Um Problema a Vista

Marcello

Eu estava há tanto tempo sentado naquele escritório que já não conseguia lembrar quando havia sido a última vez que colocara os pés nos vinhedos.

A constatação me irritou imediatamente.

Era quinta-feira e, durante toda aquela semana, eu praticamente não tinha saído da parte administrativa da propriedade. Relatórios financeiros, contratos de exportação, reuniões com fornecedores, negociações com distribuidores e uma quantidade absurda de burocracia haviam consumido cada minuto dos meus dias.

A fazenda continuava funcionando.

Os vinhos continuavam sendo produzidos.

As colheitas continuavam acontecendo.

Mas eu estava preso atrás de uma mesa.

Aquilo me incomodava mais do que eu gostava de admitir.

Sempre odiei passar tempo demais dentro de escritórios.

Meu pai costumava dizer que um Moretti precisava conhecer cada pedaço da própria terra, precisava caminhar entre os vinhedos, conversar com os funcionários e acompanhar o trabalho de perto.

Foi assim que ele me criou.

Foi assim que eu aprendi.

E era exatamente por isso que me sentia tão frustrado naquele momento.

Suspirei e passei a mão pelo rosto antes de voltar minha atenção para a pilha de documentos espalhados sobre a mesa.

O relatório mais recente tratava de uma nova safra que pretendíamos lançar no próximo ano.

Os números eram promissores.

As projeções eram excelentes.

Qualquer outro produtor estaria satisfeito.

Eu deveria estar satisfeito.

Mas minha concentração parecia ter desaparecido em algum lugar ao longo daquela semana.

Pela terceira vez em menos de dez minutos, percebi que estava lendo a mesma página sem realmente absorver uma única informação.

Apoiei-me na cadeira e fechei os olhos por alguns segundos.

Foi então que um pensamento inconveniente surgiu.

Eu mal tinha visto as crianças durante toda a semana.

A percepção veio acompanhada de uma culpa familiar.

Não porque eu não me importasse com Matteo e Merliah.

Pelo contrário.

Eu os amava mais do que qualquer coisa neste mundo.

O problema era que amar nunca pareceu ser suficiente.

Principalmente quando eu claramente não sabia demonstrar.

Sempre existia uma reunião.

Uma ligação.

Um problema urgente.

Uma assinatura necessária.

E quando finalmente chegava em casa, normalmente os dois já estavam dormindo.

Ou eu estava cansado demais para qualquer coisa além de um banho e algumas horas de sono.

Suspirei novamente.

Ao mesmo tempo, outro pensamento surgiu logo atrás do primeiro.

Eu também quase não tinha visto Cecília.

Franzi a testa imediatamente.

Que diabos era aquilo?

Endireitei-me na cadeira.

A senhorita Cecília era apenas a babá.

Uma funcionária.

Uma jovem que, por algum milagre inexplicável, estava conseguindo sobreviver mais tempo que todas as outras.

Nada além disso.

Absolutamente nada além disso.

Repeti aquilo para mim mesmo enquanto voltava os olhos para o relatório.

Funcionou por aproximadamente trinta segundos.

Então uma gargalhada ecoou do lado de fora.

Uma gargalhada infantil.

Depois outra.

E mais uma.

Ergui os olhos.

Aquilo não era exatamente incomum.

A propriedade estava sempre cheia de funcionários, familiares e visitantes.

Mas havia alguma coisa naquele som que chamou minha atenção.

Talvez porque fazia muito tempo que eu não ouvia Matteo e Merliah rirem daquele jeito.

Sem irritação.

Sem birra.

Sem disputa.

Apenas rindo.

Afastei os documentos para o lado e me levantei.

A janela do escritório dava para boa parte dos jardins da propriedade.

Caminhei até ela sem grandes expectativas.

E então parei.

Completamente imóvel.

Por alguns segundos, simplesmente observei.

Porque não tinha certeza se estava vendo corretamente.

Lá embaixo, próximo ao gramado principal, Matteo e Merliah corriam como dois pequenos furacões.

Os cabelos estavam molhados.

As roupas de banho completamente encharcadas.

As gargalhadas podiam ser ouvidas até dali.

E atrás deles vinha Cecília.

Segurando uma mangueira.

Correndo.

Rindo.

Tentando acertá-los com jatos de água.

Pisquei algumas vezes.

A cena continuou exatamente igual.

Merliah mudou de direção de repente, obrigando Cecília a fazer uma curva brusca para persegui-la.

Matteo aproveitou a distração para correr por trás dela e tomar a mangueira de suas mãos.

Segundos depois, o jogo se inverteu.

Agora era Cecília quem corria.

E os dois quem a perseguiam.

As risadas aumentaram ainda mais.

Cruzei os braços enquanto continuava observando.

Não sabia exatamente o que estava sentindo.

Talvez surpresa.

Talvez incredulidade.

Talvez algo que eu não conseguia identificar.

Porque aquela era uma cena que eu sinceramente acreditava que nunca veria.

Meus filhos estavam brincando.

Brincando de verdade.

Sem armadilhas.

Sem pegadinhas.

Sem tentar expulsar alguém.

Sem planejar algum desastre.

Pela primeira vez desde que Larissa morrera, eu os via simplesmente sendo crianças.

A constatação apertou alguma coisa dentro do meu peito.

Minha memória imediatamente me levou para anos atrás.

Para uma tarde ensolarada muito parecida com aquela.

Larissa caminhava pelos jardins da propriedade com uma das mãos apoiada sobre a barriga já enorme da gravidez, enquanto observava os funcionários trabalhando entre os vinhedos.

Lembro perfeitamente dela sorrindo e dizendo que nossos filhos transformariam aquela fazenda em um verdadeiro caos.

Eu havia respondido que ela estava exagerando.

Larissa riu da minha cara.

Disse que eu não fazia ideia do que duas crianças Moretti seriam capazes de aprontar.

Na época, achei graça.

Hoje sabia que ela estava certa.

Muito certa.

O sorriso desapareceu lentamente enquanto a lembrança se dissipava.

Porque Larissa nunca chegou a conhecer os filhos que tanto sonhou.

Nunca os viu abrir os olhos.

Nunca os ouviu falar as primeiras palavras.

Nunca os viu correr pelos jardins que tanto amava.

Meu olhar voltou para a cena diante da janela.

Lá embaixo, Cecília acabara de ser atingida por um jato de água disparado por Matteo e agora fingia uma indignação tão exagerada que os dois quase rolavam na grama de tanto rir.

Pela primeira vez em muito tempo, eu via meus filhos agindo como crianças da idade deles.

Sem raiva.

Sem provocações.

Sem aquela necessidade constante de testar os limites de todo adulto que se aproximava.

Apenas felizes.

E isso deveria me tranquilizar.

Mas não tranquilizou.

Pelo contrário.

Uma sensação estranha começou a se instalar dentro de mim.

Porque, pela primeira vez desde a morte de Larissa, alguém estava conseguindo atravessar as muralhas que Matteo e Merliah haviam construído ao redor de si mesmos.

Eles estavam começando a confiar nela.

Estavam começando a procurá-la.

A ouvi-la.

E, pior ainda, estavam começando a gostar dela.

Meu maxilar se contraiu involuntariamente.

Cecília era jovem.

Muito jovem.

Tinha apenas vinte e um anos.

Uma vida inteira pela frente.

Mais cedo ou mais tarde juntaria dinheiro suficiente para seguir o próprio caminho.

Encontraria outro emprego.

Outra cidade.

Talvez um marido.

Talvez uma família.

Talvez um futuro que não incluísse uma fazenda isolada na Toscana e duas crianças problemáticas.

Porque, se eu fosse completamente honesto comigo mesmo, nem eu escolheria aquela vida.

Por que ela escolheria?

Meu olhar voltou para ela.

Cecília corria pelo gramado com os cabelos soltos ao vento enquanto tentava alcançar Matteo, que gargalhava como se aquela fosse a melhor tarde de sua vida.

Ela parecia feliz.

Mas felicidade e permanência eram coisas muito diferentes.

E, pela primeira vez desde sua chegada à propriedade, comecei a enxergar um problema que antes não existia.

Se ela fosse embora agora, Matteo e Merliah ficariam irritados.

Provavelmente aprontariam alguma confusão.

Talvez até comemorassem por orgulho.

Mas superariam.

Se ela fosse embora daqui a alguns meses...

Não tinha certeza de que aconteceria o mesmo.

Desviei os olhos da janela e voltei para minha mesa.

O relatório continuava aberto exatamente onde eu o havia deixado.

Os números permaneciam os mesmos.

As projeções também.

Mas minha atenção já não estava mais ali.

Porque uma ideia incômoda continuava martelando no fundo da minha mente.

Talvez o verdadeiro problema não fosse Cecília conseguir permanecer naquela casa.

Talvez o verdadeiro problema fosse o que aconteceria quando ela decidisse partir.

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