Mundo ficciónIniciar sesiónNaquela manhã, Helena acordou alguns minutos antes do despertador.
Ficou deitada por um instante, encarando a janela.
A chuva havia parado durante a madrugada, mas o céu continuava cinzento.
Ela não conseguia esquecer o rapaz da cafeteria.
Dorian.
Ela ainda não sabia seu nome, mas lembrava perfeitamente do rosto.
Principalmente dos olhos.
Havia alguma coisa estranha nele.
Não era apenas a aparência séria ou o jeito distante.
Era a sensação de que, quando ele olhava para alguém, parecia enxergar muito mais do que deveria.
Helena se sentou na cama.
— Eu nem conheço esse garoto.
Pegou o celular.
Uma mensagem de Michel estava esperando por ela.
Michel: Bom dia, dorminhoca. Vai para a faculdade hoje?
Helena sorriu.
Helena: Infelizmente.
A resposta veio alguns segundos depois.
Michel: Que pena. Eu estava pensando em sequestrar você para tomar café.
Ela riu.
Helena: Isso parece muito suspeito.
Michel: Então você está aprendendo.
Helena: Vai trabalhar, Blackwood.
Michel: Já estou indo. E você também.
Helena guardou o celular.
— Idiota.
Mas continuou sorrindo.
Na faculdade, o dia começou normalmente.
Aulas, trabalhos, professores falando mais do que deveriam e Helena tentando acompanhar tudo enquanto lutava contra o sono.
No intervalo, ela estava sentada com duas amigas quando uma delas colocou o celular sobre a mesa.
— Olha isso.
Helena inclinou a cabeça.
— O quê?
— Mais uma notícia sobre os corpos encontrados perto da floresta.
O sorriso de Helena desapareceu.
— De novo?
— Parece que encontraram outro ontem à noite.
— Outro? — Helena perguntou, surpresa.
— Sim.
A outra amiga pegou o celular.
— E dessa vez ninguém sabe explicar direito o que aconteceu.
Helena ficou em silêncio.
— A polícia disse alguma coisa?
— Só que ainda estão investigando.
Ela desviou os olhos.
— Então provavelmente foi algum animal.
A amiga balançou a cabeça.
— Três pessoas em poucos dias?
— Talvez tenha mais de um.
— Você está tentando se convencer disso.
Helena respirou fundo.
— Eu só não quero acreditar nas histórias que esse povo inventa.
— Lobos e vampiros?
— Exatamente.
As três riram.
Mas Helena não conseguiu achar aquilo tão engraçado quanto antes.
Do outro lado da cidade, Dorian estava sentado à mesa da sala.
Adrian havia colocado alguns documentos diante dele.
— A partir de hoje, vocês precisam começar a frequentar lugares públicos.
Dorian ergueu os olhos.
— Por quê?
— Porque ficar completamente isolados também chama atenção.
Vincent pegou um dos documentos.
— Faz sentido.
Fiona olhou para o pai.
— Então podemos sair?
— Com cuidado.
Ela sorriu.
— Finalmente.
Dorian permaneceu calado.
Natasha percebeu.
— Você não precisa ir, se não quiser.
— Eu vou.
Adrian o encarou.
— Tem certeza?
— Sim.
Vincent estreitou os olhos.
— Para onde?
Dorian levantou-se.
— Faculdade.
Fiona arregalou os olhos.
— Faculdade?
— Sim.
— Você?
Dorian olhou para ela.
— Algum problema?
— Nenhum. Só não imaginava você estudando.
Vincent soltou uma risada curta.
— Talvez seja bom para você.
Dorian pegou o casaco.
— Não preciso de opinião.
Fiona sorriu.
— Ele está animado.
Dorian saiu da sala.
Vincent olhou para os pais.
— Alguma coisa está errada.
Adrian permaneceu sério.
— Também acho.
Naquela tarde, Helena saiu da faculdade mais cedo.
O céu havia escurecido novamente.
Ela caminhava pela calçada enquanto procurava o celular dentro da bolsa.
Então ouviu alguém chamando seu nome.
— Helena.
Ela se virou.
Era Dorian.
Ele estava parado alguns metros atrás.
Vestia um suéter escuro e carregava uma mochila.
Helena piscou algumas vezes.
— Você.
Dorian se aproximou.
— Eu.
Ela sorriu.
— Você estuda aqui?
— A partir de hoje.
— Ah.
Helena olhou para ele de cima a baixo.
— Então você é realmente novo.
— Sim.
— Eu achei que fosse.
Dorian continuou observando-a.
Helena percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Você está olhando para mim de um jeito estranho.
— Você fala demais.
Helena abriu a boca, surpresa.
— Nossa.
Ela riu.
— Essa foi inesperada.
Dorian desviou o olhar.
— Desculpe.
— Tudo bem.
Ela caminhou alguns passos.
— Então... qual é o seu nome?
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Dorian.
— Dorian...
Helena repetiu o nome mentalmente.
— É bonito.
— Obrigado.
— E você veio de onde?
Dorian olhou para ela.
— Longe.
Helena riu.
— Essa foi uma resposta péssima.
— Foi a que eu tinha.
Ela balançou a cabeça.
— Você realmente não gosta de conversar, não é?
— Não muito.
— Percebi.
Por alguns segundos, os dois caminharam em silêncio.
Então Dorian sentiu o cheiro novamente.
Mais forte.
Muito mais forte.
O coração de Helena batia tranquilamente ao seu lado.
Ele apertou a mandíbula.
Precisava se afastar.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Estou.
— Tem certeza?
Dorian parou.
Helena também.
Ele olhou diretamente para ela.
Por um instante, seus olhos pareceram mudar de cor.
Helena piscou.
Quando olhou novamente, estavam normais.
— Estou apenas cansado.
— Você parece mesmo.
Ela sorriu.
— Talvez precise dormir mais.
Dorian quase sorriu.
Quase.
— Talvez.
Mais tarde, Helena chegou à cafeteria.
Ainda pensava nele.
Dorian era estranho.
Muito estranho.
Mas havia alguma coisa que fazia Helena querer descobrir mais.
— Helena!
Ela se virou.
Sua colega estava segurando uma bandeja.
— Você está distraída hoje.
— Eu?
— Sim. Está olhando para o nada há uns cinco minutos.
Helena riu.
— Estou cansada.
— Sei.
— É verdade.
— Tem nome?
Helena arregalou os olhos.
— O quê?
A colega sorriu.
— Essa distração.
— Não começa.
— Eu nem falei nada.
— Mas eu conheço essa sua cara.
As duas riram.
O sino da porta tocou.
Helena olhou automaticamente para a entrada.
Dorian havia entrado.
Seu sorriso desapareceu lentamente.
Ele caminhou até uma mesa.
Helena respirou fundo.
— De novo?
A colega sorriu.
— Acho que alguém gostou do café.
— Ele nem terminou da última vez.
— Talvez tenha gostado de outra coisa.
— Para com isso.
Helena pegou o bloco.
— Eu vou atender.
Ela caminhou até a mesa.
— Boa noite.
Dorian levantou os olhos.
— Boa noite.
— Vai querer o mesmo?
— Sim.
— Pelo menos você sabe o que gosta.
Ele ficou olhando para ela.
— Talvez eu esteja descobrindo.
Helena ficou sem reação por um segundo.
— Ah...
Dorian desviou os olhos.
— Café.
Ela percebeu que ele estava evitando olhar diretamente para ela.
— Certo.
Helena voltou para o balcão.
A colega imediatamente se aproximou.
— O que ele falou?
— Nada.
— Helena.
— Ele só pediu café.
— Você está vermelha.
— Estou trabalhando.
— Claro.
Helena pegou a xícara.
— Vai cuidar da sua vida.
Dorian ficou sozinho.
Quando Helena se aproximou para entregar o café, ele sentiu novamente aquele cheiro.
Dessa vez, não conseguiu ignorar.
Seus olhos ficaram mais intensos por um instante.
Ele levantou-se.
Helena franziu a testa.
— Você vai embora?
Dorian não respondeu.
Apenas caminhou até ela.
Helena ficou imóvel.
— Dorian?
Ele parou diante dela.
Muito perto.
Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo.
Dorian inclinou levemente o rosto.
Por um instante, parecia que iria beijá-la.
Helena fechou os olhos.
Mas Dorian parou.
Ele respirou fundo e recuou.
— Desculpe.
Helena abriu os olhos.
— Pelo quê?
— Eu... não deveria.
Ele saiu rapidamente.
Helena ficou parada, completamente confusa.
A colega apareceu atrás dela.
— O que aconteceu?
Helena tocou os próprios lábios, ainda tentando entender.
— Acho que ele tentou me beijar.
A colega arregalou os olhos.
— O quê?!
— Eu não sei.
Helena olhou para a porta por onde ele havia saído.
— Talvez ele seja tímido.
Do lado de fora, Dorian caminhava rapidamente pela rua.
Sua respiração estava pesada.
Ele fechou os olhos.
O cheiro ainda estava ali.
Não conseguia esquecê-lo.
Não conseguia afastá-lo.
E aquilo o irritava.
Muito.
Naquela noite, Michel estava na oficina com o pai.
Ele estava terminando de guardar algumas ferramentas quando seu pai comentou:
— Soube que os Ashford chegaram.
Michel parou.
— Ashford?
O pai assentiu.
— Uma família nova. Vieram de longe.
Michel ficou sério.
— Onde estão morando?
— Na mansão perto da parte norte.
Ele não respondeu.
Seu pai percebeu a mudança.
— Michel?
— Nada.
— Você conhece esse sobrenome?
Michel demorou alguns segundos para responder.
— Conheço.
— De onde?
Michel pegou a jaqueta.
— De histórias antigas.
O pai ficou sério.
— Então fique longe deles.
Michel olhou para ele.
— Eu já pretendia.
Enquanto isso, em algum lugar distante de Lago Azul, uma das quatro figuras que haviam chegado à cidade parou diante de uma estrada.
Catarina fechou os olhos.
— Eu sinto.
Lucia olhou para ela.
— Tem certeza?
Catarina abriu os olhos lentamente.
— Sim.
Marcos se aproximou.
— Ele está aqui?
Ela sorriu.
— Está.
O homem que estava à frente dos três permaneceu imóvel.
Então virou o rosto na direção de Lago Azul.
Seus olhos permaneceram fixos na cidade.
— Finalmente.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquele que havia fugido estava novamente ao alcance deles.







