Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinutos se passaram.
Longos. Pesados. Lívia já estava vestida. Cabelos ainda úmidos. Andava de um lado para o outro, nervosa. Até ouvir vozes do lado de fora. Confusão. Movimento. Ela hesitou… Mas se aproximou da janela. E então viu. Steve estava de joelhos no chão. Forçado. Um dos homens o segurava. Seu rosto estava machucado. Nariz sangrando. E— Lívia levou a mão à boca. Faltavam três dedos. Ele chorava. Implorava. — Eu não sabia! — gritava. — Não sabia que ela era importante assim! Eu juro, nunca mais encosto nela! Lívia tremia. O coração batia descompassado. Matteo estava parado à frente dele. Frio. Imóvel. — Não existe perdão pra isso — disse. Simples. Direto. Ele sacou a arma. E atirou. O som ecoou. Seco. Definitivo. Lívia soltou um grunhido abafado, em choque. Matteo ergueu o olhar. Direto para a janela. Ela se abaixou imediatamente. Escondendo-se. Respiração presa. Corpo tremendo. Ela se jogou na cama. Se cobriu inteira. Como se aquilo pudesse protegê-la. Como se pudesse apagar o que viu. Mas não apagava. Nunca apagava. — Horas depois… Batidas na porta. — Posso entrar? Era ele. Lívia fechou os olhos. — Não… A porta abriu mesmo assim. — Ainda assim, a casa é minha — disse Matteo, entrando. Ela se sentou na cama, tensa. Ele parecia… mais calmo. — Sinto muito por você ter visto aquilo — disse. — Mas foi necessário. Para evitar que aconteça de novo. Lívia o encarou. — Ele disse que era seu amigo. Matteo soltou um leve riso sem humor. — Eu o conheci há pouco tempo. Ele deu alguns passos pelo quarto. — E mesmo que conhecesse há anos… não faria diferença. Ela franziu a testa. — No meu ramo… não existem amigos — continuou. — No máximo aliados. Ou capangas. Seus olhos encontraram os dela. — Amigos… nunca. Todos são propensos a trair. Lívia absorveu aquilo em silêncio. Então, com cuidado… — Então… esse é o seu trabalho? Matar pessoas? Matteo suspirou. — Não exatamente. Meu trabalho envolve muito mais do que isso. Uma pausa. — Mas matar… faz parte. Ele a observou. — Você realmente não sabe quem eu sou? Ela negou. — Eu saí de casa há oito meses… — disse. — Mas… nem isso parece suficiente pra entender o que tá acontecendo. Ele assentiu, pensativo. Então, ela respirou fundo. E perguntou tudo de uma vez: — Por que eu estou aqui? Quanto tempo vou ficar? O que aconteceu com a minha família? Silêncio. Matteo bufou. Virou-se em direção à porta. Já indo embora. Mas parou antes de sair. E disse: — Você ainda os chama de família… E saiu. O silêncio voltou. Mas agora… Mais pesado do que nunca. Lívia suspirou. Levando a mão até o próprio peito. Ele realmente não gostava de perguntas. E, pelo visto… As respostas seriam muito mais perigosas do que ela imaginava. — O quarto parecia menor depois daquilo. Mais sufocante. Mais frio. Lívia ficou sentada na cama por um longo tempo, encarando a porta por onde Matteo havia saído. — “Você ainda os chama de família…” A frase ecoava na mente dela. De novo. E de novo. Seu peito apertou. Ela puxou o lençol com mais força, como se aquilo pudesse segurar algo dentro dela prestes a quebrar. — O que isso quer dizer…? — sussurrou para si mesma. Seus olhos começaram a arder. Memórias vieram como um soco. A casa. Os gritos. A dor. As mãos que deveriam proteger… mas só machucavam. Seu pai. Seu irmão. As noites em claro. A fome. O medo constante. Lívia levou a mão até a boca, tentando conter o choro. — Aquilo… era família… — disse, quase sem voz. Mas nem ela parecia acreditar totalmente nisso. Ela respirou fundo. Tentando se recompor. Tentando organizar os pensamentos. Mas tudo estava confuso. Bagunçado. Errado. Ela se levantou devagar, caminhando até a janela novamente. Com hesitação. Como se tivesse medo de olhar. Mas olhou. O pátio já estava limpo. Nenhum sinal do que tinha acontecido. Como se nada tivesse existido. Como se aquela morte… fosse apenas mais uma rotina. O estômago dela revirou. — Que tipo de lugar é esse…? Que tipo de homem era Matteo? Ele matou alguém. Sem hesitar. Sem demonstrar emoção. Mas também… Foi ele quem a salvou. Quem mandou cuidar dela. Quem impediu que aquilo piorasse. Lívia fechou os olhos com força. — Isso não faz sentido… Ele era um monstro. Mas… não completamente. E isso era o que mais assustava. Porque monstros previsíveis eram mais fáceis de temer. Mas os que às vezes protegiam… Esses confundiam. E confundiam muito. Ela encostou a testa no vidro frio da janela. Respirando devagar. Tentando se acalmar. — Eu preciso entender o que tá acontecendo… Precisava de respostas. Mesmo que ele odiasse perguntas. Mesmo que fosse perigoso. Porque ficar no escuro… Era pior. Muito pior. E, pela primeira vez desde que chegou ali… Um pensamento diferente surgiu. Não de medo. Mas de decisão. Lívia abriu os olhos. O olhar mais firme. — Eu não vou ficar só esperando… Se queria sobreviver naquele lugar… Ela precisaria aprender. Observar. E, principalmente… Escolher muito bem suas próximas perguntas.






