Mini Padeiros

Cecília

Eu deveria ter desconfiado no instante em que Matteo e Merliah obedeceram.

Depois de passar a tarde inteira com eles pela fazenda, voltamos para a casa principal pouco antes do jantar. Eu estava cansada, mas satisfeita por ter conseguido atravessar mais um dia sem que nenhuma catástrofe acontecesse.

Ou pelo menos era o que eu pensava.

Assim que entramos, retirei as botas e sorri para os dois.

— Banho antes do jantar.

Normalmente aquilo era o suficiente para iniciar uma discussão interminável.

Matteo sempre encontrava uma desculpa para adiar o banho.

Merliah costumava negociar como uma advogada experiente.

Mas daquela vez não.

— Tudo bem — respondeu Matteo.

— Eu vou pegar minha toalha — disse Merliah.

Eu pisquei.

— Só isso?

— Só isso — respondeu ela.

Estranho.

Muito estranho.

Subi atrás deles com uma sensação incômoda se formando no fundo da minha mente. Quando chegamos ao quarto das crianças, encontrei os dois surpreendentemente organizados.

Separei as roupas limpas sobre as camas e observei cada um deles.

— Precisam de ajuda?

— Não — respondeu Matteo imediatamente.

— Nós conseguimos sozinhos — completou Merliah.

Aquela cooperação excessiva me deixou ainda mais desconfiada.

Mesmo assim, resolvi não insistir.

— Certo. Vou tomar meu banho então.

Os dois sorriram.

Sorrisos inocentes demais.

E eu deveria ter entendido naquele momento.

Deveria mesmo.

Segui para o meu quarto, tomei um banho longo e relaxante e deixei a água quente aliviar o cansaço acumulado do dia. Por alguns minutos aproveitei o silêncio absoluto da casa e quase me convenci de que minha desconfiança era exagero.

Quando terminei, enrolei a toalha no corpo e abri a porta do banheiro.

No segundo seguinte fui atingida.

Um objeto caiu diretamente sobre mim.

O impacto me fez dar um passo para trás.

Uma nuvem branca explodiu pelo quarto.

Farinha.

Muita farinha.

Farinha nos cabelos.

No rosto.

Nos ombros.

No chão.

Na cama.

Por toda parte.

— AHHH!

Meu grito ecoou pela casa inteira.

Ao mesmo tempo ouvi gargalhadas vindas do corredor.

Gargalhadas infantis.

Inconfundíveis.

Levantei os olhos justamente a tempo de ver Matteo e Merliah correndo pelo corredor enquanto riam como se tivessem acabado de realizar a maior façanha da história.

— Vocês dois!

Mal terminei a frase quando ouvi passos rápidos subindo as escadas.

Marcello apareceu na porta do quarto.

Ele entrou correndo.

Primeiro olhou para o corredor.

Depois para mim.

Então congelou.

Eu estava completamente coberta de farinha.

Parecia um fantasma.

Ou uma massa de pão prestes a ser colocada no forno.

A expressão dele passou da preocupação para a incredulidade em poucos segundos.

— O que aconteceu aqui?

— Acho que fui atacada por padeiros profissionais.

— Matteo e Merliah!

Ele já estava se virando para sair quando estendi a mão.

— Espera.

Marcello parou.

— O quê?

— Antes de dar bronca neles, você pode me ajudar?

Ele suspirou profundamente e voltou.

— Você está machucada?

— Só assustada.

— Cecília...

— E talvez com um pouco de farinha entrando no meu nariz.

Aquilo arrancou dele um olhar que misturava preocupação e impaciência.

Marcello se aproximou e estendeu a mão para mim.

Quando tentou me ajudar a levantar, nossos pés deslizaram na farinha espalhada pelo chão.

— Cuidado!

Instintivamente me agarrei aos ombros dele.

Ao mesmo tempo ele segurou minha cintura.

Por um segundo os dois quase fomos ao chão.

Conseguimos recuperar o equilíbrio por muito pouco.

Meu coração disparou.

Mas então meus olhos encontraram o espelho da penteadeira.

E eu vi meu reflexo.

Completamente branco.

Os cabelos pareciam ter envelhecido cinquenta anos.

Meu rosto estava irreconhecível.

Parecia uma personagem de desenho animado.

A gargalhada escapou antes que eu pudesse impedir.

Depois veio outra.

E outra.

Quando percebi, estava rindo sem conseguir parar.

Marcello me encarava como se eu tivesse perdido completamente a razão.

— Você bateu a cabeça?

— Não consigo parar de rir.

— Estou vendo.

— Você precisava ver sua cara.

— Eu estou preocupado.

— E eu pareço um saco de farinha ambulante.

A seriedade dele tornou tudo ainda mais engraçado.

Marcello passou a mão pelos cabelos.

— O balde acertou você?

— No pé.

— Está doendo?

— Já passou.

Ele continuou me observando por alguns segundos para ter certeza de que eu estava falando a verdade.

Depois voltou a fechar a expressão.

— Agora eu realmente vou conversar com eles.

— Não.

— Cecília...

— Não brigue com os dois.

— Eles armaram uma emboscada.

— Eu sei.

— Então por que está defendendo essas crianças?

Sorri.

— Porque eu vou resolver isso do meu jeito.

Marcello cruzou os braços.

— Você não precisa aceitar tudo para manter seu emprego.

Aquilo me fez erguer uma sobrancelha.

— Eu não estou aceitando.

— Não parece.

— Confia em mim.

— Isso nunca termina bem.

— Para quem?

Ele estreitou os olhos.

Eu apenas sorri.

Depois de alguns segundos, Marcello balançou a cabeça.

— Certo.

— Certo.

— Mas não faço ideia do que você está planejando.

— Essa é exatamente a intenção.

O jantar transcorreu de forma surpreendentemente tranquila.

Ou pelo menos foi isso que Matteo e Merliah acreditaram.

Os dois trocaram olhares cúmplices durante toda a refeição, claramente satisfeitos com o sucesso da armadilha que haviam preparado para mim. Em alguns momentos, eu os pegava me observando discretamente, provavelmente esperando encontrar qualquer sinal de irritação ou desejo de vingança.

Não encontraram.

Conversei com Clarice e Giuseppe, respondi às perguntas sobre Livorno, elogiei o jantar preparado por Nonna Teresa e me comportei exatamente como alguém que havia tido um dia perfeitamente normal.

O que parecia deixá-los cada vez mais desconfiados.

Quando a refeição terminou, Marcello se levantou da mesa e anunciou que já era hora de dormir. Os gêmeos protestaram apenas por obrigação, mas acabaram obedecendo depois de alguns minutos.

Eu permaneci sentada por mais algum tempo, terminando minha xícara de chá enquanto observava a movimentação tranquila da casa.

Exatamente sete minutos depois, um grito indignado ecoou pelo andar superior.

Um grito infantil.

Muito alto.

Muito dramático.

E completamente esperado.

Precisei abaixar a cabeça para esconder o sorriso.

Clarice começou a rir antes mesmo de descobrir o motivo.

Segundos depois, Matteo surgiu no topo da escada parecendo uma tempestade prestes a desabar.

— TEM UM PEIXE NA MINHA CAMA!

A gargalhada de Clarice ecoou pela sala.

Giuseppe precisou tirar os óculos para enxugar os olhos enquanto tentava inutilmente manter a compostura.

Merliah apareceu logo atrás do irmão e, pela expressão dela, parecia dividida entre a indignação e a vontade de rir da desgraça alheia.

— Eu sabia! — Matteo apontou diretamente para mim. — Foi ela!

Levei uma das mãos ao peito.

— Eu?

— Foi você!

— Tem certeza?

— Tenho!

— Então imagino que tenha provas.

Matteo abriu a boca.

Fechou.

Abriu novamente.

E não conseguiu responder.

O que apenas fez Clarice rir ainda mais.

Pouco depois, os dois voltaram para o andar de cima acompanhados pelos avós, ainda discutindo sobre o misterioso peixe invasor.

Eu terminei meu chá tranquilamente e me despedi de todos antes de subir para o meu quarto.

Já estava me preparando para dormir quando ouvi batidas discretas na porta.

— Entre.

A porta se abriu e Marcello apareceu.

Dessa vez sem a expressão severa habitual.

Na verdade, parecia estar lutando contra um sorriso.

— Então foi você.

Sorri inocentemente.

— Não sei do que está falando.

— Claro que não.

Ele entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

— Matteo está convencido de que você escondeu um peixe na cama dele.

— Convencido não significa certo.

— Cecília.

— Marcello.

Ele soltou um suspiro resignado.

— O peixe foi ideia sua.

— Talvez.

— Você realmente pretende responder a todas as pegadinhas deles?

— Não.

Aquilo pareceu surpreendê-lo.

— Não?

Balancei a cabeça.

— Se eu responder a todas, vou acabar me tornando tão infantil quanto eles.

— Então qual era o objetivo?

Caminhei até a janela e observei as luzes espalhadas pela propriedade.

— Mostrar que existem consequências.

— Um peixe cru?

— Não.

Virei-me para encará-lo.

— O peixe foi apenas a parte visível.

Marcello franziu a testa.

— Explique.

Meu sorriso aumentou.

— Neste exato momento, seus filhos estão procurando armadilhas debaixo da cama, dentro do armário, atrás das cortinas e provavelmente até dentro do banheiro.

A compreensão surgiu lentamente em seu rosto.

— Você não queria assustá-los com o peixe.

— Eu queria deixá-los imaginando o que vem depois.

Pela primeira vez, Marcello realmente riu.

Uma risada baixa, breve e sincera.

E, inesperadamente, bonita.

— Isso é perverso.

— Não.

— Não?

— Estratégico.

Ele balançou a cabeça.

— Agora entendo por que você sobreviveu mais do que as outras.

— Eu sobrevivi uma semana.

— Já é um recorde.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Então ele me observou com uma expressão curiosa.

— Sabe, eu realmente achei que você fosse embora no primeiro dia.

— Muita gente já pensou isso sobre mim.

— E estavam errados?

Sorri.

— Normalmente.

Os olhos escuros dele permaneceram nos meus por tempo suficiente para que eu sentisse meu coração acelerar de forma inconveniente.

Foi Marcello quem desviou o olhar primeiro.

— Bem... boa noite, senhorita Cecília.

— Boa noite, senhor Moretti.

Quando ele saiu e fechou a porta atrás de si, caminhei até a cama e me sentei lentamente.

No corredor, o silêncio indicava que os gêmeos provavelmente ainda estavam ocupados procurando uma vingança que não existia.

E, pela primeira vez desde que cheguei à propriedade Moretti, tive a sensação de que talvez não fossem apenas Matteo e Merliah que eu estava começando a entender.

Talvez eu estivesse começando a entender o pai deles também.

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