A Proposta

Marcello

— Isso ainda me parece uma loucura completa, Gustavo — sussurrei, apoiando os cotovelos na mesa de mogno e pressionando as têmporas com os dedos.

Eu sentia o peso de cada engrenagem do meu plano moer a minha linha de raciocínio. Estávamos na tarde de sexta-feira, o prazo corria contra o meu pescoço, e a pressão nos meus ombros era quase física.

— Vai dar certo, Marcello. Você precisa confiar no processo e, acima de tudo, passar segurança para a Cecília quando ela entrar por aquela porta — Gustavo respondeu, ajeitando uma folha com os termos preliminares do acordo sobre o couro da mesa.

Seu tom era firme, o de um homem que já havia calculado todos os riscos. — Seja o mais natural possível. Não a assuste com o seu habitual tom de general. E lembre-se: amanhã é sábado, o dia da festa da roça na vila. É a oportunidade perfeita, o cenário ideal para você anunciar o noivado para toda a fazenda. Se os funcionários comprarem a história de imediato, o juiz não terá motivos para duvidar depois.

Antes que eu pudesse retrucar ou amaldiçoá-lo por me empurrar para aquele abismo, duas batidas leves e hesitantes ecoaram na madeira escura da porta da biblioteca. Meu coração deu uma batida em falso.

— Entre — ordenei, forçando a minha voz a encontrar o timbre mais firme e comedido possível.

A porta se abriu devagar.

Cecília deu o primeiro passo para dentro do cômodo e, no mesmo instante, vi seus olhos azuis se arregalarem sutilmente ao notar a presença de Gustavo.

Ela parecia pequena naquela sala imensa, vestindo sua calça jeans habitual, mas havia uma dignidade silenciosa na forma como ela se portava que sempre me chamava a atenção.

— Sente-se, por favor, Cecília — pedi, indicando a cadeira estofada diretamente à minha frente. — Este é o Gustavo, meu advogado e grande amigo.

— Muito prazer, Sr. Gustavo — ela cumprimentou. Sua voz carregava um fio de tensão.

Ela se acomodou na ponta do assento, juntando as mãos no colo em um gesto claro de nervosismo.

Seus olhos se voltaram para mim, fixos, desarmados. — O que está acontecendo, Sr. Moretti? Eu... eu vou ser demitida?

A pergunta dela me atingiu como um golpe de culpa.

Olhei para aquela garota de vinte e um anos, que havia entrado na minha vida como um furacão de simplicidade, e soube que o que eu estava prestes a propor era mil vezes pior do que uma demissão.

— Não, Cecília. Fique tranquila, é justamente o contrário — Gustavo interveio rapidamente, abrindo um sorriso amigável para desarmar o ambiente.

Eu deveria ter assumido a palavra naquele momento.

Deveria ter sido o homem de negócios pragmático que Gustavo queria que eu fosse. Mas a verdade é que eu simplesmente travei. Fiquei em silêncio, com os olhos cravados nela, incapaz de desviar o olhar.

Minha mente, de forma traiçoeira, traçou um paralelo com o dia anterior.

Passei a quinta-feira inteira observando Cecília à distância. Eu a vi correr com o Matteo pelo gramado, vi o jeito como ela pacientemente limpava o rosto de Merliah após o almoço e como os dois a buscavam com os olhos a cada cinco minutos, testando limites, mas transbordando um afeto que há anos não se via naquela fazenda.

Era inegável: ela havia construído com meus filhos a aproximação e a intimidade que eu tanto quis evitar para protegê-los.

Olhar para aquela cena me trouxe uma pontada de tristeza profunda, um eco amargo no peito, porque eu sabia que aquele papel de cuidado, de doçura e de presença deveria ter sido de Larissa.

Ao mesmo tempo, uma culpa avassaladora começou a queimar sob a minha pele.

Por mais que eu tentasse negar para mim mesmo, por mais que eu erguesse minhas barreiras de frieza, a atração que eu sentia por Cecília havia se tornado absurda, quase incontrolável, desde o episódio da toalha.

A lembrança dos ombros nus, da pele úmida e do perfume doce de jasmim invadiu a biblioteca, obliterando os papéis jurídicos da minha mesa.

Eu estava olhando fixamente para ela, perdido nos contornos do seu rosto, quando o som áspero de um pigarreio quebrou o feitiço.

Gustavo me encarava com uma sobrancelha erguida, chamando-me de volta à realidade.

Balancei a cabeça de leve, ajeitando a postura e limpando a garganta para afastar os demônios da minha mente.

— Bem... Cecília, eu a chamei aqui porque tenho uma proposta para lhe fazer — comecei, retomando o controle da minha voz, embora sentisse que meus olhos ainda guardavam uma intensidade perigosa. — Mas, antes de entrarmos nos detalhes, eu preciso saber quais são as suas reais expectativas quanto ao seu emprego de babá aqui na fazenda. Onde você planeja estar no futuro?

Ela franziu a testa, visivelmente confusa com o rumo do interrogatório, mas sustentou o olhar.

— Bom... como eu já havia dito ao senhor quando fui contratada, eu saí do orfanato com um encaminhamento direto para o convento das freiras — ela explicou, soltando as mãos e gesticulando com uma leveza que me distraía. — Mas eu sempre senti no meu coração que precisava e podia fazer mais da minha vida do que ficar presa em um único lugar para sempre. Por isso, quando vi o anúncio da vaga colado no mural da lanchonete da rodoviária, senti que precisava arriscar. E quando cheguei na fazenda... bom, foi bem diferente de tudo o que eu pudesse ter imaginado na vida.

Um riso espontâneo e genuíno brotou nos lábios dela, iluminando suas feições de uma forma que apertou o meu peito.

— Para falar a verdade, eu pensei em desistir algumas vezes. Principalmente na vez do sapo... e do balde de farinha em cima da porta — ela completou, rindo da própria memória.

Antes que eu pudesse conter a situação, Gustavo se inclinou para a frente, com os olhos brilhando de puro divertimento.

— Espere um pouco... você disse um sapo? Ele estava dentro do balde de farinha? — o meu advogado perguntou, rindo com uma facilidade que começou a me incomodar.

— Não, não! — Cecília respondeu, rindo junto com ele, o nervosismo desaparecendo do seu rosto enquanto interagia com o meu amigo. — Foram travessuras totalmente diferentes! O sapo foi no terceiro dia. E a farinha... bem, mesmo depois de quase dois meses, eu ainda encontro vestígios de farinha em alguns cantos do meu quarto. Eles são terríveis quando querem.

Gustavo soltou uma gargalhada alta, recostando-se na poltrona e balançando a cabeça, complementando sobre a criatividade sem limites dos gêmeos.

Eu assisti àquela cena em silêncio absoluto.

Meu semblante fechou drasticamente, tornando-se uma máscara de gelo.

Olhar para Cecília sorrindo daquele jeito para o Gustavo, ver a leveza com que ela conversava com ele, fez uma pontada nítida, quente e cortante de ciúmes crescer no meu peito.

Eu detestei aquela cumplicidade instantânea. Detestei o fato de não ser eu o motivo daquele riso.

Bati a caneta com força contra o topo da escrivaninha, o estalo seco cortando a graça no mesmo segundo. Gustavo se calou e pigarreou, ajeitando a gravata, enquanto Cecília recolheu o sorriso, olhando-me com sobressalto.

— Podemos voltar ao foco da conversa, por favor? — perguntei, o tom gélido e autoritário ricocheteando nas paredes da biblioteca. Fixei meus olhos severos nela. — Continue, Cecília. Suas expectativas.

Ela engoliu em seco, endireitando a postura na cadeira.

— O que eu quero dizer, Sr. Moretti, é que... apesar de ter pensado em ir embora no começo, hoje isso não é algo que passa pela minha cabeça. Nem de longe. Eu me apeguei de verdade ao Matteo e à Merliah, e todo mundo na fazenda me trata muito bem. Eu me sinto em casa aqui. Mas... eu não quero ser babá para sempre. Eu tenho o sonho de estudar, de ter uma profissão de verdade algum dia. Só que, sendo órfã e sem recursos, eu sei que preciso dar um passo de cada vez.

Ouvi cada palavra em silêncio, sentindo o peso do caráter daquela garota esmagar os meus escrúpulos. Ela queria uma chance. Queria um futuro.

Desviei o olhar dela por um segundo e troquei um vislumbre rápido e significativo com Gustavo.

O advogado assentiu levemente com a cabeça, um sinal silencioso de que a resposta dela havia acabado de nos dar a chave perfeita para o que precisávamos. Eu tinha o dinheiro, o recurso e a necessidade; ela tinha os sonhos e o amor dos meus filhos.

Era hora de colocar as cartas na mesa e destruir a inocência do futuro que Cecília havia planejado para si mesma.

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