Capítulo 2

Quando voltei a abrir os olhos, o sol ainda nem tinha conseguido se firmar no céu. A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, pintando o quarto com tons suaves de dourado. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando aproveitar aquele raro instante de silêncio antes que o dia começasse de verdade.

Ilusão.

Senti um peso leve cair sobre mim e, logo em seguida, pequenos pés começaram a pular sobre a cama com energia suficiente para acordar um quarteirão inteiro.

— Acorda, papai! — a voz animada de Lívia ecoou pelo quarto. — Hoje é dia de escola e de balé!

Ela pulava sem coordenação, o cabelo completamente bagunçado e o sorriso tão largo que era impossível não sorrir de volta. A empolgação dela era contagiante, quase palpável.

— Ei, ei, calma aí! — agarrei suas pernas e a puxei para baixo, fazendo com que ela caísse sentada no colchão em meio a gargalhadas.

Envolvi-a em um abraço apertado e depositei um beijo demorado no topo de sua cabeça.

— Bom dia, minha gatinha.

— Bom dia, papai! — respondeu, ainda rindo, antes de me abraçar pelo pescoço.

— Você dormiu bem?

— Dormi! E sonhei que eu dançava igual uma bailarina de verdade!

— Então hoje é o grande dia — falei. — Mas antes disso, vamos tomar um café da manhã bem reforçado.

— Vamos! — respondeu de imediato. — Quem chegar por último na cozinha é a mulher do sapo!

Antes que eu pudesse questionar a lógica daquela regra, Lívia desceu da cama em disparada e saiu correndo pelo corredor, rindo alto. Balancei a cabeça, divertido, e fui atrás dela.

Quando cheguei à cozinha, Lívia já comemorava a vitória como se tivesse ganhado uma medalha olímpica, pulando ao meu redor e anunciando em alto e bom som que eu havia perdido. Para minha sorte, Tânia já estava ali, com a mesa do café arrumada e um sorriso divertido no rosto.

— Bom dia, Gustavo — ela me cumprimentou.

— Bom dia.

— Tatá! — Lívia se virou para ela imediatamente. — Sabia que hoje eu vou fazer balé?

— É mesmo? — Tânia fingiu surpresa, embora já tivesse ouvido aquilo diversas vezes desde a noite anterior.

— Sim! — Lívia respondeu, tentando fazer uma pirueta improvisada no meio da cozinha.

— Então vai ser um dia muito especial — comentou Tânia, servindo cereal com leite no prato dela.

Enquanto Lívia comia sem parar de falar, observei aquela cena com uma mistura de gratidão e cansaço. A rotina era intensa, mas havia algo reconfortante naquele caos organizado.

Depois do café, veio a parte mais complicada da manhã: o cabelo.

Eu já estava preparado para a batalha, mas nem assim deixava de ser frustrante. Lívia não conseguia ficar parada, e minhas habilidades com penteados infantis eram praticamente inexistentes.

— Fica quietinha só um pouquinho — pedi pela terceira vez.

— Mas você tá demorando demais! — respondeu, se mexendo ainda mais.

Suspirei fundo.

— Tânia! — chamei, rendido.

Ela apareceu à porta do quarto de Lívia e caiu na gargalhada ao ver o estado do cabelo da minha filha.

— Isso é algum tipo de arte moderna?

— Muito engraçada — resmunguei. — Você pode arrumar o cabelo dela enquanto eu me troco?

— Claro.

— Ainda bem que meu pai não é menina — Lívia comentou, rindo. — Ele é péssimo com cabelo!

— Ei! — protestei, fingindo indignação.

Deixei as duas discutindo animadamente sobre marias-chiquinhas enquanto fui tomar banho. A água quente ajudou a despertar de vez, mas minha mente já estava cheia de compromissos e horários.

Quando voltei à cozinha, Lívia estava impecável, com o cabelo preso e um sorriso orgulhoso no rosto. Peguei sua lancheira preparada com todo o cuidado por Tânia e seguimos para a escola.

O trânsito estava surpreendentemente tranquilo. Estacionei em frente à escola no horário exato, ajudei Lívia a se soltar da cadeirinha e lhe entreguei a mochila de rodinhas. Antes que ela saísse correndo, me abaixei para ficar à sua altura.

— Um beijo e um abraço antes de ir.

Ela obedeceu prontamente.

— Tenha um ótimo dia, meu amor.

Fiquei observando por alguns segundos antes de entrar no carro. Sempre havia aquele aperto no peito ao deixá-la ali, mesmo sabendo que ela estava segura.

Da escola, fui direto para a editora. O dia passou em um turbilhão de reuniões, contratos e leituras. Pulei o almoço sem perceber e só me dei conta do horário quando o celular vibrou com o alarme para buscar Lívia.

Ao estacionar em frente de casa, vi Tânia abrir a porta e, logo em seguida, Lívia surgir correndo. Ela parecia saída de uma caixinha de música: collant rosa, meia-calça clara, sainha delicada, coque perfeitamente preso na redinha e sapatilhas novinhas.

— Papai!

Ela correu até mim e pulou em meus braços. Beijei sua testa e agradeci Tânia pela ajuda.

No caminho até a escolinha de balé, coloquei sua música preferida para tocar. Eu já sabia Hakuna Matata de cor — algo que jamais imaginei ser possível.

— Animada? — perguntei.

— Muito! — respondeu, quase pulando na cadeirinha.

O prédio da escola de balé era iluminado e cheio de movimento. No corredor do quinto andar, meninas vestidas de rosa aguardavam com suas mães. Por um instante, me senti deslocado por ser o único homem ali, mas afastei aquele pensamento rapidamente. Aquilo era sobre Lívia, não sobre mim.

A fila começou a se formar, e a professora passou a receber cada aluna com atenção e carinho. Quando chegou a vez da minha filha, a mulher se agachou à sua frente.

— Qual é o nome da nova bailarina?

— Lívia — respondeu timidamente.

Quando a professora ergueu o rosto, senti o chão desaparecer sob meus pés.

Aqueles olhos verdes.

O tempo pareceu desacelerar.

— Gustavo?

— Vivian?

Por um segundo, tudo ao redor deixou de existir.

Vivian estava ali, à minha frente, vestida de rosa claro, o cabelo preso de forma elegante, mas com o mesmo olhar que eu conhecia tão bem. O olhar da menina que cresceu comigo, que dividiu tardes inteiras sentada no meio-fio da rua, planejando futuros impossíveis.

— Quanto tempo… — ela murmurou.

— Muito tempo — respondi, ainda atordoado.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, tentando assimilar aquele reencontro improvável, até que senti um leve puxão na minha mão.

— Você conhece ela, papai?

Me abaixei imediatamente.

— Conheço sim, meu amor.

— A tia Vivian é amiga do papai desde quando a gente era pequeno — expliquei.

— Sério? — Lívia arregalou os olhos.

— Muito sério — Vivian respondeu, sorrindo.

— Que incrível!

— Eu preciso entrar pra dar a aula — Vivian disse, se levantando. — Depois a gente conversa?

— Claro.

Observei minha filha entrar na sala e, quando voltei o olhar para Vivian, senti algo apertar no peito. Não era apenas nostalgia. Era a estranha sensação de que aquele reencontro não tinha sido por acaso.

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