Capítulo 5

Cheguei à editora pouco depois das oito da manhã, carregando no corpo o cansaço de uma noite interrompida por sonhos que eu preferia não ter lembrado ao acordar. O céu estava encoberto, um cinza pesado que parecia se refletir no vidro espelhado do prédio à minha frente. Por alguns segundos, permaneci dentro do carro, com as mãos apoiadas no volante, respirando fundo como se precisasse me preparar para atravessar não apenas a rua, mas o dia inteiro.

Desde que Vivian tinha reaparecido, algo dentro de mim estava fora do eixo.

Desci do carro, ajustei o paletó e entrei. Cumprimentei a recepcionista, atravessei o saguão e segui para o elevador. Assim que as portas se fecharam, encostei a cabeça na parede fria de aço escovado e fechei os olhos. O silêncio momentâneo me permitiu ouvir meus próprios pensamentos e, todos eles pareciam levar ao mesmo lugar.

Vivian estava de volta à cidade.

Minha sala me recebeu com o cheiro familiar de papel, café e silêncio. Tirei o paletó, pendurei na cadeira e afrouxei a gravata. A pilha de originais aguardava pacientemente sobre a mesa, como sempre. Histórias novas, promessas de outros mundos, outros conflitos. Normalmente, aquilo me animava. Naquela manhã, parecia apenas barulho.

Peguei o primeiro manuscrito, li o título, passei os olhos pelo resumo. Duas páginas depois, percebi que não tinha absorvido absolutamente nada.

Fechei o arquivo com um suspiro impaciente.

— Foco, Gustavo — murmurei para mim mesmo.

Mas foco era um luxo naquele dia.

Peguei o celular e enviei uma mensagem para minha irmã:

Gustavo: Está por perto? Que tal almoçarmos juntos hoje?

A resposta veio rápido.

Renata: Milagre. Onde?

Sorri de canto.

Gustavo: Aquele bistrô perto da editora.

As reuniões da manhã passaram como um borrão. Eu falava quando era necessário, concordava, discordava, fazia anotações. Por fora, estava presente. Por dentro, minha mente insistia em revisitar um estúdio de balé, um par de olhos conhecidos e a sensação incômoda de que o passado tinha decidido me alcançar sem pedir permissão.

Renata: Você ainda vai almoçar comigo ou resolveu virar lenda urbana?

Sorri, apesar do peso no peito.

Gustavo: Já estou indo.

Pouco antes do meio-dia, deixei a editora e segui a pé até o restaurante próximo. Era um lugar simples, aconchegante, com mesas de madeira clara e janelas grandes. Frequentávamos ali desde antes de eu me tornar pai, desde quando a vida ainda parecia mais fácil.

Ela já estava sentada quando cheguei, folheando o cardápio sem real interesse.

— Você demorou — comentou, sem levantar os olhos.

— Culpa da editora… e da minha cabeça.

Ela ergueu o olhar imediatamente.

— Essa combinação nunca é boa.

Me sentei de frente para ela, fizemos nossos pedidos. Durante os primeiros minutos, falamos de coisas triviais: o trabalho dela, o crescimento acelerado da Lívia, o quanto nossos pais estavam empolgados com o aniversário da neta. Conversa segura. Superficial. Até que minha irmã fez o que sempre fazia.

— Tá — disse, apoiando os cotovelos na mesa. — Agora me conta o que você está escondendo.

Sorri de canto, sem humor.

— Sou tão previsível assim?

— Desde que você tinha oito anos. Quando fica quieto demais, tem coisa aí.

Respirei fundo.

— A Vivian voltou.

Ela piscou, surpresa.

— A Vivian… — repetiu devagar. — A sua Vivian?

— Ela nunca foi minha — corrigi, automaticamente.

— Você sabe o que eu quis dizer.

Assenti.

— Ela está morando na cidade de novo. É professora de balé.

— E me deixa adivinhar… — Minha irmã inclinou a cabeça. — Professora da Lívia.

— Exatamente.

Ela soltou uma risada baixa, incrédula.

— A vida tem um senso de humor bem peculiar.

— Não achei engraçado quando aconteceu.

— Imagino. Como foi o reencontro?

Olhei para o copo de água à minha frente, girando-o levemente.

— Estranho, intenso. Familiar demais. Foi como se o tempo tivesse dobrado sobre si mesmo.

— Você ainda sente alguma coisa por ela?

A pergunta veio direta, sem rodeios. Doeu mais do que eu esperava.

— Eu nunca deixei de sentir — respondi com honestidade. — Só aprendi a guardar.

Minha irmã me observou em silêncio por alguns segundos.

— E a Letícia? — perguntou com cuidado.

— A Letícia sempre vai fazer parte de mim, mas isso não apaga o passado… nem o que a Vivian representa.

— Você está confuso.

— Estou.

— E ela? Está casada? Tem filhos?

— Não sei. Não conversamos sobre isso. Foi tudo muito rápido.

Ela apoiou a mão sobre a minha.

— Talvez essa história ainda não tenha acabado, Gustavo.

— Ou talvez devesse ter ficado exatamente onde estava.

O almoço seguiu com um clima mais leve depois disso, mas o assunto permaneceu ali, suspenso entre nós. Quando nos despedimos, tive a sensação nítida de que tinha aberto uma porta interna que estava trancada havia tempo demais.

Voltei para a editora tentando retomar o foco. O saguão parecia mais barulhento do que antes, os passos mais rápidos, os cumprimentos mais automáticos. Assim que cheguei à minha sala, fui recebido pela expressão preocupada da minha secretária.

— Gustavo, tentaram falar com você mais cedo… a escola da Lívia ligou algumas vezes.

Meu coração acelerou imediatamente.

— Ligaram agora há pouco também?

— Não, mas pareceram insistentes.

Não esperei mais nada. Peguei o celular e disquei o número enquanto caminhava pelo corredor.

— Aqui é o Gustavo, pai da Lívia.

— Olá, senhor Gustavo. Meu nome é Bruna, sou a assistente da diretora — respondeu a voz calma demais para o efeito que causou em mim. — Precisamos que o senhor venha até a escola.

— Aconteceu alguma coisa com a minha filha? — perguntei, sentindo o peito apertar.

— Houve um desentendimento entre ela e um coleguinha. Ela acabou caindo no quadrado de areia.

— Ela está machucada?

— Não parece nada grave, mas a diretora gostaria de conversar pessoalmente com o senhor.

— Estou indo agora.

Encerrei a ligação já pegando as chaves.

— Cancele todos os compromissos do resto do dia — pedi à minha secretária. — É assunto de família.

Quinze minutos depois, eu já estava estacionando em frente à escola.

— Onde está minha filha? — perguntei à mulher atrás da mesa.

— Senhor Gustavo, fique tranquilo — disse Bruna, com uma calma treinada. — Ela está com a diretora.

Assim que entrei na sala, Lívia veio correndo até mim.

— Papai!

Ajoelhei-me para abraçá-la.

— Você está bem, minha princesa?

Ela assentiu. Apenas um joelho ralado.

— Senhor Gustavo, esta é a senhora Soutto, nossa nova diretora — apresentou Bruna.

Sentei-me ao lado da minha filha enquanto a diretora explicava o ocorrido. Ao final, respirei aliviado.

— Nossa escola tem tolerância zero para qualquer tipo de violência — garantiu ela.

— Agradeço muito, senhora Soutto.

Bruna entrou logo depois com a mochila e a lancheira de Lívia.

— Imaginei que o senhor fosse querer levá-la para casa.

No corredor, vi um garotinho encolhido em um banco. Senti pena. Crianças erram.

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