– O PESO DO QUE NÃO SE DIZ
A casa acordou envolta em um silêncio espesso.
Não era o silêncio da tranquilidade, mas aquele que se forma quando palavras importantes deixam de ser ditas e passam a ocupar espaço demais dentro das pessoas.
Ana foi a primeira a levantar.
Preparou o café de Téo, organizou a mochila, revisou a agenda da escola e manteve o rosto sereno — um exercício diário de autocontrole. Ela aprendera, nos últimos dias, que sobreviver naquele ambiente exigia mais do que paciência: exigia estratégia emocional.
Téo percebeu.
— Você tá diferente — disse ele, enquanto comia o pão.
— Diferente como? — perguntou Ana, sorrindo.
— Mais quieta. Mas não triste.
Ela se agachou à frente dele.
— Às vezes a gente fica quieto porque está ficando mais forte por dentro.
Ele pensou por alguns segundos.
— Tipo quando eu aprendo algo difícil?
— Exatamente assim.
Na sala, William descia as escadas quando ouviu a conversa.
Parou no último degrau.
Observou Ana com Téo.
A naturalidade. O cuidado.