Mundo ficciónIniciar sesiónQuando voltei a abrir os olhos, o sol ainda nem tinha conseguido se firmar no céu. A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, pintando o quarto com tons suaves de dourado. Por alguns segundos, permaneci imóvel, tentando aproveitar aquele raro instante de silêncio antes que o dia começasse de verdade.
Ilusão.
Senti um peso leve cair sobre mim e, logo em seguida, pequenos pés começaram a pular sobre a cama com energia suficiente para acordar um quarteirão inteiro.
— Acorda, papai! — a voz animada de Lívia ecoou pelo quarto. — Hoje é dia de escola e de balé!
Ela pulava sem coordenação, o cabelo completamente bagunçado e o sorriso tão largo que era impossível não sorrir de volta. A empolgação dela era contagiante, quase palpável.
— Ei, ei, calma aí! — agarrei suas pernas e a puxei para baixo, fazendo com que ela caísse sentada no colchão em meio a gargalhadas.
Envolvi-a em um abraço apertado e depositei um beijo demorado no topo de sua cabeça.
— Bom dia, minha gatinha.
— Bom dia, papai! — respondeu, ainda rindo, antes de me abraçar pelo pescoço.
— Você dormiu bem?
— Dormi! E sonhei que eu dançava igual uma bailarina de verdade!
— Então hoje é o grande dia — falei. — Mas antes disso, vamos tomar um café da manhã bem reforçado.
— Vamos! — respondeu de imediato. — Quem chegar por último na cozinha é a mulher do sapo!
Antes que eu pudesse questionar a lógica daquela regra, Lívia desceu da cama em disparada e saiu correndo pelo corredor, rindo alto. Balancei a cabeça, divertido, e fui atrás dela.
Quando cheguei à cozinha, Lívia já comemorava a vitória como se tivesse ganhado uma medalha olímpica, pulando ao meu redor e anunciando em alto e bom som que eu havia perdido. Para minha sorte, Tânia já estava ali, com a mesa do café arrumada e um sorriso divertido no rosto.
— Bom dia, Gustavo — ela me cumprimentou.
— Bom dia.
— Tatá! — Lívia se virou para ela imediatamente. — Sabia que hoje eu vou fazer balé?
— É mesmo? — Tânia fingiu surpresa, embora já tivesse ouvido aquilo diversas vezes desde a noite anterior.
— Sim! — Lívia respondeu, tentando fazer uma pirueta improvisada no meio da cozinha.
— Então vai ser um dia muito especial — comentou Tânia, servindo cereal com leite no prato dela.
Enquanto Lívia comia sem parar de falar, observei aquela cena com uma mistura de gratidão e cansaço. A rotina era intensa, mas havia algo reconfortante naquele caos organizado.
Depois do café, veio a parte mais complicada da manhã: o cabelo.
Eu já estava preparado para a batalha, mas nem assim deixava de ser frustrante. Lívia não conseguia ficar parada, e minhas habilidades com penteados infantis eram praticamente inexistentes.
— Fica quietinha só um pouquinho — pedi pela terceira vez.
— Mas você tá demorando demais! — respondeu, se mexendo ainda mais.
Suspirei fundo.
— Tânia! — chamei, rendido.
Ela apareceu à porta do quarto de Lívia e caiu na gargalhada ao ver o estado do cabelo da minha filha.
— Isso é algum tipo de arte moderna?
— Muito engraçada — resmunguei. — Você pode arrumar o cabelo dela enquanto eu me troco?
— Claro.
— Ainda bem que meu pai não é menina — Lívia comentou, rindo. — Ele é péssimo com cabelo!
— Ei! — protestei, fingindo indignação.
Deixei as duas discutindo animadamente sobre marias-chiquinhas enquanto fui tomar banho. A água quente ajudou a despertar de vez, mas minha mente já estava cheia de compromissos e horários.
Quando voltei à cozinha, Lívia estava impecável, com o cabelo preso e um sorriso orgulhoso no rosto. Peguei sua lancheira preparada com todo o cuidado por Tânia e seguimos para a escola.
O trânsito estava surpreendentemente tranquilo. Estacionei em frente à escola no horário exato, ajudei Lívia a se soltar da cadeirinha e lhe entreguei a mochila de rodinhas. Antes que ela saísse correndo, me abaixei para ficar à sua altura.
— Um beijo e um abraço antes de ir.
Ela obedeceu prontamente.
— Tenha um ótimo dia, meu amor.
Fiquei observando por alguns segundos antes de entrar no carro. Sempre havia aquele aperto no peito ao deixá-la ali, mesmo sabendo que ela estava segura.
Da escola, fui direto para a editora. O dia passou em um turbilhão de reuniões, contratos e leituras. Pulei o almoço sem perceber e só me dei conta do horário quando o celular vibrou com o alarme para buscar Lívia.
Ao estacionar em frente de casa, vi Tânia abrir a porta e, logo em seguida, Lívia surgir correndo. Ela parecia saída de uma caixinha de música: collant rosa, meia-calça clara, sainha delicada, coque perfeitamente preso na redinha e sapatilhas novinhas.
— Papai!
Ela correu até mim e pulou em meus braços. Beijei sua testa e agradeci Tânia pela ajuda.
No caminho até a escolinha de balé, coloquei sua música preferida para tocar. Eu já sabia Hakuna Matata de cor — algo que jamais imaginei ser possível.
— Animada? — perguntei.
— Muito! — respondeu, quase pulando na cadeirinha.
O prédio da escola de balé era iluminado e cheio de movimento. No corredor do quinto andar, meninas vestidas de rosa aguardavam com suas mães. Por um instante, me senti deslocado por ser o único homem ali, mas afastei aquele pensamento rapidamente. Aquilo era sobre Lívia, não sobre mim.
A fila começou a se formar, e a professora passou a receber cada aluna com atenção e carinho. Quando chegou a vez da minha filha, a mulher se agachou à sua frente.
— Qual é o nome da nova bailarina?
— Lívia — respondeu timidamente.
Quando a professora ergueu o rosto, senti o chão desaparecer sob meus pés.
Aqueles olhos verdes.
O tempo pareceu desacelerar.
— Gustavo?
— Vivian?
Por um segundo, tudo ao redor deixou de existir.
Vivian estava ali, à minha frente, vestida de rosa claro, o cabelo preso de forma elegante, mas com o mesmo olhar que eu conhecia tão bem. O olhar da menina que cresceu comigo, que dividiu tardes inteiras sentada no meio-fio da rua, planejando futuros impossíveis.
— Quanto tempo… — ela murmurou.
— Muito tempo — respondi, ainda atordoado.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, tentando assimilar aquele reencontro improvável, até que senti um leve puxão na minha mão.
— Você conhece ela, papai?
Me abaixei imediatamente.
— Conheço sim, meu amor.
— A tia Vivian é amiga do papai desde quando a gente era pequeno — expliquei.
— Sério? — Lívia arregalou os olhos.
— Muito sério — Vivian respondeu, sorrindo.
— Que incrível!
— Eu preciso entrar pra dar a aula — Vivian disse, se levantando. — Depois a gente conversa?
— Claro.
Observei minha filha entrar na sala e, quando voltei o olhar para Vivian, senti algo apertar no peito. Não era apenas nostalgia. Era a estranha sensação de que aquele reencontro não tinha sido por acaso.







