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Capítulo 4 — Regras da Casa

Helena mal conseguiu dormir naquela noite.

A proposta de Leonardo Montenegro parecia boa demais para ser verdade.

Um salário alto.

Moradia.

Estabilidade.

Tudo aquilo de que ela precisava desesperadamente.

Mas havia um detalhe que a impedia de relaxar.

O homem.

Ela nunca conhecera alguém capaz de transmitir tanta frieza apenas com um olhar.

Ainda assim, não podia recusar.

Pela Sofia.

Sempre pela Sofia.


— A gente vai morar num castelo? — perguntou Sofia, sentada no banco de trás do carro.

Helena sorriu.

— Não é um castelo.

— Tem princesa?

— Acho que não.

— Dragão?

— Também não.

Sofia cruzou os braços.

— Então não é um castelo de verdade.

Helena riu pela primeira vez em dias.

— Talvez tenha um rei mal-humorado.

— Rei bravo?

— Muito bravo.

— Então eu faço ele rir.

Helena olhou pelo retrovisor.

— Não tenho tanta certeza disso.


Às nove horas em ponto, o portão da mansão se abriu novamente.

Henrique, o motorista da casa, já esperava por elas.

— Bom dia, dona Helena.

— Bom dia.

Henrique abaixou-se na altura de Sofia.

— E quem é essa mocinha?

Ela sorriu.

— Eu sou a Sofia.

— Muito prazer.

— Você dirige esse carrão?

— Todos os dias.

Os olhos da menina brilharam.

— Quando eu crescer, quero dirigir um igual.

Henrique riu.

— Então já temos uma futura motorista.

Enquanto caminhavam até a entrada principal, Sofia olhava para todos os lados.

A fonte.

As flores.

Os enormes jardins.

— Mamãe...

— Hum?

— Aqui mora um rei mesmo.


Clara as recebeu com um sorriso discreto.

— Seja bem-vinda, Helena.

E você também, Sofia.

A menina imediatamente estendeu um desenho.

— É pra você.

Clara piscou, surpresa.

— Para mim?

— Fiz no carro.

No papel havia uma senhora de cabelos grisalhos cercada por flores enormes.

Em letras tortas estava escrito:

"Pra Dona Clara."

Os olhos da governanta se encheram de lágrimas.

— Faz muitos anos que ninguém me dá um desenho.

Sofia sorriu satisfeita.

— Agora deu.

Helena observou a cena em silêncio.

Era impressionante como a filha conseguia conquistar as pessoas sem fazer esforço.


Clara conduziu as duas até a ala dos funcionários.

Ao contrário do restante da mansão, aquele espaço era acolhedor.

Havia uma pequena sala, cozinha, banheiro e dois quartos.

Tudo muito organizado.

— Este será o apartamento de vocês.

Sofia entrou correndo.

— Mamãe!

Tem uma janela enorme!

Ela correu para um quarto.

Depois para o outro.

— Posso dormir naquele?

— Claro.

— Posso colocar meus desenhos na parede?

Helena olhou para Clara.

— Pode?

A governanta sorriu.

— Desde que não use fita diretamente na pintura.

Sofia levantou os braços em comemoração.

— Eu amei!


Enquanto desfazia algumas malas, Clara explicou a rotina.

— O senhor Montenegro acorda às cinco.

Café às seis.

Sai às sete e meia.

Almoça em casa apenas duas vezes por semana.

Janta sempre às oito da noite.

Helena anotava tudo.

— Ele recebe muitas visitas?

— Apenas reuniões de trabalho.

— Amigos?

Clara ficou em silêncio por alguns segundos.

— Não.

— Família?

— A mãe mora em outra propriedade.

Raramente aparece.

— E... ele costuma conversar?

Clara soltou uma pequena risada.

— Quando necessário.


Pouco antes das dez horas, Clara ficou séria.

— Há algumas regras.

Helena fechou o caderno.

— Pode falar.

— A primeira: o escritório é proibido.

Ninguém entra sem autorização.

— Certo.

— Segunda: silêncio após as dez da noite.

— Entendido.

— Terceira: o senhor Montenegro não gosta de interrupções.

Se estiver trabalhando, ninguém o incomoda.

— Nem em caso de emergência?

— Apenas se o mundo estiver acabando.

Sofia, que desenhava sentada no chão, levantou a cabeça.

— E se aparecer um dinossauro?

Clara segurou o riso.

— Acho que essa também seria uma emergência.

A menina assentiu, satisfeita.

— Bom saber.


Mais tarde, Helena começou seu primeiro dia de trabalho.

Clara mostrou toda a casa.

A cozinha.

A biblioteca.

A sala de música.

A adega.

O jardim de inverno.

Cada ambiente parecia impecável.

Nenhum objeto fora do lugar.

Era como se ninguém realmente morasse ali.

— Esta casa sempre foi assim? — perguntou Helena.

Clara parou por um instante.

— Não.

Antes era cheia de vida.

— O que aconteceu?

A governanta olhou pela enorme janela.

— A esposa do senhor Montenegro adorava música.

Flores.

Jantares.

Ela transformava esta casa em um lar.

Quando morreu...

Clara não terminou a frase.

Não precisava.

Helena compreendeu.

A mansão continuava bonita.

Mas perdera a alma.


Na hora do almoço, Sofia ficou na pequena copa dos funcionários desenhando enquanto Helena ajudava Clara a organizar a cozinha.

— Sua filha é muito tranquila — comentou a governanta.

— Sempre foi.

— Não reclama da doença?

Helena abaixou os olhos.

— Ela acha que hospital faz parte da vida.

Clara suspirou.

— Crianças deveriam se preocupar apenas com brinquedos.

— Também acho.


Naquele mesmo instante, do outro lado da casa, Leonardo encerrava uma videoconferência.

Seu secretário apareceu à porta.

— Senhor.

— O quê?

— A nova funcionária já chegou.

— Espero que saiba seguir ordens.

O secretário hesitou.

— A filha dela também está aqui.

Leonardo fechou lentamente o notebook.

— Eu sei.

— Quer que providencie alguma restrição?

— Não.

Silêncio.

— Mas deixe claro que não admitirei bagunça.

— Sim, senhor.

Assim que ficou sozinho, Leonardo caminhou até a janela.

Lá embaixo, no jardim, viu uma menina correndo atrás de uma borboleta.

Pequena.

De vestido amarelo.

Rindo como se o mundo inteiro lhe pertencesse.

Ele desviou o olhar imediatamente.

Não gostava de crianças.

Nunca gostara.

Faziam barulho.

Bagunça.

Criavam vínculos.

E vínculos sempre terminavam em dor.

Sem pensar mais no assunto, voltou ao trabalho.

Não percebeu que, no exato momento em que fechava as cortinas do escritório, Sofia levantava a cabeça e olhava para aquela mesma janela.

— Mamãe...

Helena virou-se.

— O que foi?

A menina apontou para o segundo andar.

— Acho que o rei bravo mora ali.

Helena sorriu.

— E é melhor a gente deixar o rei trabalhar.

Sofia fez uma careta divertida.

— Só por enquanto.

Porque, na cabeça da pequena, ninguém podia ser bravo para sempre.

E, pela primeira vez em muitos anos, havia alguém naquela casa disposto a desafiar o silêncio que Leonardo Montenegro construíra ao redor do próprio coração.

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