Decisões Erradas

Marcello

Eu deveria ter simplesmente voltado para o escritório.

Era isso que uma pessoa sensata faria.

Fechar a cortina, ignorar as gargalhadas vindas do jardim e retornar aos relatórios que ainda ocupavam metade da minha mesa.

Mas a imagem continuava presa na minha cabeça.

Matteo correndo.

Merliah rindo.

Cecília brincando com os dois como se os conhecesse havia anos.

Aquilo me incomodava mais do que deveria.

Passei quase quinze minutos tentando me convencer de que não era problema meu. Cecília estava fazendo o trabalho dela. As crianças pareciam felizes. Nenhuma tragédia havia acontecido.

Mesmo assim, uma sensação desagradável continuava crescendo dentro de mim.

Porque eu sabia exatamente como aquilo terminava.

As pessoas sempre iam embora.

Sempre.

Algumas demoravam dias.

Outras semanas.

Algumas meses.

Mas todas acabavam partindo.

E, quanto mais os gêmeos se apegassem, maior seria o estrago quando isso acontecesse.

Antes que eu percebesse, já estava atravessando o corredor.

Desci as escadas em passos rápidos e segui para o jardim.

As gargalhadas ficaram mais altas conforme me aproximava.

Quando dobrei a esquina da varanda, encontrei exatamente a cena que imaginava.

Matteo segurava a mangueira.

Merliah corria pelo gramado.

Cecília estava completamente molhada enquanto fingia perseguir os dois.

Os três pareciam tão entretidos que demoraram alguns segundos para perceber minha presença.

— Chega.

Minha voz saiu mais firme do que eu pretendia.

Os três pararam imediatamente.

Matteo foi o primeiro a me olhar.

Depois Merliah.

Por último, Cecília.

A alegria que havia em seu rosto desapareceu quase no mesmo instante.

— Subam e vão se trocar para o jantar — ordenei.

Os gêmeos trocaram um olhar confuso.

— Mas nós estávamos...

— Agora.

Meu tom não deixou espaço para discussão.

Os dois obedeceram.

Para minha surpresa, Cecília também começou a se afastar.

— Senhorita Cecília, você fica.

Ela parou imediatamente.

Vi seus ombros enrijecerem.

Matteo e Merliah também diminuíram o passo.

— Continuem andando — falei sem desviar os olhos dela.

Relutantes, eles entraram na casa.

Assim que desapareceram pela porta, o silêncio tomou conta do jardim.

Durante alguns segundos, nenhum de nós falou.

A água ainda escorria da ponta da mangueira abandonada na grama.

O vento balançava as árvores ao redor.

E eu começava a me arrepender da conversa antes mesmo de iniciá-la.

Ainda assim, prossegui.

— Eu preciso que algumas coisas fiquem claras.

Ela permaneceu em silêncio.

Esperando.

— Você foi contratada para ser babá dos meus filhos.

— Sim, senhor.

— Seu trabalho é cuidar deles, supervisioná-los e garantir que estejam seguros.

Ela assentiu.

— Eu sei quais são minhas funções.

Respirei fundo.

— Então também deve saber que não foi contratada para se tornar amiga deles.

Pela primeira vez, vi algo mudar em sua expressão.

Foi rápido.

Quase imperceptível.

Mas aconteceu.

— Entendo.

Aquilo deveria ter encerrado o assunto.

Mas eu continuei.

— Não quero que situações como essa se repitam.

— Situações como quais?

— Você se envolvendo tanto.

A pergunta saiu antes que eu pudesse evitar.

— Envolvendo?

— Correndo, brincando, participando como se fosse uma das crianças.

O olhar dela permaneceu fixo no meu.

Calmo.

Educado.

Mas distante.

— Eu achei que eles estavam se divertindo.

— Eles estavam.

— Então não compreendo o problema.

Eu compreendia.

Compreendia perfeitamente.

Mas não tinha intenção de explicar.

— O problema é que você é uma funcionária.

Aquelas palavras soaram piores quando ditas em voz alta.

Mesmo assim continuei.

— Pode organizar atividades.

Pode acompanhá-los.

Pode supervisioná-los.

Mas não precisa se envolver dessa forma.

Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois assentiu.

— Certo.

A facilidade da resposta me incomodou.

— Certo?

— Sim, senhor.

Aquele tom educado era quase pior que uma discussão.

— E há mais uma coisa.

Ela aguardou.

— A partir de hoje você fará suas refeições na cozinha com a Nonna.

Vi seus olhos piscarem.

Apenas uma vez.

Mas foi suficiente.

Porque, pela primeira vez desde que a conheci, percebi que realmente a havia atingido.

— Entendi.

— Não é nada pessoal.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Educado.

Daqueles que as pessoas usam quando não desejam mostrar o que realmente estão sentindo.

— Claro que não.

Por algum motivo, aquilo me deixou ainda mais desconfortável.

— Pode ir se trocar.

— Sim, senhor.

Ela virou-se imediatamente.

Sem discutir.

Sem reclamar.

Sem sequer olhar para trás.

Observei sua figura desaparecer pela porta da casa e senti um peso estranho se instalar no meu peito.

Mas já era tarde demais para voltar atrás.

---

Subi para meu escritório logo em seguida.

Ou pelo menos tentei.

Quando alcancei o corredor principal, encontrei minha mãe parada perto da escadaria.

Clarice estava me observando.

Não disse uma única palavra.

Também não precisava.

A expressão em seu rosto dizia tudo.

Desaprovação.

Pura e simples.

Passei por ela sem diminuir o passo.

— Marcello...

Ignorei.

Continuei caminhando.

— Marcello.

Ainda assim não respondi.

Abri a porta do escritório.

Entrei.

E a fechei atrás de mim.

Com força suficiente para encerrar qualquer conversa.

---

Quando o horário do jantar chegou, desci para a sala de refeições.

Meu pai já estava sentado.

Minha mãe também.

Os gêmeos ocupavam seus lugares habituais.

Mas uma cadeira estava vazia.

A cadeira que Cecília costumava usar.

Mal me sentei e Matteo falou.

— Onde está a Cecília?

Peguei meu guardanapo.

— Jantando.

— Então por que ela não está aqui?

Olhei para ele.

— Porque ela está na cozinha.

O silêncio foi imediato.

Merliah franziu a testa.

— Na cozinha?

— Sim.

— Mas ela sempre janta aqui.

— Não mais.

Os dois trocaram olhares.

Foi Matteo quem voltou a falar.

— Por quê?

Respirei fundo.

— Porque ela é uma funcionária.

A expressão dos dois mudou imediatamente.

— Mas ela é nossa babá — respondeu Merliah.

— Exatamente.

— Então ela precisa ficar perto da gente.

Minha mãe resolveu entrar na conversa.

— Vocês estão começando a gostar da Cecília?

— Claro que não! — respondeu Merliah depressa demais.

Matteo concordou com a cabeça.

— Não estamos.

— Só que ela é nossa babá — completou a menina.

— E babás ficam perto das crianças.

Meu pai abaixou os olhos para esconder um sorriso.

Minha mãe fez o mesmo.

Eu não achei graça.

— O assunto está encerrado.

Os dois ficaram quietos.

Mas claramente contrariados.

Apoiei os talheres sobre a mesa.

— Depois do jantar vocês irão direto para o quarto.

— Mas...

— Amanhã é sexta-feira.

Os dois me encararam.

— E vocês têm aula de equitação pela manhã.

Nenhum deles respondeu.

O ultimato havia sido dado.

O restante da refeição seguiu em silêncio.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, eu tive a desagradável sensação de que talvez tivesse acabado de criar um problema muito maior do que aquele que pretendia resolver.

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