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Um pai para a minha filha
Um pai para a minha filha
Por: Rowan Ash
Capítulo 1 — A ligação que mudou tudo

O despertador tocou às cinco e meia da manhã.

Helena Duarte já estava acordada.

Dormira pouco mais de três horas. O teto do pequeno apartamento ainda estava mergulhado na escuridão quando ela se levantou da cama, caminhando na ponta dos pés para não acordar a única pessoa que fazia todo aquele cansaço valer a pena.

Empurrou devagar a porta do quarto.

Sofia dormia abraçada ao velho coelho de pelúcia que ganhara ainda bebê. Os cabelos castanhos estavam espalhados pelo travesseiro, e um pequeno sorriso enfeitava seu rosto, como se estivesse vivendo um sonho muito melhor do que a realidade que as esperava.

Helena afastou uma mecha do rosto da filha.

— Dorme mais um pouquinho, meu amor...

Beijou sua testa.

Por alguns segundos, ficou apenas observando aquela menina de seis anos, tão pequena e, ao mesmo tempo, tão forte.

Ninguém imaginaria que aquele coraçãozinho carregava uma cardiopatia congênita desde o nascimento.

Ela também não imaginava.

Descobriu quando Sofia tinha apenas oito meses.

Desde então, consultas, exames e internações passaram a fazer parte da rotina das duas.

Mas Sofia nunca reclamava.

Era como se a menina tivesse nascido sabendo sorrir, mesmo quando o mundo insistia em machucá-la.

Helena respirou fundo.

Ainda precisava preparar o café, separar a mochila da escola e correr para o primeiro emprego.

O segundo começaria às cinco da tarde.

Aquele era o único jeito de manter as contas em dia.

Ou, pelo menos, tentar.


— Mamãe...

Helena virou-se ao ouvir a voz sonolenta.

— Já acordou?

— Você vai trabalhar de novo?

Ela sorriu, escondendo o peso da culpa.

— Vou.

— Você trabalha muito.

— E sabe por quê?

Sofia fez um biquinho.

— Porque eu gosto de comprar sorvete?

Helena riu.

— Também.

A menina abriu um sorriso orgulhoso.

— Eu sabia.

Enquanto preparava panquecas, Helena observava Sofia desenhar na mesa da cozinha.

A folha estava cheia de corações.

No centro, havia duas meninas de mãos dadas.

— Cadê o papai? — perguntou Helena, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa.

Sofia deu de ombros.

— Não cabe.

A resposta atingiu Helena como uma faca.

Não havia tristeza na voz da filha.

Nem curiosidade.

Nem ressentimento.

Apenas naturalidade.

Porque, para Sofia, nunca existira um pai.


Às sete e meia, Helena deixou a filha na escola.

Antes de entrar, Sofia correu de volta.

— Esqueci.

— O quê?

A menina segurou seu rosto entre as pequenas mãos.

— Beijo da sorte.

Helena fechou os olhos enquanto recebia um beijo estalado na bochecha.

— Agora você vai ter um dia bom.

— Espero que sim.

— Vai sim.

Sofia saiu correndo.

Helena ficou olhando até vê-la desaparecer pelo corredor.

Então entrou no carro velho, que insistia em continuar funcionando graças a milagres e muita fita adesiva.


O hospital municipal já estava lotado.

Helena mal teve tempo de guardar a bolsa quando a supervisora apareceu.

— Helena, preciso falar com você.

Ela percebeu imediatamente que havia algo errado.

A mulher evitava seu olhar.

— A direção decidiu cortar funcionários.

Helena sentiu o estômago afundar.

— Cortar?

— Infelizmente...

Silêncio.

— Você está entre eles.

As palavras ecoaram por alguns segundos.

Helena piscou.

Achou que tinha ouvido errado.

— Eu... fui demitida?

A supervisora assentiu.

— Não foi por desempenho.

É a redução de custos.

Receberá todos os seus direitos.

Helena não respondeu.

Olhou ao redor.

Os corredores.

Os pacientes.

Os colegas.

Cinco anos.

Cinco anos trabalhando ali.

Cinco anos sem faltar um único plantão importante.

Cinco anos dobrando turnos.

E tudo terminava em menos de dois minutos.

— Sinto muito.

Ela apenas assentiu.

Não queria chorar ali.

Não podia.


Uma hora depois, Helena caminhava pela calçada, segurando uma caixa de papelão com seus poucos pertences.

Um porta-retrato de Sofia.

Uma caneca.

Algumas canetas.

O crachá.

Nada mais.

O celular vibrou.

Era a escola.

Seu coração acelerou.

— Alô?

— Senhora Helena?

— Sim.

— Precisamos que venha buscar Sofia imediatamente.

Ela apertou a caixa contra o peito.

— Aconteceu alguma coisa?

— Ela reclamou de dor no peito durante a aula.

Por um instante, o mundo inteiro pareceu perder o som.

Os carros.

As pessoas.

O vento.

Tudo desapareceu.

Restou apenas o medo.

O mesmo medo que a acompanhava desde que ouvira o diagnóstico da filha pela primeira vez.

Helena deixou a caixa cair no chão e correu para o carro.

Enquanto girava a chave na ignição, murmurou uma única frase, como uma oração desesperada:

— Por favor, Deus... não hoje.

Porque ela podia suportar perder um emprego.

Podia suportar contas atrasadas.

Podia suportar noites sem dormir.

Mas não suportaria perder a única pessoa que fazia sua vida ter sentido.

E, naquele momento, ela ainda não fazia ideia de que aquela ligação marcaria o início da maior transformação de suas vidas — e que, em algum lugar da cidade, um homem chamado Leonardo Montenegro estava prestes a cruzar seus caminhos de uma forma que nenhum dos dois poderia prever.

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