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Capítulo 4 — O Cheiro da Chuva

Naquela manhã, Helena acordou alguns minutos antes do despertador.

Ficou deitada por um instante, encarando a janela.

A chuva havia parado durante a madrugada, mas o céu continuava cinzento.

Ela não conseguia esquecer o rapaz da cafeteria.

Dorian.

Ela ainda não sabia seu nome, mas lembrava perfeitamente do rosto.

Principalmente dos olhos.

Havia alguma coisa estranha nele.

Não era apenas a aparência séria ou o jeito distante.

Era a sensação de que, quando ele olhava para alguém, parecia enxergar muito mais do que deveria.

Helena se sentou na cama.

— Eu nem conheço esse garoto.

Pegou o celular.

Uma mensagem de Michel estava esperando por ela.

Michel: Bom dia, dorminhoca. Vai para a faculdade hoje?

Helena sorriu.

Helena: Infelizmente.

A resposta veio alguns segundos depois.

Michel: Que pena. Eu estava pensando em sequestrar você para tomar café.

Ela riu.

Helena: Isso parece muito suspeito.

Michel: Então você está aprendendo.

Helena: Vai trabalhar, Blackwood.

Michel: Já estou indo. E você também.

Helena guardou o celular.

— Idiota.

Mas continuou sorrindo.

Na faculdade, o dia começou normalmente.

Aulas, trabalhos, professores falando mais do que deveriam e Helena tentando acompanhar tudo enquanto lutava contra o sono.

No intervalo, ela estava sentada com duas amigas quando uma delas colocou o celular sobre a mesa.

— Olha isso.

Helena inclinou a cabeça.

— O quê?

— Mais uma notícia sobre os corpos encontrados perto da floresta.

O sorriso de Helena desapareceu.

— De novo?

— Parece que encontraram outro ontem à noite.

— Outro? — Helena perguntou, surpresa.

— Sim.

A outra amiga pegou o celular.

— E dessa vez ninguém sabe explicar direito o que aconteceu.

Helena ficou em silêncio.

— A polícia disse alguma coisa?

— Só que ainda estão investigando.

Ela desviou os olhos.

— Então provavelmente foi algum animal.

A amiga balançou a cabeça.

— Três pessoas em poucos dias?

— Talvez tenha mais de um.

— Você está tentando se convencer disso.

Helena respirou fundo.

— Eu só não quero acreditar nas histórias que esse povo inventa.

— Lobos e vampiros?

— Exatamente.

As três riram.

Mas Helena não conseguiu achar aquilo tão engraçado quanto antes.

Do outro lado da cidade, Dorian estava sentado à mesa da sala.

Adrian havia colocado alguns documentos diante dele.

— A partir de hoje, vocês precisam começar a frequentar lugares públicos.

Dorian ergueu os olhos.

— Por quê?

— Porque ficar completamente isolados também chama atenção.

Vincent pegou um dos documentos.

— Faz sentido.

Fiona olhou para o pai.

— Então podemos sair?

— Com cuidado.

Ela sorriu.

— Finalmente.

Dorian permaneceu calado.

Natasha percebeu.

— Você não precisa ir, se não quiser.

— Eu vou.

Adrian o encarou.

— Tem certeza?

— Sim.

Vincent estreitou os olhos.

— Para onde?

Dorian levantou-se.

— Faculdade.

Fiona arregalou os olhos.

— Faculdade?

— Sim.

— Você?

Dorian olhou para ela.

— Algum problema?

— Nenhum. Só não imaginava você estudando.

Vincent soltou uma risada curta.

— Talvez seja bom para você.

Dorian pegou o casaco.

— Não preciso de opinião.

Fiona sorriu.

— Ele está animado.

Dorian saiu da sala.

Vincent olhou para os pais.

— Alguma coisa está errada.

Adrian permaneceu sério.

— Também acho.

Naquela tarde, Helena saiu da faculdade mais cedo.

O céu havia escurecido novamente.

Ela caminhava pela calçada enquanto procurava o celular dentro da bolsa.

Então ouviu alguém chamando seu nome.

— Helena.

Ela se virou.

Era Dorian.

Ele estava parado alguns metros atrás.

Vestia um suéter escuro e carregava uma mochila.

Helena piscou algumas vezes.

— Você.

Dorian se aproximou.

— Eu.

Ela sorriu.

— Você estuda aqui?

— A partir de hoje.

— Ah.

Helena olhou para ele de cima a baixo.

— Então você é realmente novo.

— Sim.

— Eu achei que fosse.

Dorian continuou observando-a.

Helena percebeu.

— O que foi?

— Nada.

— Você está olhando para mim de um jeito estranho.

— Você fala demais.

Helena abriu a boca, surpresa.

— Nossa.

Ela riu.

— Essa foi inesperada.

Dorian desviou o olhar.

— Desculpe.

— Tudo bem.

Ela caminhou alguns passos.

— Então... qual é o seu nome?

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Dorian.

— Dorian...

Helena repetiu o nome mentalmente.

— É bonito.

— Obrigado.

— E você veio de onde?

Dorian olhou para ela.

— Longe.

Helena riu.

— Essa foi uma resposta péssima.

— Foi a que eu tinha.

Ela balançou a cabeça.

— Você realmente não gosta de conversar, não é?

— Não muito.

— Percebi.

Por alguns segundos, os dois caminharam em silêncio.

Então Dorian sentiu o cheiro novamente.

Mais forte.

Muito mais forte.

O coração de Helena batia tranquilamente ao seu lado.

Ele apertou a mandíbula.

Precisava se afastar.

— Você está bem? — ela perguntou.

— Estou.

— Tem certeza?

Dorian parou.

Helena também.

Ele olhou diretamente para ela.

Por um instante, seus olhos pareceram mudar de cor.

Helena piscou.

Quando olhou novamente, estavam normais.

— Estou apenas cansado.

— Você parece mesmo.

Ela sorriu.

— Talvez precise dormir mais.

Dorian quase sorriu.

Quase.

— Talvez.

Mais tarde, Helena chegou à cafeteria.

Ainda pensava nele.

Dorian era estranho.

Muito estranho.

Mas havia alguma coisa que fazia Helena querer descobrir mais.

— Helena!

Ela se virou.

Sua colega estava segurando uma bandeja.

— Você está distraída hoje.

— Eu?

— Sim. Está olhando para o nada há uns cinco minutos.

Helena riu.

— Estou cansada.

— Sei.

— É verdade.

— Tem nome?

Helena arregalou os olhos.

— O quê?

A colega sorriu.

— Essa distração.

— Não começa.

— Eu nem falei nada.

— Mas eu conheço essa sua cara.

As duas riram.

O sino da porta tocou.

Helena olhou automaticamente para a entrada.

Dorian havia entrado.

Seu sorriso desapareceu lentamente.

Ele caminhou até uma mesa.

Helena respirou fundo.

— De novo?

A colega sorriu.

— Acho que alguém gostou do café.

— Ele nem terminou da última vez.

— Talvez tenha gostado de outra coisa.

— Para com isso.

Helena pegou o bloco.

— Eu vou atender.

Ela caminhou até a mesa.

— Boa noite.

Dorian levantou os olhos.

— Boa noite.

— Vai querer o mesmo?

— Sim.

— Pelo menos você sabe o que gosta.

Ele ficou olhando para ela.

— Talvez eu esteja descobrindo.

Helena ficou sem reação por um segundo.

— Ah...

Dorian desviou os olhos.

— Café.

Ela percebeu que ele estava evitando olhar diretamente para ela.

— Certo.

Helena voltou para o balcão.

A colega imediatamente se aproximou.

— O que ele falou?

— Nada.

— Helena.

— Ele só pediu café.

— Você está vermelha.

— Estou trabalhando.

— Claro.

Helena pegou a xícara.

— Vai cuidar da sua vida.

Dorian ficou sozinho.

Quando Helena se aproximou para entregar o café, ele sentiu novamente aquele cheiro.

Dessa vez, não conseguiu ignorar.

Seus olhos ficaram mais intensos por um instante.

Ele levantou-se.

Helena franziu a testa.

— Você vai embora?

Dorian não respondeu.

Apenas caminhou até ela.

Helena ficou imóvel.

— Dorian?

Ele parou diante dela.

Muito perto.

Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo.

Dorian inclinou levemente o rosto.

Por um instante, parecia que iria beijá-la.

Helena fechou os olhos.

Mas Dorian parou.

Ele respirou fundo e recuou.

— Desculpe.

Helena abriu os olhos.

— Pelo quê?

— Eu... não deveria.

Ele saiu rapidamente.

Helena ficou parada, completamente confusa.

A colega apareceu atrás dela.

— O que aconteceu?

Helena tocou os próprios lábios, ainda tentando entender.

— Acho que ele tentou me beijar.

A colega arregalou os olhos.

— O quê?!

— Eu não sei.

Helena olhou para a porta por onde ele havia saído.

— Talvez ele seja tímido.

Do lado de fora, Dorian caminhava rapidamente pela rua.

Sua respiração estava pesada.

Ele fechou os olhos.

O cheiro ainda estava ali.

Não conseguia esquecê-lo.

Não conseguia afastá-lo.

E aquilo o irritava.

Muito.

Naquela noite, Michel estava na oficina com o pai.

Ele estava terminando de guardar algumas ferramentas quando seu pai comentou:

— Soube que os Ashford chegaram.

Michel parou.

— Ashford?

O pai assentiu.

— Uma família nova. Vieram de longe.

Michel ficou sério.

— Onde estão morando?

— Na mansão perto da parte norte.

Ele não respondeu.

Seu pai percebeu a mudança.

— Michel?

— Nada.

— Você conhece esse sobrenome?

Michel demorou alguns segundos para responder.

— Conheço.

— De onde?

Michel pegou a jaqueta.

— De histórias antigas.

O pai ficou sério.

— Então fique longe deles.

Michel olhou para ele.

— Eu já pretendia.

Enquanto isso, em algum lugar distante de Lago Azul, uma das quatro figuras que haviam chegado à cidade parou diante de uma estrada.

Catarina fechou os olhos.

— Eu sinto.

Lucia olhou para ela.

— Tem certeza?

Catarina abriu os olhos lentamente.

— Sim.

Marcos se aproximou.

— Ele está aqui?

Ela sorriu.

— Está.

O homem que estava à frente dos três permaneceu imóvel.

Então virou o rosto na direção de Lago Azul.

Seus olhos permaneceram fixos na cidade.

— Finalmente.

E, pela primeira vez em muito tempo, aquele que havia fugido estava novamente ao alcance deles.

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