Início / Romance / Um pai para a minha filha / Capítulo 2 — Coração Valente
Capítulo 2 — Coração Valente

O trajeto até a escola nunca pareceu tão longo.

Helena apertava o volante com tanta força que os dedos ficaram brancos. Cada semáforo vermelho parecia uma afronta, cada carro lento, um obstáculo entre ela e a filha.

— Anda... anda... — murmurou, batendo os dedos no volante.

Assim que estacionou, saiu praticamente correndo.

A coordenadora já a esperava na recepção.

— Senhora Helena...

— Onde ela está?

— Na enfermaria.

Helena nem respondeu. Seguiu pelo corredor até encontrar a pequena sala.

Sofia estava deitada na maca, pálida, mas acordada.

Quando a viu entrar, abriu um sorriso.

— Mamãe...

Helena respirou pela primeira vez desde que recebera a ligação.

Abraçou a filha com cuidado.

— Meu amor... você me matou de susto.

— Foi só uma dorzinha.

— Dorzinha?

Ela segurou o rostinho da menina entre as mãos.

— Onde doeu?

Sofia apontou para o peito.

— Aqui.

O sorriso de Helena desapareceu.

A enfermeira da escola aproximou-se.

— Ela reclamou de falta de ar durante a aula de educação física. Preferimos chamar a senhora imediatamente.

Helena assentiu.

— Obrigada.

Pegou Sofia no colo, mesmo sabendo que ela já estava grande demais para isso.

A menina apoiou a cabeça em seu ombro.

— Eu estraguei seu trabalho?

A pergunta fez Helena fechar os olhos.

— Não, meu amor.

Você nunca estraga nada.

Jamais.


Quarenta minutos depois, estavam no Hospital São Miguel.

O cardiologista que acompanhava Sofia desde pequena pediu novos exames.

Enquanto a menina fazia um eletrocardiograma, Helena caminhava de um lado para o outro da sala de espera.

Conhecia aquele corredor como conhecia a própria casa.

As paredes claras.

O cheiro de álcool.

O som dos monitores.

As crianças correndo.

Os pais tentando parecer fortes.

Ali, todos escondiam algum medo.

O celular vibrou.

Era uma mensagem do banco.

Saldo disponível: R$ 1.284,37.

Helena soltou uma risada amarga.

Só a última consulta particular custara quase metade daquele valor.

E agora havia perdido o emprego.

Ela fechou os olhos.

— Um problema de cada vez.


— Senhora Helena?

O chamado do médico interrompeu seus pensamentos.

Dr. Augusto entrou na sala segurando uma pasta.

Seu semblante era sério.

— Os exames mostram que houve uma pequena piora.

Helena sentiu o coração acelerar.

— Piora?

Ele assentiu.

— A medicação já não está respondendo como antes.

Ela ficou em silêncio.

Conhecia aquele tom.

Médicos só falavam assim quando tentavam preparar uma família para notícias difíceis.

— O que isso significa?

O cardiologista respirou fundo.

— Está chegando a hora da cirurgia.

As palavras pairaram no ar.

Helena sabia que aquele momento existiria.

Desde o diagnóstico.

Mas ouvir aquilo transformava um medo distante em realidade.

— Quanto tempo nós temos?

— Talvez alguns meses.

Talvez menos.

Depende de como o coração dela reagirá.

Helena passou a mão pelo rosto.

— Quanto custa?

O médico hesitou.

— Pelo SUS é possível conseguir, mas a fila...

Ela já conhecia a resposta.

A fila podia levar anos.

Anos que Sofia talvez não tivesse.

— Particular?

— Entre cento e cinquenta e duzentos mil reais, considerando cirurgia, internação e recuperação.

Helena perdeu o ar.

Era um valor impossível.

Ela não conseguiria juntar aquilo nem trabalhando a vida inteira.


Quando voltou ao quarto, encontrou Sofia desenhando em uma folha entregue por uma enfermeira.

— Olha, mamãe!

Helena forçou um sorriso.

— O que você desenhou?

A menina mostrou o papel.

Era uma casa.

Duas pessoas de mãos dadas.

E um homem alto ao lado delas.

Helena franziu a testa.

— Quem é ele?

Sofia inclinou a cabeça.

— Não sei.

— Não sabe?

— Acho que é um pai.

Helena engoliu em seco.

— Por que desenhou um pai?

A menina deu de ombros.

— Porque todo mundo desenha.

Silêncio.

Depois acrescentou, inocentemente:

— Mas eu não sei como é ter um.

Aquelas palavras atingiram Helena de um jeito que nenhuma conta atrasada jamais conseguiria.

Ela segurou o desenho com cuidado.

Sentou-se na cama.

Abraçou Sofia.

— Você sente falta?

A menina demorou alguns segundos para responder.

— Não.

Outra pausa.

— Mas às vezes eu fico imaginando como seria.

Helena mordeu o lábio para impedir que as lágrimas escapassem.

Rafael nunca ligara.

Nunca perguntara pela filha.

Nunca enviara uma única mensagem.

E, mesmo assim, Sofia ainda sonhava com algo que jamais conhecera.


Na saída do hospital, já passava das seis da tarde.

Helena caminhava lentamente pelo estacionamento, segurando a mão da filha.

A cabeça girava em torno de um único pensamento.

Duzentos mil reais.

Como conseguiria aquele dinheiro?

Enquanto acomodava Sofia no banco traseiro do carro, o celular tocou novamente.

Era Marina.

Sua melhor amiga.

— Helena, você está ocupada?

— Acabei de sair do hospital.

— Meu Deus... aconteceu alguma coisa?

— Depois eu explico.

Houve um breve silêncio.

— Escuta... talvez eu tenha encontrado uma oportunidade de emprego para você.

Helena fechou a porta do carro.

— Eu aceito qualquer coisa.

— Tem certeza?

— Marina...

— Eu realmente aceito qualquer coisa.

Do outro lado da linha, a amiga respirou fundo antes de responder:

— Então amanhã de manhã venha comigo. Um dos empresários mais ricos da cidade está procurando uma governanta para morar na mansão dele.

Helena franziu a testa.

— Governanta?

— O salário é alto. Muito alto.

— E qual é o problema?

Marina riu sem humor.

— O dono da casa.

— Ele é tão ruim assim?

A resposta veio imediata.

— Dizem que trabalhar para Leonardo Montenegro é um pesadelo.

Helena olhou pelo retrovisor.

Sofia dormia profundamente na cadeirinha, abraçada ao desenho da casinha.

Ela voltou a olhar para a estrada.

Naquele momento, não tinha o luxo de escolher.

Mesmo que aquele homem fosse o pior patrão do mundo.

Ela precisava salvar a vida da filha.

E, sem saber, acabara de aceitar o primeiro passo rumo ao homem que mudaria o destino das duas para sempre.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App