nem pensa em se mexer. Ele caminhou até a porta, os passos pesados ecoando pela sala. Dona Alzira cruzou os braços, desconfiada. — Essa hora… isso não é coisa boa. Lívia permaneceu ajoelhada, sentindo o corpo latejar de dor. Sua respiração ainda estava irregular, e suas mãos tremiam levemente contra o chão sujo de café. Mas seus olhos… Se voltaram lentamente para a porta. Algo estava errado. Diferente. O ar parecia mais pesado. Como se a própria casa soubesse. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Algo que não poderia ser desfeito. Lívia engoliu seco, sentindo o coração bater cada vez mais forte dentro do peito. E, pela primeira vez em muito tempo… Ela teve a sensação de que sua vida estava prestes a mudar. Mesmo sem saber se aquilo significava salvação… Ou algo ainda pior.— Senhor… a Lívia sumiu.As palavras mal terminaram de sair da boca do segurança quando Matteo levantou da cadeira tão rápido que ela bateu contra o chão atrás dele.O escritório mergulhou num silêncio pesado.Assustador.O homem à sua frente engoliu seco imediatamente.Porque viu.Viu exatamente o instante em que algo mudou no rosto de Matteo.O sangue dele parecia ter desaparecido.Os olhos escureceram perigosamente.— O quê?A voz saiu baixa.Controlada demais.O tipo de controle que antecedia uma explosão.Maria apareceu logo atrás do segurança, claramente nervosa.— Eu procurei em todos os lugares… no quarto, no jardim, cozinha, biblioteca… ela não tá em lugar nenhum.O coração de Matteo bateu uma única vez.Pesado.Violento.E então os pensamentos vieram todos de uma vez.Pegaram ela.Ela fugiu.A família encontrou ela.Algum rival entrou na propriedade.Ela saiu sozinha.Ela tá machucada.Ela tá morta.O último pensamento quase fez seu estômago revirar.Não.Não.Não.Matteo pa
Lívia não aguentava mais.Aquilo estava a consumindo lentamente.Cada resposta fria de Matteo.Cada olhar desviado.Cada palavra seca.Parecia castigo.E o pior de tudo era que ela não entendia o motivo.Porque dias antes ele quase a beijava.Quase perdia o controle por ela.Agora agia como se sua presença fosse um incômodo.Ela já não sabia mais o que pensar.Talvez tivesse imaginado tudo.Talvez Matteo realmente estivesse brincando com ela aquele tempo todo.Talvez tivesse sido só carência.Confusão.Ou pior…talvez ele tivesse olhado para ela e finalmente percebido que ela nunca seria Elena.Aquilo apertou seu peito outra vez.Lívia caminhava pelos corredores da mansão abraçando os próprios braços enquanto tentava controlar as lágrimas.Não queria chorar.Não por ele.Mas doía.Droga… como doía.Ela ouviu vozes de seguranças próximos da entrada principal e automaticamente mudou de direção.Não queria ninguém olhando para ela agora.Nem Maria.Nem Teresa.Nem Matteo.Principalmente
A mansão nunca pareceu tão silenciosa.E Lívia odiava isso.Os corredores continuavam iguais.Os funcionários ainda circulavam normalmente.Maria continuava tentando arrancar sorrisos dela.Teresa seguia cuidadosa e gentil.Mas Matteo…Matteo tinha mudado.Ou talvez estivesse apenas voltando a ser quem era antes.Frio.Distante.Cruel.E aquilo estava destruindo ela aos poucos.Nos últimos três dias, ele praticamente não falava com ela.Quando falava, era seco.Curto.Como se cada palavra dirigida a ela fosse um incômodo.Lívia tentava agir normalmente.Tentava fingir que não se importava.Mas era impossível.Porque agora ela sabia como era quando Matteo olhava para ela de outro jeito.Sabia como era quando a voz dele suavizava minimamente.Quando ele prestava atenção nela.Quando a presença dele aquecia o ambiente ao invés de congelá-lo.Agora tudo parecia vazio.Naquela manhã, Lívia desceu para o café usando um vestido simples azul-claro. O cabelo ainda estava levemente úmido do ban
Os dias seguintes ficaram estranhos.Insuportavelmente estranhos.Matteo parecia ter desaparecido dentro da própria casa.Não literalmente.Lívia ainda o via.Às vezes cruzava com ele nos corredores.Outras vezes escutava sua voz no escritório ou o via entrando e saindo da mansão cercado pelos homens armados.Mas era como se existisse uma distância invisível entre eles agora.Uma parede.E aquilo estava enlouquecendo ela.Porque Matteo continuava observando.Ela percebia.Sentia.Mesmo quando ele fingia indiferença.Os olhos dele ainda a acompanhavam discretamente durante o jantar.Ainda paravam nela quando pensava que ninguém percebia.Ainda endureciam quando algum funcionário chegava perto demais.Mas no segundo em que Lívia tentava se aproximar…ele se afastava.Sempre.Como se estivesse lutando contra si mesmo.E aquilo começou a machucá-la mais do que ela gostaria de admitir.Naquela tarde, Lívia estava sentada no jardim com Maria tentando se distrair enquanto ajudava a separar f





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