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Capítulo 3 — Blackwood

Entrei no banheiro. Molhei o rosto e, quando voltei a abrir os olhos para ver meu reflexo no espelho novamente, quase dei um grito de desespero.

A garota que estava no refeitório com aqueles três estava no banheiro junto comigo.

Parecia não se importar com a minha presença. Ela pegou alguma coisa de sua bolsa de grife.

O vermelho do batom realçava ainda mais sua beleza. Nunca tinha visto uma pessoa tão linda assim. Sua pele era tão clara quanto a neve, e seus olhos amendoados eram radiantes.

Minha autoestima caiu imediatamente.

Não sei por qual motivo minhas mãos começaram a tremer. Estava nervosa por causa de uma pessoa que nunca tinha visto antes e com quem muito menos havia conversado.

O silêncio no banheiro me assustava mais do que qualquer coisa. Parecia um filme de terror.

Ela saiu, e tudo voltou ao normal.

Senti uma sensação diferente quando ela me deixou sozinha.

Saí o mais rápido possível.

Não demorou muito para que as aulas acabassem. Peguei meus materiais e desci as escadas com meus amigos.

— A gente se vê amanhã, Helena. Foi ótimo te conhecer — disse Carlos, com um sorriso, acenando.

Ele entrou em um carro e foi embora logo depois. As meninas também seguiram para outra direção.

Liguei umas três vezes, mas nada do meu pai atender. Então, resolvi voltar para casa sozinha, de ônibus.

Sorte que eu sempre saía com dinheiro no bolso.

Quando cheguei em casa, meu pai estava do lado de fora, fazendo-se de mecânico.

— Putz, esqueci de te pegar na escola, filha. Me perdoa... — Meu pai me viu assim que cheguei.

— Está tudo bem. Vim de ônibus. Está tudo bem com o carro? — olhei para o veículo aberto. — Quebrou?

— Não exatamente. Deu um problema, e conheci alguém que sabe do assunto — respondeu, sorrindo.

Um senhor que parecia ter uma idade próxima à do meu pai saiu de trás do carro. Ele estava sorrindo e veio em nossa direção.

— Filha, esse é o senhor Echo Blackwood. Ele está me ajudando com o carro — disse meu pai, limpando as mãos.

Cumprimentei o senhor. Ele tinha uma expressão muito educada.

— Prazer, Helena. Seu pai fala muito de você — disse ele, sorrindo.

Por incrível que parecesse, senti-me bem com a presença dele.

Quando apertei sua mão, percebi que sua pele era macia e parecia um pouco quente. Não o culpava. Mexer com essas coisas podia machucar as mãos, e o tempo estava ensolarado.

— Filha, vamos continuar aqui. O almoço está pronto. Deixei tudo preparado para você. Eu já comi — meu pai sorriu e beijou minha testa.

Balancei a cabeça e entrei.

Soltei o ar e me joguei no sofá. Depois, corri para o quarto, guardei minhas coisas e troquei de roupa por uma mais confortável.

Dessa vez, o prato do dia era macarrão com batatas cozidas. Eu amava aquele prato. Era a comida preferida do meu pai.

Depois do almoço, sem nada para fazer, entrei na internet para ver as notícias da cidade nova.

Atualizar.

Notícias recentes.

«“Jovem de 16 anos foi atacada por um animal na floresta de Lago Azul. A vítima foi encontrada completamente sem vida após sair de casa para ir à escola e não voltar mais. Depois de dois dias, ela foi encontrada morta na floresta. Após investigação, os policiais declararam que a causa teria sido um ataque de lobos e ursos da floresta.”»

Engoli em seco.

Não sabia que havia animais perigosos na cidade. E eu estava louca para conhecer o lago e a floresta.

Lá se foi minha esperança de conhecer o famoso “Lago Azul”.

Escutei uma batida na porta. Levantei-me e abri.

Era meu pai.

— Está ocupada?

— Não, pai. Pode falar. O que foi? Aconteceu alguma coisa?

— É... então...

Ele queria pedir alguma coisa. Eu sabia pelo jeito que estava falando.

— Eu queria te pedir um favorzinho...

— Fala, pai. O que foi?

— Então, o senhor Echo esqueceu a chave de fenda dele na oficina. Não é muito longe, é aqui perto. Eu gostaria de saber se você poderia pegar a chave com o filho dele, por favor, filha. Não posso sair agora.

Achei que fosse alguma coisa grave. Pelo visto, tinha me preocupado à toa.

Saí de casa para ir até a oficina. Parecia ser a única da cidade.

Realmente, não era tão longe. Fui a pé.

Quando cheguei, estava aberta. Havia vários carros usados e quebrados espalhados pelo local, além de uma atmosfera tipicamente mecânica.

Olhei para todos os lados, mas não encontrei ninguém.

Então, entrei e fiquei procurando por alguém, até escutar um barulho.

Segui o som, mas não encontrei ninguém.

Quando me virei, dei de cara com um peitoral que fez meus olhos paralisarem e minhas bochechas queimarem de vergonha.

Afastei-me rapidamente e olhei para frente.

O garoto era muito bonito...

Tipo... muito lindo.

Eu não queria ser tão pervertida assim.

— E-eee...

Que droga! Eu não conseguia dizer nada.

Ele também não ajudava. Ficava ali, com uma postura atraente.

Meu Deus! Como ele era gato!

— Ok... Você é?

Que voz...

— Helena... Morris... Meu pai está com o senhor Echo, e eles me pediram para vir pegar a chave de fenda com o filho dele...

“Como eu faço para não gaguejar na frente dele?”

— Certo. Vem comigo.

Segui-o.

Ainda não estava acreditando que tudo aquilo tinha acontecido. Ele estava ocupado, então resolvi me desculpar pelo ocorrido.

— Desculpa...

Vi a expressão que ele fez e não queria nem saber qual seria a resposta.

— Você é filha do Robert? — perguntou ele, inclinando um pouco a cabeça.

— Eu?

— Não. Eu — respondeu, sorrindo.

Foi o sorriso mais bonito que já vi.

— Sim. Por quê?

— Por nada. Era só para confirmar. Meu pai ainda está na sua casa?

— Ah... sim.

— Tudo bem. Aqui.

Ele me entregou a chave de fenda.

— O-obrigada...

Virei-me para ir embora.

— Helena.

— Huh?

— Cuidado por aí à noite, caso esteja pensando em sair sozinha. Aconteceram alguns acidentes, e os noticiários falam a verdade.

“Será que ele está falando da garota que faleceu recentemente?”

— T-tá bom... obrigada...

Ele ficou em silêncio por um instante.

— A propósito, me chamo Rowan. Rowan Blackwood.

Rowan.

Era um nome diferente.

Único.

Gostei.

Hoje foi um dia bem louco.

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