Mundo de ficçãoIniciar sessãoDurante cinco anos, Helena Duarte fez de tudo para dar uma vida digna à pequena Sofia. Trabalhando em dois empregos, ela nunca precisou da ajuda do homem que abandonou as duas antes mesmo do nascimento da menina. Quando Sofia é diagnosticada com uma doença que exige um tratamento caro, Helena aceita um emprego como governanta na mansão de Leonardo Montenegro, um empresário viúvo conhecido pela frieza e pela obsessão pelo trabalho. Leonardo nunca quis filhos. Na verdade, ele sempre acreditou que não nasceu para amar ninguém. Mas Sofia invade sua rotina aos poucos: desenha no seu escritório, o chama para tomar chá de mentira e, sem perceber, começa a ocupar um espaço que ele jurava não existir em seu coração. O problema é que o pai biológico da menina reaparece justamente quando Leonardo percebe que faria qualquer coisa para protegê-la. Inclusive casar com Helena. O acordo era simples. Um casamento apenas no papel para garantir estabilidade durante o tratamento de Sofia. Só que ninguém avisou que uma garotinha de seis anos faria o impossível: Transformar um homem que nunca quis ser pai no melhor pai que ela poderia ter. E, no processo, ensinar duas pessoas machucadas que família não é feita de sangue. É feita de escolha.
Ler maisO despertador tocou às cinco e meia da manhã.
Helena Duarte já estava acordada.
Dormira pouco mais de três horas. O teto do pequeno apartamento ainda estava mergulhado na escuridão quando ela se levantou da cama, caminhando na ponta dos pés para não acordar a única pessoa que fazia todo aquele cansaço valer a pena.
Empurrou devagar a porta do quarto.
Sofia dormia abraçada ao velho coelho de pelúcia que ganhara ainda bebê. Os cabelos castanhos estavam espalhados pelo travesseiro, e um pequeno sorriso enfeitava seu rosto, como se estivesse vivendo um sonho muito melhor do que a realidade que as esperava.
Helena afastou uma mecha do rosto da filha.
— Dorme mais um pouquinho, meu amor...
Beijou sua testa.
Por alguns segundos, ficou apenas observando aquela menina de seis anos, tão pequena e, ao mesmo tempo, tão forte.
Ninguém imaginaria que aquele coraçãozinho carregava uma cardiopatia congênita desde o nascimento.
Ela também não imaginava.
Descobriu quando Sofia tinha apenas oito meses.
Desde então, consultas, exames e internações passaram a fazer parte da rotina das duas.
Mas Sofia nunca reclamava.
Era como se a menina tivesse nascido sabendo sorrir, mesmo quando o mundo insistia em machucá-la.
Helena respirou fundo.
Ainda precisava preparar o café, separar a mochila da escola e correr para o primeiro emprego.
O segundo começaria às cinco da tarde.
Aquele era o único jeito de manter as contas em dia.
Ou, pelo menos, tentar.
— Mamãe...
Helena virou-se ao ouvir a voz sonolenta.
— Já acordou?
— Você vai trabalhar de novo?
Ela sorriu, escondendo o peso da culpa.
— Vou.
— Você trabalha muito.
— E sabe por quê?
Sofia fez um biquinho.
— Porque eu gosto de comprar sorvete?
Helena riu.
— Também.
A menina abriu um sorriso orgulhoso.
— Eu sabia.
Enquanto preparava panquecas, Helena observava Sofia desenhar na mesa da cozinha.
A folha estava cheia de corações.
No centro, havia duas meninas de mãos dadas.
— Cadê o papai? — perguntou Helena, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa.
Sofia deu de ombros.
— Não cabe.
A resposta atingiu Helena como uma faca.
Não havia tristeza na voz da filha.
Nem curiosidade.
Nem ressentimento.
Apenas naturalidade.
Porque, para Sofia, nunca existira um pai.
Às sete e meia, Helena deixou a filha na escola.
Antes de entrar, Sofia correu de volta.
— Esqueci.
— O quê?
A menina segurou seu rosto entre as pequenas mãos.
— Beijo da sorte.
Helena fechou os olhos enquanto recebia um beijo estalado na bochecha.
— Agora você vai ter um dia bom.
— Espero que sim.
— Vai sim.
Sofia saiu correndo.
Helena ficou olhando até vê-la desaparecer pelo corredor.
Então entrou no carro velho, que insistia em continuar funcionando graças a milagres e muita fita adesiva.
O hospital municipal já estava lotado.
Helena mal teve tempo de guardar a bolsa quando a supervisora apareceu.
— Helena, preciso falar com você.
Ela percebeu imediatamente que havia algo errado.
A mulher evitava seu olhar.
— A direção decidiu cortar funcionários.
Helena sentiu o estômago afundar.
— Cortar?
— Infelizmente...
Silêncio.
— Você está entre eles.
As palavras ecoaram por alguns segundos.
Helena piscou.
Achou que tinha ouvido errado.
— Eu... fui demitida?
A supervisora assentiu.
— Não foi por desempenho.
É a redução de custos.
Receberá todos os seus direitos.
Helena não respondeu.
Olhou ao redor.
Os corredores.
Os pacientes.
Os colegas.
Cinco anos.
Cinco anos trabalhando ali.
Cinco anos sem faltar um único plantão importante.
Cinco anos dobrando turnos.
E tudo terminava em menos de dois minutos.
— Sinto muito.
Ela apenas assentiu.
Não queria chorar ali.
Não podia.
Uma hora depois, Helena caminhava pela calçada, segurando uma caixa de papelão com seus poucos pertences.
Um porta-retrato de Sofia.
Uma caneca.
Algumas canetas.
O crachá.
Nada mais.
O celular vibrou.
Era a escola.
Seu coração acelerou.
— Alô?
— Senhora Helena?
— Sim.
— Precisamos que venha buscar Sofia imediatamente.
Ela apertou a caixa contra o peito.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ela reclamou de dor no peito durante a aula.
Por um instante, o mundo inteiro pareceu perder o som.
Os carros.
As pessoas.
O vento.
Tudo desapareceu.
Restou apenas o medo.
O mesmo medo que a acompanhava desde que ouvira o diagnóstico da filha pela primeira vez.
Helena deixou a caixa cair no chão e correu para o carro.
Enquanto girava a chave na ignição, murmurou uma única frase, como uma oração desesperada:
— Por favor, Deus... não hoje.
Porque ela podia suportar perder um emprego.
Podia suportar contas atrasadas.
Podia suportar noites sem dormir.
Mas não suportaria perder a única pessoa que fazia sua vida ter sentido.
E, naquele momento, ela ainda não fazia ideia de que aquela ligação marcaria o início da maior transformação de suas vidas — e que, em algum lugar da cidade, um homem chamado Leonardo Montenegro estava prestes a cruzar seus caminhos de uma forma que nenhum dos dois poderia prever.
O terceiro dia na mansão começou mais tranquilo.Helena já conhecia a rotina da casa.Leonardo descia às seis.Tomava exatamente duas xícaras de café.Lia o jornal.Respondia a algumas mensagens no celular.Saía sem dizer mais do que um "bom dia".Era um homem de hábitos rígidos.E, curiosamente, aquilo facilitava o trabalho.O problema não era a rotina.Era Sofia.— Mamãe...— Oi, meu amor?— Posso explorar a casa?Helena levantou os olhos da pilha de toalhas que organizava.— Explorar?— É.Ainda não conheci tudo.Ela sorriu.— Pode passear pelo jardim.Pela biblioteca.Pela sala de brinquedos...Sofia fez uma careta.— Aqui não tem sala de brinquedos.— Verdade.— Então eu preciso achar alguma coisa interessante.Helena apontou o dedo para a filha.— Nada de subir para o segundo andar.— Por quê?— Porque lá fica o escritório do senhor Leonardo.E ninguém entra lá.Sofia franziu a testa.— Nem o rei bravo?Helena riu.— Principalmente ele.Duas horas depois...Clara e Helena organi
A primeira manhã de trabalho começou antes do nascer do sol.Às cinco horas, Helena já estava de pé.Vestiu o uniforme que Clara lhe entregara na noite anterior, prendeu os cabelos em um coque e foi até o quarto da filha.Sofia dormia profundamente.O peito subia e descia em um ritmo tranquilo, e, por um instante, Helena apenas a observou.Naquela casa enorme, pela primeira vez em muito tempo, a filha tinha um quarto só para ela.Talvez aquele fosse o começo de uma nova vida.Ela rezava para que fosse.Na cozinha principal, Clara já organizava a mesa do café.— Pontual. Gostei.Helena sorriu.— Sempre fui.— O senhor Montenegro também.Ela apontou para o relógio.— Às seis em ponto ele desce.Às seis e cinco já estará saindo da mesa.Às seis e cinquenta entra no escritório.Às sete e meia deixa a casa.Nunca atrasa um minuto.Helena arregalou os olhos.— Tudo isso?— Depois de vinte e cinco anos trabalhando para ele, aprendi que o relógio desta casa gira conforme a rotina do patrão.P
Helena mal conseguiu dormir naquela noite.A proposta de Leonardo Montenegro parecia boa demais para ser verdade.Um salário alto.Moradia.Estabilidade.Tudo aquilo de que ela precisava desesperadamente.Mas havia um detalhe que a impedia de relaxar.O homem.Ela nunca conhecera alguém capaz de transmitir tanta frieza apenas com um olhar.Ainda assim, não podia recusar.Pela Sofia.Sempre pela Sofia.— A gente vai morar num castelo? — perguntou Sofia, sentada no banco de trás do carro.Helena sorriu.— Não é um castelo.— Tem princesa?— Acho que não.— Dragão?— Também não.Sofia cruzou os braços.— Então não é um castelo de verdade.Helena riu pela primeira vez em dias.— Talvez tenha um rei mal-humorado.— Rei bravo?— Muito bravo.— Então eu faço ele rir.Helena olhou pelo retrovisor.— Não tenho tanta certeza disso.Às nove horas em ponto, o portão da mansão se abriu novamente.Henrique, o motorista da casa, já esperava por elas.— Bom dia, dona Helena.— Bom dia.Henrique abaix
Helena quase não dormiu.Depois de colocar Sofia na cama e esperar que a filha adormecesse, passou boa parte da madrugada fazendo contas na mesa da cozinha.Pegou um caderno velho e começou a anotar.Aluguel.Escola.Medicamentos.Mercado.Luz.Água.No fim da página escreveu apenas um número.R$ 182.000,00.Era a estimativa mais otimista para a cirurgia de Sofia.Ela encarou aqueles algarismos por vários minutos.Pareciam impossíveis.Mesmo que conseguisse outro emprego imediatamente, levaria anos para juntar aquela quantia.Anos que sua filha talvez não tivesse.Com um suspiro cansado, fechou o caderno.Não havia tempo para sentir pena de si mesma.Precisava seguir em frente.Na manhã seguinte, Marina apareceu pontualmente às oito horas.Entrou no apartamento carregando duas xícaras de café e um saco de pão de queijo.— Você está péssima.Helena soltou uma risada fraca.— Bom dia para você também.— Não estou brincando.Você tem olheiras.— Dormir virou um luxo.Marina olhou discret










Último capítulo