Capítulo 4 - Cuidados

O tempo parecia diferente ali dentro.

Lívia não sabia dizer quanto havia passado desde que a porta se fechou. Minutos? Horas? Seu corpo ainda estava tenso, como se a qualquer momento alguém fosse entrar gritando, mandando, machucando.

Mas nada acontecia.

O silêncio permanecia.

Ela ainda estava no chão quando ouviu batidas leves na porta.

Três toques suaves.

Diferentes.

— Posso entrar, querida?

A voz era feminina.

Calma.

Gentil.

Lívia demorou um segundo para responder.

— S-sim…

A porta se abriu devagar.

Uma senhora entrou, carregando uma maleta e uma bandeja de primeiros socorros. Seus cabelos eram grisalhos, presos em um coque simples, e o rosto tinha marcas do tempo… mas também uma expressão acolhedora que Lívia não reconhecia.

Não estava acostumada com aquilo.

— Olá — a mulher sorriu de leve. — Meu nome é Teresa . Sou a governanta da casa.

Lívia piscou, um pouco sem reação.

— Eu… sou Lívia.

— Eu sei — Teresa respondeu, com delicadeza. — O senhor Matteo me pediu para cuidar de você.

Aquilo a surpreendeu.

Matteo.

Ele tinha mandado alguém cuidar dela.

Antes que pudesse pensar mais sobre isso, Dona Teresa já se aproximava, colocando a bandeja sobre a mesa.

— Vamos começar pelo mais grave — disse, com um tom prático, mas ainda gentil.

Seus olhos caíram na mão de Lívia.

O caco de vidro ainda estava ali.

Cravado.

O sangue seco ao redor deixava a cena ainda mais dolorosa.

— Vai arder um pouco, minha querida… — avisou.

Lívia engoliu seco.

Sentou-se devagar na cama, estendendo a mão com hesitação.

Dona Teresa colocou luvas, pegou uma gaze, limpou o excesso de sangue com cuidado.

Apesar da dor, havia algo… diferente.

Ela não era brusca.

Não era cruel.

Era cuidadosa.

Lívia observava cada movimento.

— A senhora… já fez isso antes, né? — perguntou, com a voz baixa.

Teresa sorriu de canto.

— Algumas vezes.

— A senhora fez enfermagem?

— Não — ela negou suavemente. — Apenas virei uma espécie de quebra-galho.

Lívia franziu levemente a testa.

— Como assim?

— O senhor Matteo… e os homens dele — ela disse, escolhendo as palavras — acabam se ferindo com frequência no trabalho. Então eu aprendi a cuidar.

Lívia ficou em silêncio por um segundo.

Pensando.

— O trabalho deles é… cobrar dívidas?

A pergunta saiu antes que ela pudesse se conter.

Dona Teresa parou por um instante.

Seus olhos subiram até os de Lívia.

E, então… ela se calou.

— Acho que não estou autorizada a falar muito sobre isso — disse, por fim. — Você deve descobrir em breve.

“Em breve.”

A palavra ecoou na mente de Lívia.

Seu coração apertou.

— Em breve? — ela repetiu. — Quanto tempo eu vou ficar aqui?

Dona Teresa não respondeu.

Continuou limpando o ferimento, como se não tivesse ouvido.

O silêncio voltou.

Pesado.

Inquietante.

Lívia respirou fundo.

— Você não vai me perguntar como eu consegui esse ferimento?

A pergunta saiu mais amarga do que ela pretendia.

Teresa não respondeu de imediato.

Apenas posicionou melhor a mão dela.

E, sem aviso—

Puxou o caco de vidro.

Lívia gritou.

A dor veio como uma explosão, atravessando seu corpo inteiro. Seus dedos se contraíram, suas pernas enrijeceram, e as lágrimas vieram instantaneamente.

A porta se abriu de repente.

Matteo apareceu.

Rápido.

Imponente.

Seus olhos foram direto para Lívia.

— O que aconteceu?

Dona Teresa se virou com calma.

— Está tudo bem, senhor — disse. — Só removi o vidro. Doeu um pouco, mas ela vai ficar bem.

O olhar de Matteo permaneceu sobre Lívia por mais alguns segundos.

Analisando.

Avaliando.

Ela ainda respirava com dificuldade, os olhos marejados, o corpo tenso.

Mas assentiu levemente.

Ele também assentiu.

Sem dizer mais nada…

Foi embora.

A porta se fechou novamente.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez… diferente.

Mais pesado.

Dona Teresa voltou a trabalhar no ferimento, agora aplicando um antisséptico.

— Tente não fazer muitas perguntas — ela disse, em um sussurro.

Lívia olhou para ela.

— O quê?

— Nesta casa… há coisas que só o senhor Matteo pode responder. E ele não gosta nem um pouco de curiosos.

Lívia engoliu seco.

Assentiu.

Sua mente começou a girar.

Ela foi dada como pagamento de uma dívida.

Arrancada de tudo que conhecia.

Jogada em um lugar que não entendia.

Com pessoas que não conhecia.

Mas, pela primeira vez…

Alguém estava cuidando dela.

De verdade.

Dona Teresa terminou de enfaixar sua mão.

Depois passou para os outros ferimentos — alguns mais leves, outros antigos demais para serem tratados de imediato.

— Você está muito magrinha… — comentou, com um leve pesar na voz. — E, pelo seu aspecto… eu diria que está anêmica.

Lívia não respondeu.

Apenas desviou o olhar.

— Vou trazer algo para você comer — Teresa disse, se levantando. — Seu corpo precisa de força.

Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— Tome um banho, querida. Vai te fazer bem.

Lívia olhou para si mesma.

Para o sangue.

Para a sujeira.

— Em breve, vão trazer roupas para você — completou.

E então saiu.

Sozinha novamente.

Lívia olhou ao redor.

Tudo ainda parecia estranho.

Irreal.

Mas, ao levantar devagar e caminhar até o banheiro…

Ela percebeu algo.

Pela primeira vez em muito tempo…

Ela não estava sendo machucada.

Apenas… cuidada.

Mas isso não significava que estava segura.

Porque, no fundo…

Ela sabia.

As feridas do corpo podiam até cicatrizar.

Mas as de dentro…

Essas levavam muito mais tempo.

Ou talvez…

Nunca cicatrizassem.

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