Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena quase não dormiu.
Depois de colocar Sofia na cama e esperar que a filha adormecesse, passou boa parte da madrugada fazendo contas na mesa da cozinha.
Pegou um caderno velho e começou a anotar.
Aluguel.
Escola.
Medicamentos.
Mercado.
Luz.
Água.
No fim da página escreveu apenas um número.
R$ 182.000,00.
Era a estimativa mais otimista para a cirurgia de Sofia.
Ela encarou aqueles algarismos por vários minutos.
Pareciam impossíveis.
Mesmo que conseguisse outro emprego imediatamente, levaria anos para juntar aquela quantia.
Anos que sua filha talvez não tivesse.
Com um suspiro cansado, fechou o caderno.
Não havia tempo para sentir pena de si mesma.
Precisava seguir em frente.
Na manhã seguinte, Marina apareceu pontualmente às oito horas.
Entrou no apartamento carregando duas xícaras de café e um saco de pão de queijo.
— Você está péssima.
Helena soltou uma risada fraca.
— Bom dia para você também.
— Não estou brincando.
Você tem olheiras.
— Dormir virou um luxo.
Marina olhou discretamente para Sofia, que ainda assistia desenho na televisão.
— Ela está melhor?
— Sim.
Mas o médico confirmou que a cirurgia não pode esperar muito.
Marina segurou a mão da amiga.
— Você vai conseguir.
— Não sei como.
— Vai.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.
Então Marina sorriu.
— Agora toma um banho.
— Para quê?
— Porque você vai conhecer o homem mais rico... e provavelmente o mais insuportável da cidade.
Quarenta minutos depois, Helena estacionou diante de um enorme portão de ferro.
Ela nunca havia estado naquela região.
As ruas eram silenciosas.
As casas pareciam pequenos palácios.
Quando o portão começou a se abrir automaticamente, ela sentiu o estômago embrulhar.
— Meu Deus...
A mansão era gigantesca.
Jardins impecáveis.
Uma fonte de mármore no centro.
Carros importados alinhados na garagem.
Tudo parecia saído de um filme.
— Acho que peguei o endereço errado.
Marina riu.
— Não.
Bem-vinda à casa de Leonardo Montenegro.
Antes mesmo de entrarem, Marina segurou seu braço.
— Preciso te avisar de algumas coisas.
— Isso não parece bom.
— Porque não é.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Fala.
— O último motorista pediu demissão depois de três semanas.
— Só isso?
— A cozinheira ficou dois meses.
— E a governanta?
Marina fez uma careta.
— Três dias.
— Três dias?
— Ela disse que preferia voltar a trabalhar em três empregos do que passar mais uma semana aqui.
Helena começou a rir.
— Você está tentando me assustar?
— Não.
Estou tentando te preparar.
A porta principal foi aberta por uma senhora elegante de cabelos grisalhos.
— Bom dia.
Sou Clara.
Marina sorriu.
— Trouxe a candidata.
Clara analisou Helena dos pés à cabeça.
Seu olhar era firme, mas gentil.
— Entre.
Ela parece precisar mais deste emprego do que os outros candidatos.
Helena ficou surpresa.
— Dá para perceber?
Clara sorriu discretamente.
— Trabalho nesta casa há vinte e cinco anos.
Aprendi a ler as pessoas.
Enquanto caminhavam pelos corredores, Helena não conseguia esconder o espanto.
As paredes exibiam quadros antigos.
Esculturas.
Lustres enormes.
Tapetes importados.
Tudo era sofisticado.
Bonito.
Mas também...
Frio.
A casa parecia um museu.
Não havia brinquedos.
Fotos.
Flores.
Nada que lembrasse uma família.
— O senhor Montenegro mora sozinho? — perguntou.
Clara demorou alguns segundos para responder.
— Sim.
Desde que perdeu a esposa.
Helena abaixou a cabeça.
— Sinto muito.
— Todos sentimos.
Mas ele nunca foi o mesmo.
Chegaram ao escritório.
Antes que Clara batesse na porta, ouviu-se uma voz firme do outro lado.
— Entre.
Helena respirou fundo.
Quando entrou, encontrou um homem de costas, observando a cidade através da enorme janela de vidro.
Terno escuro.
Postura impecável.
Mãos cruzadas atrás do corpo.
Ele se virou lentamente.
Helena prendeu a respiração.
Era mais jovem do que imaginava.
Alto.
O rosto marcado por traços fortes.
Olhos cinzentos e intensos.
Bonito.
Bonito demais.
Mas havia algo naquele olhar que fazia qualquer pessoa manter distância.
Era como se ele tivesse construído um muro invisível ao redor de si.
Leonardo Montenegro olhou rapidamente para o currículo em sua mesa.
Depois para Helena.
— Enfermeira?
Ela assentiu.
— Sim.
— Nunca trabalhou como governanta.
— Não.
— Então por que está aqui?
A pergunta veio seca.
Sem cordialidade.
Sem interesse.
Helena respirou fundo.
— Porque preciso trabalhar.
Ele fechou a pasta.
— Essa não foi a pergunta.
Os dois se encararam.
Helena decidiu responder com sinceridade.
— Porque perdi meu emprego ontem.
Porque minha filha precisa de uma cirurgia.
Porque não posso me dar ao luxo de recusar uma oportunidade.
Pela primeira vez, Leonardo demonstrou alguma reação.
Muito discreta.
Quase imperceptível.
Mas seus olhos permaneceram fixos nela por um instante a mais.
— Filhos costumam atrapalhar a rotina de trabalho.
— A minha filha nunca atrapalha.
A resposta saiu firme.
Sem hesitação.
Leonardo arqueou uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— E quem cuida dela enquanto trabalha?
— Eu.
— O dia inteiro?
— Sempre dei um jeito.
Ele fechou novamente a pasta.
— Não gosto de desculpas.
— Nem eu.
Outro silêncio.
Clara observava tudo discretamente ao lado da porta.
Conhecia Leonardo o suficiente para saber que nenhuma entrevista durava tanto.
Normalmente, ele dispensava os candidatos em menos de cinco minutos.
Já haviam passado quase quinze.
Leonardo caminhou até a mesa.
Pegou um contrato.
— O trabalho exige dedicação integral.
Você morará na propriedade.
Folgas quinzenais.
Sigilo absoluto.
Disponibilidade.
Aceita?
Helena hesitou.
— Eu tenho uma filha.
Ele levantou os olhos.
— Imaginei.
— Não tenho com quem deixá-la.
Leonardo apenas respondeu:
— Então não serve para o cargo.
As palavras foram como um soco.
Helena respirou fundo.
— Entendo.
Pegou sua bolsa.
— Obrigada pelo seu tempo.
Virou-se para sair.
Mas, antes que alcançasse a porta, Clara falou pela primeira vez desde o início da entrevista.
— Senhor Montenegro...
Ele a encarou.
— A antiga ala dos funcionários continua vazia.
Silêncio.
— E?
— Há espaço suficiente para duas pessoas.
Leonardo permaneceu imóvel.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então ele voltou a olhar para Helena.
Seu rosto continuava completamente impassível.
— Traga sua filha amanhã às nove horas.
Helena piscou, surpresa.
— Isso significa...
— Significa que terá um período de experiência de trinta dias.
Se sua vida particular interferir no meu trabalho, ambas irão embora imediatamente.
Helena sentiu um nó se formar na garganta.
Era a primeira boa notícia desde a demissão.
— Obrigada.
Leonardo apenas voltou a olhar para os documentos sobre a mesa.
— Não me agradeça ainda.
Você ainda não começou a trabalhar para mim.
E Helena sairia daquela mansão sem imaginar que aquele homem frio, que mal suportava a presença de outras pessoas, seria justamente aquele que, um dia, faria de tudo para conquistar o sorriso da pequena Sofia.







