Mundo de ficçãoIniciar sessãoGustavo é um pai solo que vive apenas para a filha, Lívia, e mantém o coração fechado para o amor. De volta à cidade natal, Vivian assume um cargo como professora de balé — sem imaginar que reencontraria alguém do passado. Unidos por Lívia e por sentimentos que nunca desapareceram por completo, eles descobrem que o amor pode renascer quando menos se espera. Uma história sobre paternidade, reencontros e um amor que chega devagar, mas fica.
Ler maisJá passavam das dez e meia quando terminei de lavar a última panela do jantar. A cozinha estava silenciosa, iluminada apenas pela luz amarelada do plafon, e o cheiro suave de sabão ainda pairava no ar. Sequei as mãos no pano de prato, respirei fundo e segui pelo corredor em direção ao quarto de Lívia.
A porta estava entreaberta.
Ela estava sentada no tapete, as pernas cruzadas de maneira desajeitada, concentrada em uma conversa imaginária com uma de suas bonecas. Murmurava frases desconexas, mudava a voz, ria sozinha. Fiquei parado à porta, observando aquela cena simples como se fosse algo extraordinário. Talvez fosse.
Foi naquele instante que aceitei, sem reservas, uma verdade que já não tinha mais como negar: eu tinha me tornado um pai completamente babão.
— Veio brincar comigo, papai? — perguntou sem me olhar, como se soubesse exatamente onde eu estava.
— Não, meu amor — respondi, entrando no quarto. — Já está na hora de dormir.
Ela ergueu o rosto na mesma hora, os olhos castanhos arregalados em protesto.
— Mas eu não quero dormir! Ainda nem terminei a história da princesa!
— A princesa pode esperar até amanhã — falei, tentando soar firme. — Amanhã você brinca mais.
— Só mais um pouquinho? — insistiu, juntando as mãos em frente ao peito.
Sorri, mesmo tentando resistir.
— Não, mocinha. Hoje não.
Lívia fez um bico dramático, mas assentiu. Levantou-se devagar, arrastando os pés até a cama, enquanto eu pegava o pijama dobrado sobre a cômoda. Ajudei-a a tirar o vestido florido e vestir o pijama de flanela rosa, estampado com unicórnios e arco-íris. Ela reclamou do frio então ajustei a temperatura do ar condicionado.
Depois de acomodá-la na cama, puxei o edredom para cobri-la e sentei-me ao seu lado para fazermos a oração antes de dormir.
— Papai… — chamou, com a voz mais baixa.
— O que foi?
— Amanhã é meu primeiro dia no balé.
— Eu sei.
— E se eu cair?
— Todo mundo cai quando está aprendendo alguma coisa nova.
— E se as outras meninas rirem?
Inclinei-me um pouco mais, apoiando o braço na cama.
— Então você levanta, sacode a poeira e continua. Porque você é corajosa.
Ela sorriu, satisfeita com a resposta, mas ainda inquieta. Remexia-se de um lado para o outro como se o colchão fosse grande demais para conter tanta energia.
— Papai, conta uma historinha? — pediu, já antecipando a negativa.
— Já está tarde, meu amor…
— Eu prometo que durmo depois! Prometo de dedinho!
Ela estendeu o dedo mínimo, com aquela expressão que sempre me desmontava. Suspirei, derrotado.
— Tá bom. Uma só.
Sentei-me melhor na lateral da cama em formato de casinha e comecei a contar a história que ela mais gostava — a mesma de sempre.
— Era uma vez uma menininha que morava na rua e sonhava em ser astronauta…
Enquanto eu falava, Lívia se virou de lado, apoiando a cabeça na mãozinha. Seus olhos acompanhavam cada palavra como se fosse a primeira vez que ouvia aquela história.
— Todas as noites, ela subia no topo de uma árvore para observar as estrelas…
Fiz uma pausa breve, esperando encontrá-la dormindo, mas ela continuava ali, atenta.
— Continua, papai…
Sorri e continuei.
— Um dia, ela viu uma estrela cadente e fez um pedido. Pediu por uma família… e por uma cama quentinha para dormir.
A voz foi ficando mais baixa conforme o sono começava a vencê-la.
— Então uma moça muito gentil a levou para casa… e a menininha virou uma princesa.
Quando terminei, o silêncio respondeu por ela. O peito de Lívia subia e descia em um ritmo calmo. Afastei uma mecha de cabelo do rosto, beijei sua testa e apaguei a luz do abajur.
Fiquei ali por alguns segundos, apenas observando. Ainda me surpreendia com a intensidade daquele amor. Nunca imaginei que fosse capaz de sentir algo assim.
Fechei a porta com cuidado e segui para o meu quarto.
O banho quente ajudou a relaxar os músculos, mas não a mente. Deitei-me com um livro aberto sobre o peito, lendo a mesma página repetidas vezes sem absorver uma única palavra.
O aniversário de seis anos dela estava se aproximando.
Seis anos.
Era estranho como o tempo passava rápido demais. Parecia que havia sido ontem que eu a tinha trazido para casa.
Eu tive que contratar uma organizadora para a festinha, afinal, meu conhecimento sobre princesas da Disney continuava perigosamente limitado, mas mesmo assim, a ansiedade me corroía.
Será que eu estava fazendo o suficiente?
Deixei o livro de lado e fui até a cozinha beber água. O apartamento estava silencioso demais, então me sentei na pequena varanda. A cidade se estendia à minha frente, iluminada, viva.
As lembranças vieram sem pedir licença.
O primeiro choro. O primeiro sorriso. O medo constante de errar.
Lívia tinha sido a minha salvação. Sem ela, eu não sabia onde teria ido parar. No começo, tudo foi difícil. Houve noites em que chorei escondido, com medo de não dar conta. Mas tive o apoio dos meus pais, da minha irmã… e, aos poucos, fui aprendendo.
Peguei o celular. Eram quase meia-noite. Duas mensagens da minha mãe piscavam na tela.
“Estamos ansiosos para ver a reação da nossa netinha com o presente.
"Que horas vai ser a festinha?”
Sorri ao responder. Meu pai tinha feito uma casinha de bonecas com as próprias mãos. Eu já conseguia imaginar o brilho nos olhos da Lívia.
Voltei para o quarto decidido a dormir. Deixei a porta entreaberta, como sempre.
Já estava quase pegando no sono quando senti algo subir na cama. Acendi o abajur e encontrei Lívia sentada aos pés da cama, abraçada ao seu coelho de pelúcia.
— Papai… tem um bicho embaixo da minha cama…
O narizinho vermelho, os olhos marejados. Meu coração apertou.
— Foi só um pesadelo, meu anjinho. Não tem bicho nenhum lá.
— Posso dormir aqui?
— Claro que pode.
Ela se aninhou ao meu lado, como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo.
— Papai?
— Oi.
— Você sempre vai ficar comigo?
Engoli em seco.
— Sempre.
Lívia dormiu rápido, agarrada ao meu braço. Apaguei a luz e fiquei ali, acordado por mais um tempo.
Eu fazia tudo para que ela não sentisse falta de uma mãe, mas, às vezes, desejava que Letícia ainda estivesse viva.
Ela teria sido incrível. E talvez… as coisas fossem diferentes.
Cheguei à editora pouco depois das oito da manhã, carregando no corpo o cansaço de uma noite interrompida por sonhos que eu preferia não ter lembrado ao acordar. O céu estava encoberto, um cinza pesado que parecia se refletir no vidro espelhado do prédio à minha frente. Por alguns segundos, permaneci dentro do carro, com as mãos apoiadas no volante, respirando fundo como se precisasse me preparar para atravessar não apenas a rua, mas o dia inteiro.Desde que Vivian tinha reaparecido, algo dentro de mim estava fora do eixo.Desci do carro, ajustei o paletó e entrei. Cumprimentei a recepcionista, atravessei o saguão e segui para o elevador. Assim que as portas se fecharam, encostei a cabeça na parede fria de aço escovado e fechei os olhos. O silêncio momentâneo me permitiu ouvir meus próprios pensamentos e, todos eles pareciam levar ao mesmo lugar.Vivian estava de volta à cidade.Minha sala me recebeu com o cheiro familiar de papel, café e silêncio. Tirei o paletó, pendurei na cadeira
Depois de sonhar tão nitidamente com Letícia, acordei sobressaltado, com o coração acelerado e a respiração curta, como se tivesse acabado de emergir debaixo d’água. Demorei alguns segundos para entender onde estava. O quarto ainda estava escuro, silencioso demais, e por um instante tive a sensação cruel de que nada tinha mudado, de que ela ainda deveria estar ao meu lado.Mas não estava.Passei a mão pelo rosto, esfregando os olhos, tentando afastar aquela sensação incômoda que sempre vinha depois desses sonhos. Eles eram traiçoeiros. Não vinham com frequência, mas quando apareciam, pareciam reais demais, detalhados demais. O sorriso de Letícia, a forma como me chamava pelo nome, o jeito como estendia a mão… tudo parecia palpável.Não consegui voltar a dormir.Levantei devagar, calçando as pantufas, e saí do quarto com cuidado para não fazer barulho. Antes de qualquer coisa, fui até o quarto de Lívia. A porta estava entreaberta, e a luz fraca do abajur deixava o ambiente em um tom ac
Depois de me juntar ao grupo de mães atrás do grande vidro espelhado, consegui filmar Lívia enquanto ela se divertia e, ao mesmo tempo, tentava se concentrar em cada movimento da professora. Minha filha franzia a testa de leve, como se estivesse resolvendo algo muito sério, e imitava os passos com uma dedicação que me fez sorrir sozinho.— É a primeira vez dela no balé?A pergunta veio de uma mulher ao meu lado. Morena, sorriso fácil, devia ter pouco mais de trinta anos.— É sim — respondi. — Primeiro dia.— Dá pra perceber — Ela sorriu. — Elas ficam meio durinhas no começo, mas depois se soltam. A minha levou umas três aulas pra parar de olhar pros próprios pés.Olhei novamente para Lívia, que agora tentava girar com os braços abertos demais, quase perdendo o equilíbrio.— Aquela ali é a minha — apontou para uma garotinha de collant lilás. — O nome dela é Sofia e a sua?— Lívia.— Bonito nome. Quantos anos ela tem?— Seis.— A minha também. — fez uma pausa breve antes de perguntar, c
Quando voltei a abrir os olhos, o sol ainda nem tinha conseguido se firmar no céu. A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, pintando o quarto com tons suaves de dourado. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando aproveitar aquele raro instante de silêncio antes que o dia começasse de verdade.Ilusão.Senti um peso leve cair sobre mim e, logo em seguida, pequenos pés começaram a pular sobre a cama com energia suficiente para acordar um quarteirão inteiro.— Acorda, papai! — a voz animada de Lívia ecoou pelo quarto. — Hoje é dia de escola e de balé!Ela pulava sem coordenação, o cabelo completamente bagunçado e o sorriso tão largo que era impossível não sorrir de volta. A empolgação dela era contagiante, quase palpável.— Ei, ei, calma aí! — agarrei suas pernas e a puxei para baixo, fazendo com que ela caísse sentada no colchão em meio a gargalhadas.Envolvi-a em um abraço apertado e depositei um beijo demorado no topo de sua cabeça.— Bom dia, minha gatinha.— Bom
Já passavam das dez e meia quando terminei de lavar a última panela do jantar. A cozinha estava silenciosa, iluminada apenas pela luz amarelada do plafon, e o cheiro suave de sabão ainda pairava no ar. Sequei as mãos no pano de prato, respirei fundo e segui pelo corredor em direção ao quarto de Lívia.A porta estava entreaberta.Ela estava sentada no tapete, as pernas cruzadas de maneira desajeitada, concentrada em uma conversa imaginária com uma de suas bonecas. Murmurava frases desconexas, mudava a voz, ria sozinha. Fiquei parado à porta, observando aquela cena simples como se fosse algo extraordinário. Talvez fosse.Foi naquele instante que aceitei, sem reservas, uma verdade que já não tinha mais como negar: eu tinha me tornado um pai completamente babão.— Veio brincar comigo, papai? — perguntou sem me olhar, como se soubesse exatamente onde eu estava.— Não, meu amor — respondi, entrando no quarto. — Já está na hora de dormir.Ela ergueu o rosto na mesma hora, os olhos castanhos





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