Capítulo 5 - Limites

Já haviam se passado três dias.

Três dias desde que Lívia foi levada para aquela casa.

E, desde então, o mundo dela se resumia àquele quarto.

As únicas pessoas que via eram Dona Teresa… e uma das empregadas que entrava em silêncio, sempre nos mesmos horários, deixando refeições e vitaminas sobre a mesa.

Ninguém mais.

Nenhuma explicação.

Nenhuma resposta.

Só espera.

E silêncio.

Naquela manhã, Teresa veio como de costume, trazendo sua maleta.

— Vamos dar uma olhada em você, querida — disse, com suavidade.

Lívia se sentou na cama, estendendo a mão enfaixada.

A senhora analisou com atenção.

— Os ferimentos mais leves estão cicatrizando muito bem… — comentou. — Mas esse corte aqui ainda vai levar alguns dias.

Lívia assentiu em silêncio.

Quando Teresa saiu, o quarto voltou a ficar quieto.

Pesado.

Ela respirou fundo… e se levantou.

Se colocou diante do espelho.

Por um momento… apenas se encarou.

Havia hematomas espalhados pelo corpo.

Principalmente no tronco.

Roxos.

Amarelados.

Alguns ainda recentes.

Outros já antigos demais.

Ela perdeu as contas de quantas vezes teve as costelas quebradas.

Chutes.

Pauladas.

Dor.

Seus olhos desceram lentamente pelo próprio reflexo.

Apesar de tudo…

Ela ainda era bonita.

Cabelos escuros, longos, ondulados.

Pele macia.

Quase intacta no rosto.

Porque aquela era a única parte que ela conseguia proteger.

Sempre.

Seu olhar endureceu por um segundo.

Então desviou.

Subiu na balança ao lado da cama.

O número apareceu.

Ela arregalou levemente os olhos.

Cinco quilos.

Em três dias.

— Ainda faltam vinte… — murmurou para si mesma.

Suspirou.

Estava entediada.

Presa.

Sem nada para fazer.

Sem saber o que pensar.

Ou sentir.

Decidiu tomar um banho.

Talvez a água levasse embora tudo que fosse um pouco daquele peso.

Minutos depois, saiu do banheiro, o corpo ainda úmido, enrolada apenas na toalha.

E então—

Parou.

O coração disparou.

Havia um homem dentro do quarto.

Desconhecido.

Alto.

Loiro.

O olhar dele percorreu o corpo dela sem pudor algum.

Lívia segurou a toalha com força, os dedos ficando brancos.

— Ora, ora… — ele sorriu, de forma nojenta. — O que temos aqui? Um brinquedinho perfeito…

Ela deu um passo para trás.

— Quem é você? — perguntou, tensa. — O que está fazendo aqui?

Ele avançou.

Calmo.

Como se estivesse no controle.

— Steve — respondeu. — Um grande amigo do Matteo.

O nome fez o estômago dela revirar.

— Ouvi dizer que ele trouxe uma gatinha abandonada pra cá… — continuou. — Eu precisava ver com meus próprios olhos.

Ele se aproximou mais.

Muito mais.

— Se afasta de mim! — ela disse, firme.

Mas ele não parou.

Até que—

A encurralou contra a parede.

Lívia sentiu o pânico subir pelo corpo.

Sua respiração ficou irregular.

Ele estava perto demais.

O cheiro.

O olhar.

As palavras.

Suas mãos tremiam enquanto segurava a toalha.

— Fica quietinha… — ele murmurava coisas nojentas, próximas demais do ouvido dela.

— Socorro! — ela tentou gritar.

Mas ele tampou sua boca.

O desespero tomou conta.

E então—

A porta se abriu.

De repente.

Matteo.

Seu olhar foi direto para os dois.

Frio.

Perigoso.

— O que está acontecendo aqui?

Steve se afastou imediatamente, como se nada tivesse acontecido.

— Calma — disse, levantando as mãos. — Eu só estava conversando… ela que começou a se oferecer, tirando a toalha, se jogando pra cima de mim—

— NÃO! — Lívia avançou um passo, desesperada. — Isso é mentira!

Seus olhos estavam marejados.

— Eu saí do banho e ele já estava aqui! Ele… ele falou coisas… tentou—

Ela engoliu o choro.

— Por favor… acredita em mim…

O silêncio caiu no quarto.

Pesado.

Matteo ajustou o suspensório devagar.

Respirou fundo.

— Steve — disse, por fim. — Vamos conversar.

O loiro sorriu de canto.

Antes de sair, lançou uma piscadela para Lívia.

Como se já soubesse o final daquilo.

Como se fosse sair ileso.

E talvez não fosse bem assim...

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