Mundo ficciónIniciar sesiónA primeira manhã de trabalho começou antes do nascer do sol.
Às cinco horas, Helena já estava de pé.
Vestiu o uniforme que Clara lhe entregara na noite anterior, prendeu os cabelos em um coque e foi até o quarto da filha.
Sofia dormia profundamente.
O peito subia e descia em um ritmo tranquilo, e, por um instante, Helena apenas a observou.
Naquela casa enorme, pela primeira vez em muito tempo, a filha tinha um quarto só para ela.
Talvez aquele fosse o começo de uma nova vida.
Ela rezava para que fosse.
Na cozinha principal, Clara já organizava a mesa do café.
— Pontual. Gostei.
Helena sorriu.
— Sempre fui.
— O senhor Montenegro também.
Ela apontou para o relógio.
— Às seis em ponto ele desce.
Às seis e cinco já estará saindo da mesa.
Às seis e cinquenta entra no escritório.
Às sete e meia deixa a casa.
Nunca atrasa um minuto.
Helena arregalou os olhos.
— Tudo isso?
— Depois de vinte e cinco anos trabalhando para ele, aprendi que o relógio desta casa gira conforme a rotina do patrão.
Poucos minutos depois, ouviu-se passos na escada.
Firmes.
Lentos.
Precisos.
Leonardo apareceu usando uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços e uma calça social escura.
Sem gravata.
Mesmo assim, parecia impecável.
Ele fez um leve aceno para Clara.
— Bom dia.
— Bom dia, senhor.
Seus olhos passaram rapidamente por Helena.
— Já começou?
— Sim, senhor.
— Ótimo.
Sentou-se à mesa e abriu um jornal.
Nenhum bom-dia.
Nenhuma pergunta.
O silêncio reinou durante todo o café.
Helena nunca tinha visto alguém tomar café da manhã como se estivesse participando de uma reunião de negócios.
Cada movimento era calculado.
Cada minuto parecia cronometrado.
Quando terminou a segunda xícara de café, Leonardo levantou-se.
— Clara.
— Sim?
— Às dez terei uma reunião com investidores.
Não quero interrupções.
— Entendido.
Ele já caminhava em direção à porta quando parou.
Sem se virar, disse:
— Helena.
— Sim?
— Na minha ausência, cuide da casa.
Não da minha vida.
Ela franziu a testa.
— Desculpe?
Leonardo virou apenas o rosto.
— Não gosto de funcionários curiosos.
Depois saiu.
A porta fechou-se atrás dele.
Helena permaneceu alguns segundos imóvel.
— Ele fala assim com todo mundo? — perguntou baixinho.
Clara soltou um suspiro.
— Hoje ele até foi educado.
Enquanto organizava a sala principal, Helena percebeu que quase todos os móveis possuíam uma fina camada de poeira.
Estranhou.
Uma casa tão limpa e, ao mesmo tempo, tão pouco usada.
Ao chegar à biblioteca, encontrou centenas de livros perfeitamente alinhados.
Nenhum parecia ter sido retirado da estante recentemente.
Na sala de música, um piano de cauda ocupava o centro do ambiente.
As teclas brilhavam.
Mas estavam silenciosas.
Ela passou delicadamente a mão sobre a madeira.
— Há quanto tempo ninguém toca?
— Cinco anos.
Helena virou-se.
Clara estava parada à porta.
— Era da esposa dele?
A governanta assentiu.
— Dona Beatriz tocava todas as tardes.
A casa inteira ficava cheia de música.
Agora...
Ela olhou para o instrumento.
— Agora ele permanece fechado.
Helena sentiu um aperto no peito.
A mansão não era apenas silenciosa.
Era uma casa que parecia ter parado no tempo.
No outro lado da propriedade, Sofia brincava no jardim sob os cuidados de Henrique.
Sentada na grama, desenhava flores enquanto conversava com o motorista.
— Você mora aqui?
— Não.
Venho trabalhar todos os dias.
— Então você vai embora quando escurece?
— Vou.
Sofia fez uma careta.
— Eu não.
Henrique riu.
— Gostou daqui?
Ela olhou para a mansão.
— Gostei.
Só acho que falta cor.
— Cor?
— É.
Parece que ninguém sorri.
Henrique ficou em silêncio.
Até uma criança percebia aquilo.
Pouco antes do almoço, Helena foi levar alguns documentos ao escritório.
Bateu duas vezes.
Nenhuma resposta.
Esperou alguns segundos.
Bateu novamente.
— Entre.
Ela abriu a porta apenas o suficiente para entregar a pasta.
Leonardo estava sentado diante de três telas de computador.
O escritório parecia uma extensão dele.
Organizado.
Frio.
Sem fotografias.
Sem objetos pessoais.
Apenas trabalho.
— Clara pediu que eu entregasse estes contratos.
Ele estendeu a mão sem desviar os olhos da tela.
Quando Helena se aproximou, uma folha escorregou da pasta e caiu no chão.
Ela se abaixou para pegá-la.
No mesmo instante, viu uma moldura caída ao lado da estante.
A fotografia estava virada para baixo.
Antes que pudesse olhar, a voz de Leonardo ecoou pelo escritório.
— Não toque nisso.
Ela levantou imediatamente.
— Desculpe.
Ele se levantou pela primeira vez desde que ela entrara.
Pegou a moldura antes dela.
Com extremo cuidado.
Como se segurasse algo muito frágil.
Depois a colocou dentro da gaveta da mesa.
Trancou-a.
Helena percebeu algo curioso.
Pela primeira vez, a expressão dele mudou.
Não era raiva.
Era dor.
Profunda.
Silenciosa.
Mas desapareceu tão rapidamente quanto surgiu.
— Pode voltar ao trabalho.
Ela apenas assentiu.
Antes de sair, porém, criou coragem.
— Senhor Montenegro...
Ele levantou os olhos.
— Sim?
— Sinto muito pela sua perda.
O escritório mergulhou em um silêncio absoluto.
Leonardo permaneceu imóvel.
Durante alguns segundos, Helena pensou que seria demitida.
Então ele respondeu, em uma voz muito mais baixa do que antes:
— Eu também.
Foi a primeira frase verdadeiramente humana que ela ouvira daquele homem.
Naquela tarde, enquanto organizava seu novo quarto, Sofia encontrou um vaso vazio perto da janela.
Correu até o jardim, colheu uma pequena margarida caída no gramado e a colocou dentro dele.
Quando terminou, sorriu satisfeita.
— Pronto.
Clara apareceu na porta.
— O que está fazendo?
— A casa estava triste.
Agora tem uma flor.
A governanta olhou para a pequena margarida.
Depois para a menina.
E, pela primeira vez em muitos anos, imaginou que talvez aquela criança estivesse certa.
Talvez não fosse a casa que precisasse de flores.
Talvez fosse o homem que vivia dentro dela.







