Helena levantou os olhos da pilha de toalhas que organizava.
— Explorar?
— É.
Ainda não conheci tudo.
Ela sorriu.
— Pode passear pelo jardim.
Pela biblioteca.
Pela sala de brinquedos...
Sofia fez uma careta.
— Aqui não tem sala de brinquedos.
— Verdade.
— Então eu preciso achar alguma coisa interessante.
Helena apontou o dedo para a filha.
— Nada de subir para o segundo andar.
— Por quê?
— Porque lá fica o escritório do senhor Leonardo.
E ninguém entra lá.
Sofia franziu a testa.
— Nem o rei bravo?
Helena riu.
— Principalmente ele.
Duas horas depois...
Clara e Helena organizavam a lavanderia quando perceberam um silêncio estranho.
Muito estranho.
— Cadê a Sofia? — perguntou Helena.
Clara olhou ao redor.
— Estava desenhando no jardim.
Helena caminhou até a varanda.
O cavalete de desenho continuava ali.
Mas a menina...
Havia desaparecido.
Seu coração acelerou imediatamente.
— Sofia?
Nenhuma resposta.
Ela começou a procurá-la pelos corredores.
— Sofia!
Biblioteca.
Sala de música.
Jardim.
Nada.
Henrique apareceu do lado de fora.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não encontro minha filha.
Em poucos segundos, todos começaram a procurar.
Helena já sentia o desespero tomar conta do peito.
Até ouvir uma voz infantil no andar de cima.
— Nossa...
Que janela bonita!
Ela congelou.
Segundo andar.
O escritório.
— Meu Deus...
Helena subiu as escadas correndo.
Ao chegar ao corredor, encontrou a porta do escritório entreaberta.
O coração parecia bater na garganta.
Empurrou a porta devagar.
A cena fez seu sangue gelar.
Sofia estava em pé diante da enorme janela panorâmica.
Leonardo permanecia sentado atrás da mesa, observando a menina em absoluto silêncio.
Nenhum dos dois falava.
A tensão era quase palpável.
— Sofia!
A menina virou-se sorrindo.
— Mamãe!
Olha o tamanho dessa janela!
Helena caminhou rapidamente até ela.
— Eu pedi para não subir aqui!
— Desculpa...
Eu me perdi.
Leonardo fechou lentamente o notebook.
— Ela não se perdeu.
Helena olhou para ele.
— Não?
— Ela abriu a porta.
Entrou.
Olhou tudo.
Depois perguntou se podia ver a cidade da janela.
Sofia levantou a mão.
— Eu pedi licença.
Helena fechou os olhos por um segundo.
Claro.
A filha realmente havia pedido.
Ainda assim...
— Eu sinto muito, senhor Montenegro.
Isso não vai acontecer de novo.
Leonardo permaneceu olhando para Sofia.
— Você sabe ler?
A menina sorriu orgulhosa.
— Sei.
— Então por que entrou?
Ela apontou para a placa presa na porta.
— Porque estava escrito "Escritório".
Leonardo arqueou uma sobrancelha.
— Exatamente.
— Eu queria saber como era um escritório.
O silêncio voltou.
Helena queria desaparecer.
Então Sofia fez a pergunta mais inesperada do mundo.
— Você trabalha aqui sozinho?
Leonardo respondeu automaticamente.
— Sim.
— Não é chato?
Helena quase teve um infarto.
— Sofia!
— O quê?
Eu só perguntei.
Leonardo cruzou os braços.
— Às vezes.
A resposta surpreendeu até ele mesmo.
Sofia sorriu.
— Minha mãe também trabalha muito.
Mas ela sempre para pra brincar comigo.
Helena fechou os olhos.
"Por favor, não continue..."
Mas continuou.
— Você não brinca nunca?
Leonardo ficou alguns segundos sem responder.
A última vez que alguém lhe perguntara aquilo...
Ele nem lembrava.
— Não.
— Ah...
A menina abaixou a cabeça.
— É por isso que você parece triste.
O escritório mergulhou em completo silêncio.
Helena sentiu o rosto esquentar.
— Sofia!
Já chega.
Vamos embora.
Ela segurou a mão da filha e caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se para Leonardo.
— Eu realmente peço desculpas.
Se achar melhor...
Ela nem terminou.
Leonardo respondeu antes.
— A criança apenas fez perguntas.
— Mesmo assim...
— Apenas certifique-se de que não entre novamente.
— Sim, senhor.
Quando mãe e filha saíram, o escritório voltou ao silêncio habitual.
Ou quase.
Sobre a mesa de Leonardo havia uma folha de papel.
Ele não se lembrava de tê-la visto antes.
Pegou-a.
Era um desenho.
Provavelmente Sofia o fizera enquanto esperava Helena chegar.
No papel havia um homem de terno preto diante de um prédio enorme.
Ao lado dele, uma menina segurava um balão vermelho.
Acima do desenho, com letras tortas, estava escrito:
"O moço da janela precisa de uma amiga."
Leonardo ficou olhando para aquele papel durante longos segundos.
Depois abriu a gaveta.
A mesma onde guardava a fotografia da esposa.
Pensou em jogar o desenho fora.
Era apenas um rabisco infantil.
Mas, por algum motivo que não conseguia explicar, dobrou cuidadosamente a folha.
E a guardou.
Na cozinha, Helena ainda repreendia a filha.
— Você me deu um susto enorme.
Sofia abaixou a cabeça.
— Desculpa.
— Eu falei que aquele escritório era proibido.
— Eu sei.
— Então por que entrou?
A menina respondeu com toda a sinceridade do mundo.
— Porque eu achei que ele precisava conversar com alguém.
Helena suspirou.
Era impossível ficar brava por muito tempo.
Aquela criança via o mundo de uma maneira que poucos adultos conseguiam enxergar.
E, sem que ninguém percebesse, ela acabara de fazer a primeira rachadura no muro que Leonardo Montenegro passara cinco anos construindo ao redor do próprio coração.