– NARRATIVAS EM DISPUTA
WILLIAM
A culpa não vinha acompanhada de imagens claras.
Era pior do que isso.
Vinha em fragmentos.
Sensações soltas. Um cansaço que não fazia sentido. A impressão incômoda de ter cruzado uma linha sem lembrar quando nem como.
No espelho do banheiro, encarei meu próprio reflexo.
Eu parecia o mesmo. Mas não me sentia.
Desci para o café em silêncio.
Daiane já estava lá.
— Dormiu melhor? — perguntou, com a voz baixa, quase cuidadosa demais.
— Não — respondi. — Ainda estou confuso.
Ela pousou a xícara devagar.
— Você estava muito mal ontem — disse. — Eu fiquei preocupada.
— Fiz algo… errado? — perguntei, direto.
Ela me olhou como quem hesita. Como quem mede palavras.
— Você estava fragilizado — respondeu. — E eu fiquei com você. Só isso.
O “só isso” ecoou alto demais.
Assenti, mesmo sem convicção.
Eu confiava nela. Ou pelo menos… queria confiar.
DAIANE
Ele não lembrava.
Exatamente como eu previa.
Não precisei exagerar. Nem inventar detalhes.