Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucia Navas acreditava que já tinha perdido tudo. Sua mãe está morrendo, as dívidas médicas aumentam a cada dia e o desespero a leva a tomar uma decisão impossível: tornar-se barriga de aluguel do poderoso bilionário Adrián Valcor e de sua esposa, Claudia. O que deveria ser apenas um acordo transforma-se em algo muito maior quando Lucia descobre que está grávida de trigêmeos. Pela primeira vez em muitos anos, a esperança volta à família Valcor. Mas o destino tem outros planos. Na mesma noite em que Lucia entra em trabalho de parto, sua mãe morre... e Claudia perde a vida em um trágico acidente. Consumido pela dor, Adrián rejeita os bebês recém-nascidos e abandona qualquer vínculo com eles. Sozinha, com três crianças para criar e o coração em pedaços, Lucia descobre um segredo que sua mãe guardou por toda a vida: seu verdadeiro pai é Alessandro De Rossi, um poderoso magnata italiano do vinho que passou décadas acreditando ter perdido a esposa e a filha para sempre. Determinada a construir um futuro para seus filhos, Lucia viaja para a Sicília em busca do pai que nunca conheceu. Mas o passado está longe de terminar. Quando Adrián descobre a verdade sobre os filhos que abandonou, fará de tudo para recuperar a família que deixou para trás. Uma emocionante história de amor repleta de segredos, reencontros, segundas chances e três pequenos milagres capazes de transformar vidas para sempre.
Ler maisPOV LUCIA.
O monitor registava o batimento irregular do coração da minha mãe, um bipe intermitente que já não me abalava. Já o tinha ouvido tantas vezes que se fundia com o ar estéril do hospital, tal como a sua voz rouca quando ergueu os olhos para mim.
—Pensei que hoje não viesses —disse ela, com um esforço.
—Claro que venho.
Ajeitei-lhe o cobertor com movimentos práticos, sem fingir ternura. Não me saía, e ela sabia disso melhor do que ninguém.
—Estás pior do que eu —murmurou ela, tentando um sorriso que se desfez a meio caminho.
—Não digas disparates — respondi, sem desviar o olhar das suas mãos finas, agarradas ao lençol como se temessem soltar-se.
Ela não insistiu. Eu também não. Falar era um luxo que nenhuma de nós podia permitir-se; gastava forças que escasseavam.
A conta do hospital crescia como uma sombra inevitável. Não precisava de ver os números para sentir o seu peso: no tom cortante das enfermeiras, nos olhares evasivos dos médicos, na forma como a minha mãe se desculpava até pelo ar que respirava. Era uma dívida que a mataria antes da doença, se eu não fizesse alguma coisa.
Voltei a pé para o apartamento sem pensar em nada, ou pelo menos tentando. Assim que fechei a porta, o silêncio atingiu-me como uma repreensão. Liguei o computador; um novo e-mail do trabalho piscava na bandeja de entrada.
«Amanhã: entrevistas para o programa de barriga de aluguer. Você receberá as candidatas. Estarão presentes ADRIÁN e CLAUDIA Valcor.»
Não devia ter-me surpreendido. Há semanas que ouvia rumores sobre isso nos corredores da Valcor Enterprises. O casal Valcor já tinha tentado tudo: tratamentos, adoções falhadas. Agora procuravam uma barriga de aluguer. O dinheiro não era um obstáculo para eles. Nunca era.
Para mim, era.
Abri o ficheiro com as dívidas médicas. O total tinha disparado novamente, um número a vermelho que me queimava os olhos. Fechei a aba antes que as mãos começassem a tremer.
O pagamento que ofereciam pela barriga de aluguer era suficiente para apagar tudo. Tinha-o visto de relance num rascunho de contrato enquanto preparava documentos. Suficiente para tratamentos, reabilitação, até mesmo para um respiro. Não pensei nisso mais do que três segundos. Ou pelo menos foi o que tentei.
Mas a ideia ficou gravada, como uma lasca.
Cheguei cedo no dia seguinte. A sala de entrevistas era fria e simétrica, como tudo na Valcor Enterprises: paredes de vidro imaculado, mobiliário minimalista que gritava poder. Coloquei pastas, garrafas de água, canetas alinhadas. Revi a lista de candidatas. Não tive tempo para mais nada.
Claudia Valcor entrou primeiro, os seus saltos a marcar um ritmo preciso contra o chão polido.
—Obrigada, Lucia. Precisávamos que estivesse pronto hoje —disse ela, a examinar a sala como se procurasse falhas na perfeição.
—Está tudo pronto — respondi, impassível.
Ela acenou com a cabeça, mas não sorriu. Ultimamente, os seus lábios eram uma linha tensa, marcada por anos de desilusões.
Adrián chegou atrás dela, alto e imponente, com aquele olhar que avaliava, dissecava e descartava num piscar de olhos.
Houve um segundo — apenas um, estúpido — em que o notei de outra forma. Não como o chefe. Como um homem que enchia uma sala sem se dar conta. Guardei-o na pasta dos pensamentos que não existem e voltei a ser a assistente.
—Pontuais? —perguntou ele, sem rodeios.
—Já estão no corredor —confirmei.
—Perfeito. Não quero perder tempo.
Claudia virou-se ligeiramente para ele.
—Também não queremos tratar isto como um trâmite frio.
—É um processo —corrigiu ele, sem olhar para ela—. Não um luto interminável.
Ela inspirou profundamente, um suspiro que ele ignorou. Eu não. Vi a dor nos seus olhos, o abismo entre eles que crescia a cada tentativa falhada.
A primeira candidata entrou: uma mulher robusta, com um olhar tenso e ombros largos, moldados pela vida.
—Tenho dois filhos —disse ela, antes que lhe perguntassem, como se isso a definisse.
Adrián examinou os seus papéis com frieza.
—Motivo?
—Dívidas. Preciso de recomeçar.
—Compreendo —disse ele, embora fosse óbvio que não. Adrián Valcor nunca tinha tocado fundo.
Claudia observou-a com uma mistura de empatia e desconfiança.
—Tem a certeza? Isto é difícil, física e emocionalmente.
A mulher ergueu o queixo, desafiadora.
—Mais difícil é vê-los passar fome.
Adrián fechou a pasta com um estalido.
—A seguir.
Não houve despedidas. Apenas a porta a fechar-se atrás dela.
A segunda era jovem, demasiado jovem, com as mãos entrelaçadas e uma determinação febril nos olhos.
—Estou pronta —afirmou ela, como um mantra.
—A pergunta não é essa —replicou Adrián sem levantar os olhos—. É se vais aguentar os nove meses, as consultas, a dedicação.
—Sim.
—Ótimo. Se mentires, vamos saber. Há cláusulas para isso.
Claudia interveio, com voz suave mas firme:
—Chega, Adrián. Não estamos a interrogar criminosos.
—Estamos a escolher quem vai ter o nosso filho —contra-atacou ele—. Não tenciono errar outra vez.
A rapariga engoliu em seco, visivelmente. Senti o nó na minha própria garganta, como se fosse meu.
Enquanto eles discutiam, algo crescia dentro de mim. Não um impulso romântico, não um sonho heróico. Um cálculo frio. As mulheres que entravam tinham razões reais, vidas destruídas que eu conseguia compreender, embora as minhas fossem diferentes. Mas nenhuma tinha uma mãe ligada a um monitor, com uma conta que a sufocava mais do que o cancro.
Quando fiquei sozinha por alguns minutos, fui buscar mais formulários. Toquei no papel; estava frio, impessoal.
Podia ser eu.
Não queria pensar nisso. Mas era verdade: saudável, sem filhos, disponível. E desesperada.
Guardei um formulário em branco na minha bolsa, sem saber se era coragem, estupidez ou pura loucura. Ou tudo ao mesmo tempo.
Passei pelo hospital no final do dia. A minha mãe dormia, o peito a subir e a descer com esforço. Sentei-me ao lado dela, na penumbra.
Tirei o formulário, olhei para ele por um segundo à luz fraca e guardei-o novamente.
—Vou tirar-te daqui — sussurrei.
Não sabia se estava a dizer-lhe isso a ela... ou a mim mesma.
Lola De RossiA mansão de Alessandro não é apenas uma casa. É um mundo inteiro, vivo e pulsante, com jardins que descem em terraços em direção ao mar, piscinas que brilham sob o sol implacável da Sicília e quartos que cheiram a madeira antiga e lavanda fresca. Desde que chegámos, o meu pai não se separa dos trigémeos. Carrega-os como se temesse que desaparecessem, beija-lhes a testa vezes sem conta, fala-lhes num italiano suave, contando-lhes histórias de vinhas que eles ainda não compreendem. Vejo nos seus olhos o peso de trinta anos perdidos, e cada vez que o Lorenzo lhe agarra um dedo com a sua mãozinha gordinha, ou a Loretta solta uma gargalhada borbulhante, ou o Leonardo o olha fixamente com aqueles olhos escuros que são idênticos aos dele, o Alessandro chora. Lágrimas silenciosas que ele limpa rapidamente, como se tivesse vergonha delas, mas que me partem o coração.—Eles são a minha redenção — disse-me ele uma noite, com a Loretta adormecida contra o seu peito—. Tu és. Nunca pe
AdriánPassaram-se três meses desde que a Claudia morreu. Três meses que parecem uma eternidade no inferno. A mansão é um mausoléu vazio. Ando por corredores que antes ressoavam com a sua voz, com o seu riso leve, com o bater dos seus sapatos quando corria para me receber. Agora só há silêncio. Um silêncio que me sufoca, que me esmaga o peito cada vez que respiro. Durmo no sofá do escritório porque não suporto a cama vazia. O lado dela continua intacto: a almofada com o seu perfume a desvanecer-se, o livro que ela estava a ler aberto na mesinha. Não lhe toquei. Não consigo.Antes era frio. Rigoroso. Controlado. As pessoas respeitavam-me, não me temiam. Executava decisões sem hesitar, e os outros seguiam-me. Agora todos me evitam. Os funcionários baixam o olhar quando passo. Os executivos tremem se eu levantar a voz. E levanto-a por nada. Por tudo. Grito ordens que não importam. Irrito-me com um e-mail mal redigido, com um café que não está à temperatura exata, com o trânsito que me at
Lola De RossiChegámos à quinta ao meio-dia. A estrada serpenteava por entre vinhas intermináveis, colinas verdes que cheiravam a terra fértil e uvas maduras. O sol da Sicília queimava, mas o ar era seco, limpo. Os trigémeos dormiam no banco de trás do carro alugado, exaustos pela viagem desde Taormina. A Carla conduzia em silêncio, lançando-me olhares de soslaio a cada poucos minutos.—Não há volta a dar — disse ela finalmente, parando o motor em frente ao portão de ferro forjado.Acenei com a cabeça. Tinha a garganta seca. Há semanas que imaginava este momento, mas nada me tinha preparado para a realidade: a mansão ao fundo, branca e majestosa, com varandas floridas e um jardim que parecia saído de um postal antigo.Um guarda abriu-nos a porta depois de verificar o meu nome. «O senhor De Rossi espera por vocês», disse ele, com uma surpresa que não conseguiu esconder. O Alessandro sabia que eu vinha. Tinha-lhe escrito uma carta, uma carta a sério — com a foto da minha mãe e uma cópia
Lucia (Lola De Rossi)Deixei Nova Iorque sem olhar para trás. Sem um bilhete, sem uma chamada, sem nada que pudesse ser rastreado. Subaluguei o apartamento a um desconhecido através das redes sociais. As poucas coisas da minha mãe empacotei-as em duas malas. O resto doei. Não queria peso. Não queria memórias que me prendessem àquele lugar onde tudo se partiu.Primeiro, mudei o meu nome legalmente. Usei parte do seguro de vida para pagar a um advogado especializado em casos discretos que acelerasse o processo. Lucía Navas deixou de existir. Agora sou Lola De Rossi. O apelido do meu pai. Aquele que sempre devia ter usado. Aquele que a minha mãe me escondeu por medo, mas que agora me protege como um escudo.Registei os trigémeos como meus. Apenas meus. Pai desconhecido nas certidões. Lorenzo, Loretta e Leonardo De Rossi. Três nomes italianos que escolhi olhando para fotos antigas da Sicília, imaginando que a minha mãe os teria aprovado. Lorenzo por força. Loretta por luz. Leonardo por gé





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