Capítulo 4

Depois de sonhar tão nitidamente com Letícia, acordei sobressaltado, com o coração acelerado e a respiração curta, como se tivesse acabado de emergir debaixo d’água. Demorei alguns segundos para entender onde estava. O quarto ainda estava escuro, silencioso demais, e por um instante tive a sensação cruel de que nada tinha mudado, de que ela ainda deveria estar ao meu lado.

Mas não estava.

Passei a mão pelo rosto, esfregando os olhos, tentando afastar aquela sensação incômoda que sempre vinha depois desses sonhos. Eles eram traiçoeiros. Não vinham com frequência, mas quando apareciam, pareciam reais demais, detalhados demais. O sorriso de Letícia, a forma como me chamava pelo nome, o jeito como estendia a mão… tudo parecia palpável.

Não consegui voltar a dormir.

Levantei devagar, calçando as pantufas, e saí do quarto com cuidado para não fazer barulho. Antes de qualquer coisa, fui até o quarto de Lívia. A porta estava entreaberta, e a luz fraca do abajur deixava o ambiente em um tom aconchegante. Ela dormia profundamente, abraçada ao coelho de pelúcia, com a boquinha levemente aberta e o peito subindo e descendo num ritmo tranquilo.

Fiquei ali parado por alguns segundos, observando. Sempre ficava.

Era nesses momentos que eu tinha certeza de que, apesar de tudo, estava fazendo algo certo. Lívia era a minha âncora. A razão pela qual eu levantava todos os dias, mesmo quando o cansaço parecia maior do que eu.

Fechei a porta com cuidado e segui para o escritório. O ambiente tinha cheiro de papel, tinta de impressão e café velho. Sentei-me diante da pilha de originais que precisava avaliar, peguei o primeiro manuscrito e li rapidamente as anotações de Lilian presas à capa. Suspirei antes de começar a leitura.

As palavras avançavam, o enredo se desenrolava, mas minha mente insistia em vagar. Parte de mim ainda estava presa ao sonho, outra parte… em Vivian. No reencontro inesperado. No olhar surpreso. No silêncio desconfortável entre duas pessoas que já dividiram tudo, menos aquilo que realmente importava.

— Bom dia, papai!

A voz animada me tirou do assassinato fictício que acontecia no livro.

— Bom dia, meu anjinho — respondi, fechando o manuscrito e sorrindo.

Lívia apareceu à porta, ainda de pijama, o cabelo bagunçado e os olhos brilhando de energia, como se não existisse cansaço no mundo.

— O que você tá fazendo?

— Eu estava lendo um livro muito bom que uma moça mandou para a editora onde o papai trabalha.

— Eu também quero ler!

— Primeiro você precisa aprender a ler direitinho — expliquei com paciência. — Depois crescer um pouco mais.

— Não é livro de criança?

— Esse aqui é de adulto. Mas, se você quiser, posso comprar livros de criança pra você.

— Aí a gente pode ler antes de dormir? — perguntou, já animada.

— Pode sim.

— Promete?

— Prometo.

Ela sorriu satisfeita, como se tivesse acabado de ganhar o melhor acordo do mundo.

— Agora vem — falei, levantando. — Que tal um café da manhã especial?

— Panquecas? — pediu, juntando as mãozinhas. — Por favorzinho!

— Você sabe que com essa carinha eu não resisto — respondi, apertando suas bochechas.

Enquanto eu preparava a massa, ouvimos a porta de entrada se abrir. Tânia tinha chegado. Lívia saiu em disparada pela casa, tentando pegá-la de surpresa, e logo a cozinha se encheu de risadas. Minha filha começou a rodopiar pelo ambiente, demonstrando, com orgulho exagerado, os passos que tinha aprendido no balé.

— Tatá, sabia que a tia Vivian é amiga do meu pai?

Levantei os olhos na mesma hora.

— Ah, é? — Tânia fingiu surpresa, mas eu conhecia bem aquele sorriso.

— Siim! E ela é muito bonita, né, pai?

— Boneca, por que você não vai se arrumar para o colégio enquanto preparo as panquecas? — tentei mudar de assunto.

— Tá bom, papai!

Assim que Lívia saiu da cozinha, senti o peso do olhar de Tânia sobre mim. Ela me conhecia desde garoto. Conhecia minhas histórias, meus silêncios… e minhas antigas paixões.

— A Vivian está mesmo de volta à cidade?

— Está — respondi. — E vai ser a professora de balé da Lívia.

— E como você está se sentindo com isso?

Parei de mexer a massa e me virei para ela, apoiando as mãos na pia.

— Estranho. Surreal. Um pouco desconfortável — admiti. — Não era algo que eu esperava.

— Mas mexeu com você, né?

Suspirei.

— É inevitável que mexa. Ela fez parte da minha vida por muito tempo.

— E vocês conversaram?

— O básico. Sobre o balé. Nada além disso.

Tânia assentiu, compreensiva.

— Você sabe que pode conversar comigo sobre isso.

— Eu sei. Obrigado.

Lívia voltou vestida com o uniforme e puxou Tânia pela mão, pedindo ajuda com o cabelo. Observei as duas saindo do cômodo e, por um instante, a ausência de Letícia voltou a doer. Ela teria amado essas manhãs, esses detalhes simples.

Quando voltaram, Lívia estava linda. Parte do cabelo solto, uma trança delicada na lateral.

— O que achou, papai?

— Está linda.

— Viu? A Tatá sabe fazer penteados legais!

Tomamos café juntos e, pouco depois, seguimos para a escola. No carro, Lívia cantarolava Frozen até o celular vibrar no painel.

— Papai, é a vovó!

— Atende pra mim, diz que estou dirigindo.

Entreguei o celular para ela, que deslizou o dedo com toda a seriedade que só uma criança pode ter.

— Oi, vovó! — disse animada. — O papai tá dirigindo, mas eu tô aqui!

Sorri, ouvindo apenas metade da conversa.

— Aham… eu tô indo pra escola… — fez uma pausa. — Sério? — os olhos dela se arregalaram. — Não vou contar, prometo!

Meu coração deu um leve salto.

— Papai, ela disse que é segredo — sussurrou, cobrindo o microfone com a mão.

— Então é segredo — respondi, piscando.

Pouco depois, estacionei em frente à escola. Dei um beijo em Lívia, observei-a correr até as amiguinhas e fiquei alguns segundos parado no carro, respirando fundo. Então retornei a ligação da minha mãe.

— Oi, mãe.

— Meu filho! — a voz dela veio carregada de carinho e alívio. — Ainda bem que você me retornou.

— Deixei a Lívia na escola agora há pouco.

— Ela atendeu o telefone toda animada — comentou, rindo. — Aquela menina é a coisa mais doce da minha vida.

Sorri automaticamente.

— Ela estava empolgada hoje.

— Gustavo… — o tom dela mudou, mais cuidadoso. — Seu pai e eu queríamos saber se podemos ir para sua casa alguns dias antes do aniversário dela.

— Claro que podem. Vocês nunca precisam pedir permissão — respondi, sincero.

— Eu sei, mas é que não queremos atrapalhar sua rotina.

— A presença de vocês nunca atrapalha — garanti. — A Lívia vai amar ter os avós por perto.

— Só não conte nada a ela, queremos fazer surpresa.

— Prometo manter segredo — disse, lembrando da conversa no carro e entendendo, finalmente, o entusiasmo da minha filha.

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