Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro não parava.
Lívia não fazia ideia de quanto tempo havia passado desde que saiu daquela casa… daquela prisão que, por anos, foi tudo o que conheceu. Agora, estava em outra. Talvez pior. Ou talvez… diferente. Ela não sabia dizer. Seu corpo doía. Cada movimento fazia sua pele arder, cada respiração parecia pesar dentro do peito. Sua mão latejava, ainda aberta pelo corte do vidro. O sangue já havia secado em partes, mas a dor permanecia viva. Insistente. Real. Ela estava sentada no banco traseiro, encostada na porta, como se quisesse desaparecer dentro dela. Seus olhos, antes baixos, agora se permitiam observar, mesmo que discretamente. O homem ao seu lado. Matteo. O nome ainda ecoava na sua mente. Ele estava imóvel, olhando pela janela, como se ela nem estivesse ali. Frio. Distante. Mas não indiferente. Lívia percebeu. Ele sabia que ela estava ali. Sabia de cada movimento. De cada respiração. E mesmo assim… não olhava. Aquilo a deixava mais inquieta do que se ele estivesse encarando diretamente. O silêncio dentro do carro era sufocante. Até que— — Para. A voz dele foi baixa, mas firme. O motorista obedeceu imediatamente. O carro estacionou. Matteo finalmente virou o rosto. E olhou para ela. Direto. Sem desviar. Lívia prendeu a respiração. Aquela sensação voltou. Como se ele estivesse tentando enxergar algo além do que estava ali. Como se estivesse… procurando. — Desce — ele disse. Simples. Sem emoção. Um dos homens abriu a porta. Lívia hesitou. Seu corpo não queria obedecer. Mas ela sabia que não tinha escolha. Nunca teve. Com dificuldade, ela saiu do carro. Suas pernas falharam por um segundo, e ela precisou se apoiar para não cair. Ninguém ajudou. Matteo já caminhava à frente. Sem olhar para trás. O lugar era… diferente de tudo que ela já tinha visto. Grande. Imponente. Um portão alto se abriu automaticamente, revelando uma propriedade enorme. O jardim perfeitamente cuidado contrastava com o peso que aquele lugar transmitia. Era bonito. Mas não era acolhedor. Era… perigoso. Lívia sentiu isso no instante em que entrou. A casa parecia um castelo moderno. Vidros escuros, paredes altas, segurança em todos os cantos. Ela engoliu seco. Aquilo não era um lar. Era uma fortaleza. E ela estava presa dentro. — Anda. A voz de Matteo veio novamente. Ela apressou o passo, ignorando a dor. Por dentro, tudo era ainda mais silencioso. Frio. Organizado demais. Limpo demais. Como se ninguém realmente vivesse ali. Eles subiram uma escada longa. Corredores. Portas. Mais silêncio. Até que Matteo parou. Abriu uma porta. E entrou. Lívia hesitou por um segundo antes de segui-lo. O quarto era grande. Luxuoso. Uma cama enorme, lençóis impecáveis, cortinas pesadas bloqueando parte da luz natural. Havia um banheiro ao lado, uma poltrona, uma mesa. Tudo perfeito. Tudo… distante da realidade dela. — Fica aqui. Ele falou sem olhar para ela. Lívia piscou. — Eu… A palavra morreu na garganta. Ela não sabia o que perguntar. Não sabia o que podia. Não sabia nada. Matteo finalmente se virou. Se aproximou. Devagar. Parando bem na frente dela. Perto demais. Lívia sentiu o coração disparar. Instinto. Medo.Ele ergueu a mão.
E, por um segundo… ela se encolheu. Esperando o impacto. Mas ele não veio. Em vez disso, Matteo segurou o queixo dela. Firme. Levantando seu rosto. — Olha pra mim. Ela hesitou. Mas obedeceu. Os olhos dele eram intensos. Escuros. Profundos. E, naquele momento… Confusos. Ele observou cada detalhe do rosto dela. Como se memorizasse. Como se comparasse. Como se estivesse tentando provar algo para si mesmo. Então soltou. De repente. Como se tivesse tocado algo que não deveria. — Ninguém entra aqui sem minha permissão — ele disse, seco. — E você não sai. As palavras caíram como uma sentença. Lívia sentiu o peito apertar. De novo. — Entendeu? Ela assentiu. Sem voz. Sem reação. Matteo caminhou até a porta. Mas antes de sair, parou. Por um breve segundo. Sem se virar, disse: — Se tentarem te tocar… O silêncio pesou. — Me avisa. E saiu.A porta se fechou.
O som ecoou no quarto. E, pela primeira vez… Lívia estava sozinha. Ela permaneceu parada por alguns segundos. Sem saber o que fazer. Sem saber o que sentir. Então suas pernas cederam. Ela caiu de joelhos no chão. A respiração saiu irregular. As mãos tremiam. O corpo inteiro ainda sentia os golpes. As palavras. As memórias. Tudo ainda estava ali. Mas… algo estava diferente. Ela olhou ao redor. A cama. O silêncio. A ausência de gritos. De passos. De ameaças. Ninguém entrou. Ninguém bateu. Ninguém mandou ela levantar. Ninguém… Machucou. Lívia fechou os olhos. E, pela primeira vez em anos… O silêncio não trouxe medo. Trouxe… confusão. Do outro lado da porta, Matteo permanecia parado. Imóvel. A mão ainda no trinco. Seus olhos estavam fechados. E sua respiração… pesada. Por um instante, a imagem dela voltou à sua mente. O rosto. O olhar. A dor.E junto disso...
Outra imagem. Outro rosto. Outra mulher. Um nome ecoou. Elena. Matteo abriu os olhos. Frio novamente. Distante novamente. — Não… — murmurou para si mesmo. Mas já era tarde. Porque, pela primeira vez em anos… Algo dentro dele havia sido abalado.






