Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois de me juntar ao grupo de mães atrás do grande vidro espelhado, consegui filmar Lívia enquanto ela se divertia e, ao mesmo tempo, tentava se concentrar em cada movimento da professora. Minha filha franzia a testa de leve, como se estivesse resolvendo algo muito sério, e imitava os passos com uma dedicação que me fez sorrir sozinho.
— É a primeira vez dela no balé?
A pergunta veio de uma mulher ao meu lado. Morena, sorriso fácil, devia ter pouco mais de trinta anos.
— É sim — respondi. — Primeiro dia.
— Dá pra perceber — Ela sorriu. — Elas ficam meio durinhas no começo, mas depois se soltam. A minha levou umas três aulas pra parar de olhar pros próprios pés.
Olhei novamente para Lívia, que agora tentava girar com os braços abertos demais, quase perdendo o equilíbrio.
— Aquela ali é a minha — apontou para uma garotinha de collant lilás. — O nome dela é Sofia e a sua?
— Lívia.
— Bonito nome. Quantos anos ela tem?
— Seis.
— A minha também. — fez uma pausa breve antes de perguntar, com naturalidade: — Você é o pai dela, né?
— Sou.
— Dá pra ver. — O tom era leve, quase elogioso. — Poucos pais ficam aqui esperando.
Dei de ombros.
— Eu não ia perder isso.
Enviei o vídeo para minha mãe quase imediatamente. Eu sabia que ela ficaria emocionada ao ver a neta de collant rosa e saia de tule, girando com cuidado exagerado para não errar. Lívia sempre foi assim: intensa até nas coisas pequenas.
— A professora é nova, né? — Uma outra mulher ao meu lado comentou. — Nunca tinha visto ela antes.
— Ela é a filha da Marissa, a antiga diretora da escola infantil — Uma outra respondeu. — Voltou recentemente pra cidade
— Ela é ótima com as crianças — completou. — E muito bonita também.
O ensaio seguiu por mais alguns minutos, e eu observei cada detalhe. A forma como Vivian, ou melhor, tia Vivi, como as crianças já a chamavam, se agachava para falar com elas na mesma altura. A paciência na voz. O sorriso fácil. Tudo nela era familiar demais.
Dolorosamente familiar.
Esperei cerca de cinquenta minutos até que as crianças começassem a sair da sala. Uma a uma, surgiam correndo, algumas ainda tropeçando nos próprios pés, outras procurando os pais com os olhos atentos. Vivian fez questão de trazer Lívia pela mão.
Minha filha vinha sorrindo de um jeito tão aberto que meu peito apertou. Os olhos brilhavam, o cabelo preso já começava a se soltar, e o rosto estava levemente corado pelo esforço.
— Amei o balé, papai! — ela disse, assim que me viu.
— Que ótimo, meu amor — abaixei-me para ficar da altura dela. — Depois você vai me contar tudo, combinado?
— Combinado! — assentiu animada. — A tia Vivi é muito legal!
Foi impossível não sorrir. Vivi. Era exatamente assim que eu a chamava quando éramos crianças. Ouvir minha filha repetir o apelido com tanta naturalidade mexeu comigo de um jeito inesperado. Era como se o passado estivesse se infiltrando no presente sem pedir permissão.
— Também fiz uma nova amiga! O nome dela é Amanda.
— Que coisa boa.
Vivian observava a cena em silêncio, com um sorriso contido, quase cuidadoso. Como se estivesse pisando em um terreno frágil.
— Gustavo… será que podemos conversar um minutinho?
Ouvir meu nome na voz dela fez algo se contrair dentro de mim.
— Claro.
Voltamos para dentro da sala espelhada. Minha filha logo se distraiu fazendo caretas para o próprio reflexo enquanto Vivian puxava uma cadeira e indicava que eu me sentasse.
— A Lívia se saiu muito bem para o primeiro dia — lançou um olhar carinhoso para minha filha. — Ela é uma menina adorável.
— Ela é mesmo — respondi, sentindo o orgulho inflar no peito.
— Dá pra perceber que vocês fazem um ótimo trabalho com a educação dela.
Havia algo no tom de voz de Vivian. Um cuidado excessivo. Um receio que não combinava com a mulher segura que eu conhecia ou que achava conhecer.
— Vou precisar que você preencha esse formulário de emergência — disse, estendendo-me uma prancheta. — É um procedimento padrão da escola para caso alguma aluna se machuque.
Peguei a caneta enquanto ela continuava:
— Daqui a alguns meses teremos uma apresentação das crianças. Nada muito elaborado, mas é um momento importante pra elas. A Lívia provavelmente vai querer participar.
— Apresentação? Mas hoje foi o primeiro dia dela.
— Eu sei — Ela sorriu. — É algo simples. Mais sobre integração do que perfeição.
— Entendi.
Ela me entregou um panfleto colorido.
— Só precisarei saber quantas pessoas virão assistir, para separarmos os convites.
— Posso te responder na próxima aula? Preciso ver com meus pais se eles vão conseguir vir.
— Claro. Sem problema.
Houve um pequeno silêncio entre nós. Um daqueles que carregam mais coisas do que deveriam.
— E… seus pais? — Vivian perguntou, quase casualmente. — Como eles estão?
— Bem. Os mesmos de sempre.
— Faz tanto tempo que não os vejo.
— Meu pai ainda acha que pode mandar em mim como se eu tivesse quinze anos — sorri de leve. — Às vezes esquece que não sou mais um garoto.
— Ele sempre foi assim — Ela riu baixo. — Mas também sempre cuidou da gente.
O sorriso dela trouxe lembranças que eu preferia manter enterradas. Travessuras, tardes intermináveis, promessas que nunca chegaram a ser feitas, mas que pairavam no ar como se um dia pudessem se concretizar.
— Às vezes me pego lembrando da nossa infância — Ela continuou. — Das confusões. Seu pai sempre nos acobertava.
— Ele fazia isso porque confiava em você — respondi, sem pensar.
O olhar de Vivian encontrou o meu. Por um segundo longo demais, algo passou entre nós. Algo não resolvido.
— Preciso ir — disse, quebrando o momento. — Ainda tenho que achar um jeito de desacelerar esse furacãozinho.
Chamei Lívia, que veio correndo, e agarrou minha mão com força. Os sinais de cansaço já eram visíveis.
— Nos vemos na próxima aula, princesa? — Vivian perguntou.
— Siiim! — Lívia respondeu animada.
Vivian voltou o olhar para mim.
— Foi… bom te reencontrar, Gustavo.
— Foi bom te ver também, Vivian.
Saímos da escola e fomos direto para o carro. Enquanto eu prendia minha pequena bailarina na cadeirinha, ela começou a falar sem parar sobre cada detalhe da aula.
Quando estacionei na garagem de casa, o céu já estava escuro e a chuva começava a cair forte. Olhei para o banco de trás e confirmei o óbvio: Lívia havia adormecido. Peguei-a no colo e corri até a porta.
A casa estava silenciosa. Tânia já tinha ido embora. Deitei Lívia no sofá por alguns minutos, busquei minha pasta no carro e, quando voltei, ela já estava acordada.
— Vai tomar banho, meu amor, enquanto eu preparo o jantar.
— O que va ter pra jantar?
— O que você quer?
— Pizza!
— Pizza é só no fim de semana, mas vou fazer outra coisa bem gostosa.
— Tá bom…
Na cozinha, encontrei uma travessa de lasanha pronta. Agradeci mentalmente à Tânia. Coloquei a travessa no forno e fui ajudar Lívia no banho enquanto a chuva castigava o telhado. Ela se agarrou à minha perna quando um trovão mais alto ecoou.
— Tá tudo bem — garanti. — O papai tá aqui.
Depois do banho, escolhemos um filme.
— Posso escolher hoje? — perguntei.
Ela assentiu, e coloquei Toy Story.
— Papai?
— Oi.
— A tia Vivi é bonita, né?
— É sim.
— Por que você não namora ela?
Engoli em seco.
— Você não acha que é muito nova pra falar disso?
— Não.
— E por que você acha que o papai devia namorar a tia Vivi?
— Porque ela é legal.
— Mas você só conheceu ela hoje…
— Você conhece ela faz tempo.
Suspirei.
— Eu já tenho namorado — Lívia completou.
— É mesmo? Posso saber quem é?
— O Lucas. Ele senta do meu lado na sala e divide o lanche comigo na hora do recreio.
Ri. Criança inventava cada coisa.
Mais tarde, jantamos, fizemos a oração e coloquei Lívia na cama. Quando apaguei a luz, o silêncio da casa me envolveu. E, inevitavelmente, meus pensamentos voltaram para Vivian. O reencontro tinha sido estranho. Tinha mexido comigo mais do que eu gostaria de admitir.







