Acordo Fechado

Cecília

Acordei naquela manhã com uma estranha sensação de paz.

Talvez fosse porque, pela primeira vez desde que havia chegado à propriedade Moretti, eu não tinha sido despertada por um sapo, um balde ou qualquer outra invenção criativa dos gêmeos. Talvez fosse porque, apesar de todas as dificuldades dos últimos dias, eu começava a me sentir menos uma intrusa naquela casa.

Ainda estava sentada na cama, organizando mentalmente tudo o que precisaria fazer ao longo do dia, quando ouvi algumas batidas suaves na porta.

— Entre.

A maçaneta girou e Clarice surgiu do outro lado carregando uma mala grande de couro marrom.

Uma mala tão grande que precisei me levantar imediatamente para ajudá-la.

— Meu Deus, dona Clarice, o que é isso?

Ela entrou sorrindo daquele jeito acolhedor que sempre parecia aquecer qualquer ambiente.

— Um presente.

Parei ao lado da cama enquanto ela apoiava a mala sobre o colchão.

— Para mim?

— Para você.

Meu sorriso desapareceu no instante em que ela abriu o zíper.

O interior estava completamente preenchido por roupas.

Vestidos.

Blusas.

Casacos.

Saias.

Peças cuidadosamente dobradas e conservadas com um carinho evidente.

Demorei apenas alguns segundos para compreender.

— São da Larissa.

Clarice assentiu lentamente.

Por um momento fiquei sem palavras.

Não era apenas uma mala de roupas.

Era uma parte da vida daquela mulher.

Uma parte da história daquela família.

— Eu não posso aceitar isso.

— Pode sim.

— Não, realmente não posso.

Clarice cruzou os braços.

— Pode e vai.

— Dona Clarice...

— Cecília.

O tom firme dela me fez interromper a frase.

— Essas roupas estão guardadas há anos. Algumas sequer chegaram a ser usadas. Outras foram usadas uma única vez. Elas estão ocupando espaço em armários enquanto poderiam estar sendo aproveitadas por alguém.

Passei os dedos pela alça da mala.

— Mesmo assim...

— Sem discussão.

— O senhor Moretti talvez não goste.

Um sorriso divertido apareceu em seus lábios.

— Meu filho já teve a oportunidade de dar sua opinião.

Ergui uma sobrancelha.

— E?

— Digamos que tivemos uma conversa bastante esclarecedora.

Não consegui evitar uma pequena risada.

— Isso me preocupa.

— Não deveria.

Ela se aproximou e segurou minhas mãos.

— Larissa era uma jovem generosa. Se estivesse aqui, seria a primeira pessoa a insistir para que você aceitasse.

Baixei os olhos para a mala novamente.

A verdade era que eu nunca tivera tantas roupas em toda a minha vida.

No orfanato, cada peça era usada até praticamente se desfazer.

Ter um guarda-roupa inteiro disponível parecia quase um luxo absurdo.

— Obrigada.

A expressão de Clarice suavizou imediatamente.

— Não precisa agradecer.

Precisava, sim.

Mas ela parecia determinada a não aceitar qualquer argumento.

Poucos minutos depois, ela deixou o quarto, fechando a porta atrás de si e me deixando sozinha com a mala aberta sobre a cama.

Durante alguns instantes permaneci apenas observando aquelas roupas.

Era impossível não pensar em Larissa.

Na mulher que eu nunca conheci.

Na esposa que Marcello ainda carregava dentro do coração.

Na mãe que Matteo e Merliah jamais tiveram a oportunidade de lembrar.

Suspirei.

Talvez eu estivesse pensando demais.

Decidi experimentar algumas peças.

E então veio outra surpresa.

Todas serviram perfeitamente.

Absolutamente todas.

Como se tivessem sido feitas sob medida para mim.

Aquilo era quase assustador.

Depois de experimentar vários vestidos, escolhi algo mais simples para o dia.

Uma calça jeans confortável.

Uma blusa florida delicada.

E um par de sapatilhas que combinavam perfeitamente com o conjunto.

Quando me observei no espelho, tive a estranha sensação de estar vendo uma versão diferente de mim mesma.

Mais leve.

Mais confiante.

Mais pertencente àquele lugar.

Afastei o pensamento rapidamente.

Ainda havia uma missão importante pela frente.

Acordar os gêmeos.

E aquilo exigia coragem.

---

O corredor do segundo andar estava silencioso quando caminhei até o quarto das crianças.

Abri a porta com cuidado.

Primeiro apenas uma fresta.

Depois um pouco mais.

Por fim entrei.

O quarto ainda estava mergulhado em uma penumbra confortável.

Matteo e Merliah dormiam profundamente.

Os dois pareciam exaustos.

E eu sabia exatamente o motivo.

Sorri sozinha.

Provavelmente haviam passado boa parte da noite esperando uma vingança que nunca aconteceu.

Aproximei-me da cama de Matteo.

— Bom dia.

Nenhuma resposta.

— Hora de acordar.

Um resmungo incompreensível surgiu debaixo das cobertas.

Caminhei até Merliah.

— Bom dia, princesa.

Ela enterrou ainda mais o rosto no travesseiro.

— Não.

— Não o quê?

— Não quero acordar.

Voltei para o irmão.

— Matteo.

— Estou dormindo.

— Isso é impressionante.

— O quê?

— Você responder enquanto dorme.

Um olho azul apareceu por entre as cobertas.

— Estou com sono.

— Percebi.

Ele sentou na cama com expressão irritada.

— A culpa é sua.

— Minha?

— Sim.

— O que eu fiz?

— Nada!

Aquilo me arrancou uma risada.

— Esse é exatamente o problema.

Merliah soltou um suspiro dramático.

— Eu também estou com sono.

— Então vocês dois passaram a noite acordados?

Os irmãos trocaram um olhar rápido.

— Não.

— Claro que não.

— Entendi.

— Você não entende nada — reclamou Matteo.

Apoiei as mãos na cintura.

— Certo. Então tenho uma proposta.

Os dois ficaram alertas imediatamente.

Como pequenos animais farejando uma oportunidade.

— Que proposta? — perguntou Merliah.

— Depende.

— Depende do quê? — Matteo questionou.

— De vocês ouvirem até o final.

Os dois ficaram em silêncio.

Aquilo por si só já era uma vitória.

— Hoje vocês têm aula.

Os rostos deles se fecharam imediatamente.

— Que horror — murmurou Matteo.

— Concordo — disse Merliah.

— Mas se forem para a aula sem reclamar, sem fugir e sem transformar a vida da professora em um pesadelo...

Os dois prestavam atenção agora.

Muita atenção.

— Depois do almoço nós três podemos fazer qualquer brincadeira que vocês escolherem.

Os olhos de Matteo se arregalaram.

— Qualquer uma?

— Desde que não machuque ninguém.

— Ninguém mesmo?

— Ninguém.

Merliah sentou-se na cama.

— Nem você?

— Nem eu.

Os dois se entreolharam.

A expressão deles era tão séria que parecia uma reunião de negócios.

— O que você acha? — Matteo perguntou à irmã.

— Acho suspeito.

— Também acho.

— Muito suspeito.

— Extremamente suspeito.

Cruzei os braços enquanto observava a negociação.

Por fim, Matteo estendeu a mão para mim.

— Fechado.

Apertei sua mão.

— Fechado.

Merliah também estendeu a dela.

— Fechado.

Poucos segundos depois, os dois saltaram das camas.

A transformação foi tão repentina que precisei rir.

— Vamos logo! — gritou Matteo correndo para o banheiro.

— Eu vou escolher minha roupa primeiro! — respondeu Merliah.

— Eu cheguei primeiro!

— Mentira!

Enquanto a discussão recomeçava com força total, encostei-me discretamente na parede observando a cena.

Talvez eu estivesse me enganando.

Talvez eles continuassem planejando novas armadilhas.

Talvez aquele acordo terminasse em desastre.

Mas, pela primeira vez desde que cheguei à propriedade Moretti, os dois haviam aceitado fazer algo porque eu pedi.

E, considerando quem eram Matteo e Merliah Moretti, aquilo já parecia um pequeno milagre.

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