Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena mal conseguiu dormir naquela noite.
A proposta de Leonardo Montenegro parecia boa demais para ser verdade.
Um salário alto.
Moradia.
Estabilidade.
Tudo aquilo de que ela precisava desesperadamente.
Mas havia um detalhe que a impedia de relaxar.
O homem.
Ela nunca conhecera alguém capaz de transmitir tanta frieza apenas com um olhar.
Ainda assim, não podia recusar.
Pela Sofia.
Sempre pela Sofia.
— A gente vai morar num castelo? — perguntou Sofia, sentada no banco de trás do carro.
Helena sorriu.
— Não é um castelo.
— Tem princesa?
— Acho que não.
— Dragão?
— Também não.
Sofia cruzou os braços.
— Então não é um castelo de verdade.
Helena riu pela primeira vez em dias.
— Talvez tenha um rei mal-humorado.
— Rei bravo?
— Muito bravo.
— Então eu faço ele rir.
Helena olhou pelo retrovisor.
— Não tenho tanta certeza disso.
Às nove horas em ponto, o portão da mansão se abriu novamente.
Henrique, o motorista da casa, já esperava por elas.
— Bom dia, dona Helena.
— Bom dia.
Henrique abaixou-se na altura de Sofia.
— E quem é essa mocinha?
Ela sorriu.
— Eu sou a Sofia.
— Muito prazer.
— Você dirige esse carrão?
— Todos os dias.
Os olhos da menina brilharam.
— Quando eu crescer, quero dirigir um igual.
Henrique riu.
— Então já temos uma futura motorista.
Enquanto caminhavam até a entrada principal, Sofia olhava para todos os lados.
A fonte.
As flores.
Os enormes jardins.
— Mamãe...
— Hum?
— Aqui mora um rei mesmo.
Clara as recebeu com um sorriso discreto.
— Seja bem-vinda, Helena.
E você também, Sofia.
A menina imediatamente estendeu um desenho.
— É pra você.
Clara piscou, surpresa.
— Para mim?
— Fiz no carro.
No papel havia uma senhora de cabelos grisalhos cercada por flores enormes.
Em letras tortas estava escrito:
"Pra Dona Clara."
Os olhos da governanta se encheram de lágrimas.
— Faz muitos anos que ninguém me dá um desenho.
Sofia sorriu satisfeita.
— Agora deu.
Helena observou a cena em silêncio.
Era impressionante como a filha conseguia conquistar as pessoas sem fazer esforço.
Clara conduziu as duas até a ala dos funcionários.
Ao contrário do restante da mansão, aquele espaço era acolhedor.
Havia uma pequena sala, cozinha, banheiro e dois quartos.
Tudo muito organizado.
— Este será o apartamento de vocês.
Sofia entrou correndo.
— Mamãe!
Tem uma janela enorme!
Ela correu para um quarto.
Depois para o outro.
— Posso dormir naquele?
— Claro.
— Posso colocar meus desenhos na parede?
Helena olhou para Clara.
— Pode?
A governanta sorriu.
— Desde que não use fita diretamente na pintura.
Sofia levantou os braços em comemoração.
— Eu amei!
Enquanto desfazia algumas malas, Clara explicou a rotina.
— O senhor Montenegro acorda às cinco.
Café às seis.
Sai às sete e meia.
Almoça em casa apenas duas vezes por semana.
Janta sempre às oito da noite.
Helena anotava tudo.
— Ele recebe muitas visitas?
— Apenas reuniões de trabalho.
— Amigos?
Clara ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não.
— Família?
— A mãe mora em outra propriedade.
Raramente aparece.
— E... ele costuma conversar?
Clara soltou uma pequena risada.
— Quando necessário.
Pouco antes das dez horas, Clara ficou séria.
— Há algumas regras.
Helena fechou o caderno.
— Pode falar.
— A primeira: o escritório é proibido.
Ninguém entra sem autorização.
— Certo.
— Segunda: silêncio após as dez da noite.
— Entendido.
— Terceira: o senhor Montenegro não gosta de interrupções.
Se estiver trabalhando, ninguém o incomoda.
— Nem em caso de emergência?
— Apenas se o mundo estiver acabando.
Sofia, que desenhava sentada no chão, levantou a cabeça.
— E se aparecer um dinossauro?
Clara segurou o riso.
— Acho que essa também seria uma emergência.
A menina assentiu, satisfeita.
— Bom saber.
Mais tarde, Helena começou seu primeiro dia de trabalho.
Clara mostrou toda a casa.
A cozinha.
A biblioteca.
A sala de música.
A adega.
O jardim de inverno.
Cada ambiente parecia impecável.
Nenhum objeto fora do lugar.
Era como se ninguém realmente morasse ali.
— Esta casa sempre foi assim? — perguntou Helena.
Clara parou por um instante.
— Não.
Antes era cheia de vida.
— O que aconteceu?
A governanta olhou pela enorme janela.
— A esposa do senhor Montenegro adorava música.
Flores.
Jantares.
Ela transformava esta casa em um lar.
Quando morreu...
Clara não terminou a frase.
Não precisava.
Helena compreendeu.
A mansão continuava bonita.
Mas perdera a alma.
Na hora do almoço, Sofia ficou na pequena copa dos funcionários desenhando enquanto Helena ajudava Clara a organizar a cozinha.
— Sua filha é muito tranquila — comentou a governanta.
— Sempre foi.
— Não reclama da doença?
Helena abaixou os olhos.
— Ela acha que hospital faz parte da vida.
Clara suspirou.
— Crianças deveriam se preocupar apenas com brinquedos.
— Também acho.
Naquele mesmo instante, do outro lado da casa, Leonardo encerrava uma videoconferência.
Seu secretário apareceu à porta.
— Senhor.
— O quê?
— A nova funcionária já chegou.
— Espero que saiba seguir ordens.
O secretário hesitou.
— A filha dela também está aqui.
Leonardo fechou lentamente o notebook.
— Eu sei.
— Quer que providencie alguma restrição?
— Não.
Silêncio.
— Mas deixe claro que não admitirei bagunça.
— Sim, senhor.
Assim que ficou sozinho, Leonardo caminhou até a janela.
Lá embaixo, no jardim, viu uma menina correndo atrás de uma borboleta.
Pequena.
De vestido amarelo.
Rindo como se o mundo inteiro lhe pertencesse.
Ele desviou o olhar imediatamente.
Não gostava de crianças.
Nunca gostara.
Faziam barulho.
Bagunça.
Criavam vínculos.
E vínculos sempre terminavam em dor.
Sem pensar mais no assunto, voltou ao trabalho.
Não percebeu que, no exato momento em que fechava as cortinas do escritório, Sofia levantava a cabeça e olhava para aquela mesma janela.
— Mamãe...
Helena virou-se.
— O que foi?
A menina apontou para o segundo andar.
— Acho que o rei bravo mora ali.
Helena sorriu.
— E é melhor a gente deixar o rei trabalhar.
Sofia fez uma careta divertida.
— Só por enquanto.
Porque, na cabeça da pequena, ninguém podia ser bravo para sempre.
E, pela primeira vez em muitos anos, havia alguém naquela casa disposto a desafiar o silêncio que Leonardo Montenegro construíra ao redor do próprio coração.







