Sangue Eterno

Sangue EternoPT

Paranormal
Última atualização: 2026-05-21
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Índice

Ayla Morgan sempre foi diferente. Órfã desde os sete anos, ela carrega um mistério que nem ela mesma compreende: por que sua mente é um santuário impenetrável? Por que sua presença desperta tanto fascínio quanto perigo? Quando Dorian Valecliff chega a Ravenmoor com sua enigmática família, Ayla se vê presa entre dois mundos que não deveria conhecer. De um lado, Kai Blackwood, seu protetor de anos, esconde segredos sobre o passado dela que podem mudar tudo. Do outro, Dorian a observa com uma intensidade perturbadora, incapaz de ler seus pensamentos pela primeira vez em quase dois séculos. Mas há algo muito maior em jogo. Forças obscuras a espreitam nas sombras, sedentas pelo que corre em suas veias. Algo que ela nem sabe que possui. Algo pelo qual estão dispostos a matar. Em uma cidade onde vampiros e lobisomens coexistem em trégua frágil, Ayla descobrirá que sua origem não é apenas um mistério — é uma maldição. E que o maior perigo pode não vir de fora, mas do próprio sangue que a mantém viva.

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Capítulo 1

Prólogo

Há coisas que a gente não consegue explicar.

Sensações que chegam antes do acontecimento em si — um frio na nuca que aparece do nada, o cheiro de terra molhada quando o céu ainda está limpo, um aperto no peito exatamente dois segundos antes da primeira palavra de um adeus. Cresci achando que todo mundo sentia isso. Que era normal. Que o mundo inteiro caminhava com esse ruído baixo embaixo dos próprios pensamentos, essa frequência que vibrava nas extremidades das coisas e dizia: preste atenção, algo está prestes a mudar.

Demorei muito tempo para entender que não era assim. Que a maioria das pessoas simplesmente... não ouvia.

Eu ouvia.

Desde que me entendo por gente, Ravenmoor falava comigo de um jeito que não conseguia reproduzir em palavras. Era uma linguagem anterior à linguagem — uma conversa feita de névoa rastejando rente ao chão nas manhãs de outubro, do som específico que o vento fazia ao passar entre as árvores velhas no limite leste da cidade, do modo como as lamparinas das ruas antigas tremeluziam quando não havia vento algum. A cidade tinha pulso. Tinha humor. Tinha segredos com textura, que você podia quase tocar se ficasse quieta o suficiente.

As florestas ao redor não eram apenas árvores. Nunca foram. Eram sentinelas com raízes tão fundas que chegavam a lugares que mapas não alcançavam, guardiãs de algo que dormia sob a terra com a paciência de quem sabe que o tempo não é inimigo. Eu não sabia o que era esse algo. Mas sentia a presença dele toda vez que me aproximava demais da borda da mata, como o calor de uma chama antes de você ver a própria chama.

Cresci aprendendo a ignorar tudo isso.

Aprendi a não mencionar que conseguia sentir quando alguém estava mentindo — não o nervosismo de quem mente, mas o peso real da mentira, como uma nota errada dentro de uma melodia que parecia certa. Aprendi a fingir que minha cabeça era igual à de todo mundo: vazia das frequências erradas, cheia das preocupações certas. Notas. Provas. O aluguel que a Sra. Hargrove me cobrava com olhos calculistas toda primeira semana do mês, como se eu fosse uma despesa que ela lamentava ter assumido.

Eu era uma órfã de sete anos com um arquivo no cartório, um endereço que não existia mais e zero respostas sobre o incêndio que apagou tudo que veio antes. Ravenmoor foi o que restou. Os Hargrove foram o que restou. Kai foi o que restou — e talvez tenha sido a única coisa boa que o acaso me deu sem cobrar nada em troca.

Durante anos, achei que minha vida era isso. Pequena, estreita, previsível dentro dos limites de uma cidade que não crescia e não encolhia, que simplesmente existia no mesmo ritmo lento desde antes de eu nascer.

Então os Valecliff chegaram.

E tudo que eu havia construído com tanto cuidado — a normalidade, a distância segura, a ilusão de que era uma garota comum com problemas comuns — começou a rachar por baixo, feito gelo fino sobre água funda, silencioso e inevitável.

Havia dois homens nessa história. Dois homens que, cada um à sua maneira e pelos motivos mais opostos possíveis, mudaram completamente o que eu achava que sabia sobre mim mesma. Sobre o mundo. Sobre o tipo de criatura que pode existir nas sombras de uma cidade pequena quando ninguém está prestando atenção. Sobre o peso específico de descobrir que o sangue nas suas veias carrega algo que você nunca pediu e não pode devolver.

Houve traições que não vi chegar. Perdas que me quebraram de modos que eu não sabia ser possível quebrar. Houve noites na floresta e sangue na terra e escolhas que não tinham resposta certa — só respostas que você aprendia a carregar.

Se eu pudesse voltar a esse ponto de antes — ao dia em que a caminhonete preta parou na frente da mansão Vael e algo em mim soou como alarme — e escolher ignorar tudo que veio depois?

Não voltaria.

Porque foi exatamente no centro daquele caos, naquelas mentiras empilhadas sobre verdades mais antigas ainda, naquele sangue e naquela dor e naqueles dois pares de olhos que me olhavam de maneiras tão diferentes e igualmente impossíveis de ignorar, que eu finalmente entendi quem eu era.

E isso — por mais que tenha custado cada cicatriz, cada lágrima, cada noite em que achei que não ia sobreviver à manhã — valeu cada segundo.

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